Vice de Milei questiona saúde mental dele após ataques ao Brasil
Victoria Villarruel fala em "perseguições imaginárias" do presidente argentino, que atacou Lula e Moraes em convenção do PL e já enfrenta repúdio de deputados na Argentina
📋 Em resumo ▾
- Victoria Villarruel disse ter "genuína preocupação" pelo estado de Javier Milei, após o presidente replicar uma publicação com acusações contra ela e a deputada opositora Marcela Pagano.
- O episódio ocorre cinco dias depois de Milei chamar Lula de "presidiário" e Alexandre de Moraes de "lixo careca" na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro.
- Mais de 30 deputados argentinos, liderados por Jorge Taiana, protocolaram moção de repúdio contra o presidente por interferência nos assuntos internos do Brasil.
- Lula classificou os ataques de "patacoada" e Alckmin disse que Milei presta um "desserviço" à Argentina ao se meter em eleição de outro país.
- Por que isso importa: a crise expõe simultaneamente uma ruptura institucional dentro do governo argentino e um desgaste diplomático que ameaça a relação comercial entre os dois maiores parceiros do Mercosul.
A vice-presidente da Argentina, Victoria Villarruel, questionou publicamente nesta quinta-feira (30) a saúde mental do presidente Javier Milei.
"Me preocupa profundamente que o presidente da Nação replique insensatezes e invenções. Tenho genuína preocupação pelo seu estado e pelas perseguições imaginárias que ele replica na Argentina e no exterior", escreveu Villarruel na rede social X.
O gatilho foi uma publicação da deputada governista Lilia Lemoine, que Milei repostou. A mensagem denunciava suposto conluio entre a vice-presidente e a deputada opositora Marcela Pagano contra o governo. Lemoine afirmou que desde 2024 as publicações de Villarruel são redigidas por Pagano e que ambas operam de forma coordenada com setores do peronismo, incluindo suposto compartilhamento de assessores e de um "callcenter".
Da convenção do PL à crise diplomática
Milei vem fazendo ataques ao Brasil desde o último sábado (25), quando participou da convenção do PL em São Paulo, onde atacou o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Na ocasião, o argentino chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e classificou Moraes de "lixo careca", durante o encontro que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. O argentino acusou Lula de "espalhar o comunismo" na América Latina e defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, apontando uma suposta crise econômica pela política fiscal do governo brasileiro. Sobre Moraes, disse:
"O lixo careca não me permitiu visitar meu amigo, injustamente encarcerado, quando sei que Lula cansou de receber dirigentes do exterior quando estava preso", em referência à recusa do ministro em autorizar visita a Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe e foi proibido por Moraes de receber visitas pessoais por 30 dias após violar cautelar. No mesmo dia, Milei recebeu a Ordem do Ipiranga, maior honraria concedida pelo governo de São Paulo, das mãos de Tarcísio de Freitas (Republicanos), pré-candidato à reeleição.
Repúdio no Congresso argentino e convocação de embaixador
Um grupo de mais de 30 deputados argentinos apresentou, na segunda-feira (27), uma moção de repúdio aos ataques de Milei contra autoridades brasileiras, articulada pelo deputado Jorge Taiana, ex-ministro das Relações Exteriores. O texto manifesta "enérgico repúdio às calúnias e injúrias" dirigidas por Milei contra Lula e Moraes e afirma que os ataques representam "grave prejuízo às relações diplomáticas bilaterais e à política externa da Argentina". O documento também questiona o uso da máquina diplomática: a iniciativa denuncia interferência nos assuntos internos do Brasil e contesta a participação de integrantes do serviço diplomático em uma viagem de caráter partidário. A tramitação, porém, esbarra na correlação de forças: a oposição reúne 101 dos 257 assentos e não tem votos suficientes sem apoio de independentes, mas a assessoria de Taiana calcula que até 49 deputados "flutuantes" poderiam aderir. Do lado brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos, formalizando o desgaste bilateral.
Lula minimiza, Alckmin critica interferência
O presidente Lula (PT) reagiu na convenção nacional do PSB, em Brasília, que confirmou Geraldo Alckmin como vice na chapa à reeleição.
"Vocês viram aqui a patacoada que fez aqui o presidente da Argentina. Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado", disse Lula nesta quarta-feira (29), afirmando que manterá relação institucional com a Argentina e não pretende trocar ofensas com o argentino. Alckmin foi mais direto:
"Lamentável que o presidente de um país vizinho, amigo, que compõe até o Mercosul, preste um desserviço ao seu país, porque vem no Brasil numa eleição. Não deve presidente se envolver em eleição de outro país", disse o vice-presidente, classificando a conduta de Milei como um desserviço à própria Argentina.
Uma rusga que já dura mais de dois anos
A crítica de Villarruel não é episódio isolado. A disputa expõe a deterioração da relação entre Milei e Villarruel, rivais há mais de dois anos apesar de terem sido eleitos na mesma chapa presidencial, em 2023. Villarruel, advogada ultraconservadora, mantém desde pouco depois da posse um enfrentamento aberto com o mandatário, com quem já trocou diversas acusações, incluindo acusações de "traição" partindo do próprio presidente. O episódio desta semana chegou a incluir mensagens da própria vice classificando as postagens de Milei de "loucura galopante". Villarruel se somou assim a outras figuras, sobretudo da oposição, que já haviam alertado sobre a saúde mental do presidente.
Um padrão de embates com líderes estrangeiros
Milei acumula histórico de atritos diplomáticos por sua retórica. Em maio de 2024, chamou a mulher do premiê espanhol Pedro Sánchez de "corrupta", o que levou o governo espanhol a retirar seu embaixador de Buenos Aires por meses. Também chamou o presidente colombiano Gustavo Petro de "terrorista assassino" em entrevista à CNN, o que resultou em expulsão de diplomatas argentinos da Colômbia. Chegou ainda a atacar o Papa Francisco, chamando o pontífice de "imbecil que defende a justiça social". Em relação ao Brasil, o desgaste já vinha de antes: em 2024, Milei se referiu a Lula como um "esquerdista" com "ego inflado", depois que o petista disse que não falaria com o argentino até que ele se desculpasse por ter dito "muitas bobagens" sobre ele e o Brasil.
Cenário à frente
O episódio ocorre em meio à disputa legislativa argentina: as eleições legislativas do país estão marcadas para 7 de setembro, o que eleva o custo político de uma ruptura pública entre presidente e vice justamente no momento em que Milei precisa de coesão na base governista para ampliar sua bancada no Congresso. A pergunta que fica é até onde a disputa interna entre os dois nomes eleitos na mesma chapa em 2023 pode avançar sem comprometer a governabilidade — e se o desgaste com o Brasil, maior parceiro comercial da Argentina, terá reflexo concreto no comércio bilateral e no futuro do Mercosul.
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