Painel Rondônia

Turista chilena denuncia líder indígena por estupro em aldeia no Acre

Investigação da Polícia Civil apura caso na Aldeia Me Nia Ibu, em Feijó, enquanto vítima busca alertar outras mulheres

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Loreto Belen denunciou líder indígena por estupro em Feijó — Foto: Reprodução

Uma turista chilena, Loreto Belén Manzo, denunciou o líder indígena Isaka Ruy por estupro e roubo durante uma imersão espiritual na Aldeia Me Nia Ibu (São Francisco), do povo Huni Kuî, localizada em Feijó, interior do Acre.

A denúncia, registrada em boletim de ocorrência na Polícia Civil, está sob investigação, com vídeos apresentados como prova. Loreto também usou as redes sociais para relatar os abusos, buscando alertar outras mulheres e incentivar denúncias.

Isaka Ruy nega as acusações e permanece foragido, segundo as autoridades.

Contexto da denúncia

Loreto, que se apresenta como nutricionista, terapeuta integral, estudante de medicinas ancestrais e médium, visitou a aldeia pela primeira vez em janeiro de 2025, quando passou 15 dias estudando práticas tradicionais da medicina da floresta. Em 15 de maio, ela retornou para uma nova vivência, adquirindo um pacote de aproximadamente R$ 5,5 mil para permanecer várias semanas na comunidade.

A experiência, porém, tornou-se traumática devido a uma série de incidentes que culminaram no suposto estupro em 17 de junho. De acordo com o relato da vítima, os abusos começaram quatro dias após sua chegada, durante um banho medicinal, quando Isaka Ruy teria tocado suas partes íntimas sem consentimento. Apesar do desconforto, Loreto inicialmente não reagiu, pois, segundo ela, confiava no líder espiritual. O momento foi gravado pela turista, que filmava a atividade como parte da imersão cultural.

Dias depois, durante uma dieta espiritual na floresta, Isaka tentou beijá-la à força, o que a deixou confusa. Após relatar o ocorrido aos pais e à esposa do suspeito, Loreto recebeu pedidos de desculpas e a solicitação para apagar o vídeo. A família de Isaka também ofereceu um desconto no pacote, reduzindo o valor para R$ 2,5 mil, e a convidou a permanecer na aldeia sem custos adicionais.

A situação escalou em 17 de junho, quando Isaka sugeriu uma conversa próximo a uma árvore samaúma, em uma área isolada da mata, a cerca de 20 minutos da aldeia. Segundo Loreto, foi nesse local que o estupro ocorreu. “Ele começou a me dizer que queria que eu fosse sua parceira, que sentia amor, que queria tudo comigo. Eu disse que éramos irmãos, que não éramos [casal]. Então, ele começou a se jogar em mim, me beijando e me apalpando até me estuprar”, relatou em um vídeo publicado nas redes sociais.

Após o abuso, Loreto afirma que a esposa de Isaka a agrediu com um pedaço de pau, e um de seus celulares foi roubado, supostamente para impedir a divulgação das evidências.

Investigação e apoio à vítima

No dia 23 de junho, Loreto procurou a delegacia de Feijó para registrar a denúncia. O delegado Dione dos Anjos Lucas, responsável pelo caso, confirmou que a vítima foi ouvida, realizou exames médicos no hospital local e apresentou vídeos que registraram os abusos. A Polícia Civil instaurou um inquérito, e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi notificada. Até o momento, Isaka Ruy não foi localizado pelas autoridades, que continuam as buscas para ouvi-lo.

Em entrevista ao G1, o líder indígena negou as acusações, afirmando que “só tem a certeza de que vai provar sua inocência” e que prefere não comentar enquanto o processo está em andamento. Loreto recebeu apoio do Departamento Bem Me Quer, da Polícia Civil, voltado para mulheres em situação de vulnerabilidade, e do Organismo de Políticas Públicas para Mulheres (OPM) de Feijó.

Pâmela Morais, coordenadora do OPM, relatou que uma servidora acompanhou a vítima durante os exames médicos e no hotel onde ela estava hospedada. Por questões de segurança, Loreto foi transferida para um abrigo de mulheres vítimas de violência na capital do Acre, em um carro descaracterizado. “Recebemos ela, acolhemos e mantemos total discrição do caso, evitando exposição, como manda o protocolo. Ela expressou o forte desejo de sair da cidade, pois muitos indígenas a conheciam e a abordavam”, explicou Morais.

O acompanhamento continuou até que Loreto decidiu retornar ao Chile, onde atualmente está na casa de sua mãe, buscando proteção e apoio emocional.

Isaka Ruy foi denunciado por turista por estupro — Foto: Reprodução

Impacto da denúncia

A denúncia de Loreto ganhou repercussão nas redes sociais, especialmente após a publicação de um vídeo em que ela detalha os abusos e alerta outras mulheres. “Quero destacar que as denúncias foram feitas na polícia do Brasil. Foram feitas perícias, examinaram meu corpo, tudo o que foi feito. Tudo o que falei é a verdade e está evidenciado pelas perícias realizadas”, afirmou.

Ela também mencionou receber mensagens de intimidação de pessoas ligadas à aldeia, mas reforçou estar protegida e determinada a evitar que outras mulheres passem pela mesma situação. “Espero que outras pessoas não passem pelo que passei. Não quero difamar ninguém, meu objetivo é que outras mulheres possam levantar a voz”, declarou.

O caso levanta questões sobre a segurança de turistas em vivências culturais em comunidades indígenas, especialmente em contextos que envolvem práticas espirituais.

A Aldeia Me Nia Ibu é conhecida por oferecer imersões que atraem visitantes interessados em medicinas tradicionais e conexão com a natureza. No entanto, a denúncia expõe a necessidade de maior fiscalização e proteção para evitar abusos de poder em tais espaços.

Contexto e desafios

Casos de violência sexual em contextos turísticos, como imersões espirituais, têm sido registrados em diferentes regiões do Brasil. Em 2019, um psicólogo foi preso em Linhares (ES) por suspeita de estupro de vulnerável durante sessões de “abraço terapêutico”. Em 2024, um professor foi detido no interior de São Paulo acusado de estupro de vulnerável contra estudantes. Esses episódios reforçam a importância de mecanismos de proteção para participantes de atividades culturais ou espirituais, especialmente em ambientes isolados.

A Polícia Civil do Acre enfrenta desafios para avançar na investigação, já que Isaka Ruy não foi encontrado desde o registro da denúncia. A Funai, que acompanha o caso, ainda não se pronunciou publicamente sobre as medidas que serão tomadas em relação à comunidade Huni Kuî.

A repercussão do caso nas redes sociais também gerou debates sobre a responsabilização em crimes sexuais e o acolhimento de vítimas estrangeiras em áreas remotas do Brasil.

Compromisso com a verdade

O Painel Político segue acompanhando o desenrolar das investigações e busca oferecer uma cobertura equilibrada, respeitando os fatos e as partes envolvidas. A denúncia de Loreto Belén destaca a importância de dar voz às vítimas de violência sexual e reforça a necessidade de políticas públicas que garantam segurança em vivências culturais.

A Polícia Civil, o OPM e outros órgãos continuam trabalhando para esclarecer o caso e assegurar justiça.

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Com informações do G1/AC