Visto a Flávio vira munição democrata a uma semana das midterms
Democratas comparam o acolhimento ao senador com a recusa de asilo a quem foge do Sudão e do Haiti. Trump diz que a família Bolsonaro é “boa gente”
📋 Em resumo ▾
- A bancada democrata do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos EUA criticou a decisão do governo Donald Trump de conceder vistos a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e à família.
- O grupo comparou o caso ao de quem foge de guerras no Sudão e no Haiti e não consegue asilo, e acusou o secretário de Estado Marco Rubio de estender “o tapete vermelho” ao brasileiro.
- O deputado democrata Joaquin Castro cobrou explicações do governo ao Congresso sobre o papel dos EUA na saída de Flávio do Brasil.
- Trump disse que aprova a ida de Flávio aos EUA e voltou a criticar a eleição brasileira.
- Por que isso importa: a saída de Flávio entrou na disputa política americana a uma semana das eleições de meio de mandato de 3 de novembro
A bancada democrata do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos criticou a decisão do governo Donald Trump de conceder vistos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e à família dele. Em publicação nas redes sociais, o grupo comparou o tratamento dado ao brasileiro à política migratória americana para quem foge de conflitos no Sudão e no Haiti.
“Nenhum asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas Rubio está estendendo o tapete vermelho para Bolsonaro. Aparentemente, fugir da violência não se qualifica. Negar os resultados eleitorais, sim.”
— Democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos EUA
Quem falou: a Câmara americana é controlada hoje pelo Partido Republicano, de Trump. Quem fez a crítica foi a bancada democrata do comitê, que é minoria e tem perfil próprio nas redes sociais. A manifestação não é uma posição oficial do comitê.
As críticas dos democratas
Joaquin Castro, deputado democrata pelo Texas, escreveu no Threads:
“Perder uma eleição não é motivo para pedir asilo.”
— Joaquin Castro, deputado democrata
Castro disse que o governo Trump estaria oferecendo um refúgio seguro ao senador e afirmou que o governo “deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil em desacordo com a legislação brasileira”.
Isaiah Martin, candidato democrata, chamou Flávio de “imigrante ilegal criminoso” e disse que os contribuintes americanos vão pagar “para proteger sua família criminosa e suas viagens de luxo” pelo país.
O que é fato e o que é opinião: as expressões de Martin são ataques políticos. Na situação real:
- Flávio não foi condenado por nenhum crime. Ele é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, e nega irregularidades.
- Flávio não é imigrante ilegal, porque o governo americano anunciou que vai lhe dar visto. Até agora, porém, os EUA não informaram se os vistos já foram emitidos.
- Ninguém falou oficialmente em asilo. O Departamento de Estado fala em visto, que é outra coisa. A hipótese de asilo surgiu das perguntas de jornalistas a Trump e das declarações do empresário mexicano Simón Levy, que não foram confirmadas.
O que disse Trump
Questionado por jornalistas, Trump disse que aprova a ida de Flávio aos EUA:
“Bem, eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível. Ela tem recebido avaliações ruins. Veja o que aconteceu com o mercado deles.”
— Donald Trump, presidente dos EUA
Trump se referia à queda da bolsa e do real no dia seguinte ao 2º turno no Brasil. Não há indício de irregularidade na eleição brasileira. O resultado, que deu a vitória a Lula (PT) com 51,79% dos votos válidos, foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A rota da saída
- Domingo (25), à noite: o ministro Alexandre de Moraes, do STF, mandou Flávio entregar os passaportes e o proibiu de sair do país.
- Terça (27), 11h: acabou o prazo sem a entrega, e a Polícia Federal cancelou os passaportes.
- Terça (27), 22h50: segundo o governo argentino, Flávio entrou na Argentina pela ponte de Foz do Iguaçu, com a esposa e as filhas. Foi a primeira confirmação oficial de que ele deixou o Brasil.
- Quarta (28), 0h22 (horário argentino): o jato particular decolou de Puerto Iguazú.
- Quarta (28), 5h46 (horário de Brasília): segundo o jornal Correio, com dados do FlightAware, o avião pousou em Guayaquil, no Equador, para reabastecer. O destino previsto era Miami.
Até a publicação, não havia confirmação oficial da chegada de Flávio aos Estados Unidos, nem mandado de prisão contra ele no Brasil.
A uma semana das midterms
As críticas aparecem a menos de uma semana das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Os americanos vão renovar toda a Câmara e parte do Senado. Os democratas, que fazem oposição a Trump, são favoritos para retomar a Câmara.
O contraste entre o visto para Flávio e o endurecimento contra imigrantes que fogem da violência é o tipo de argumento que os democratas querem levar às urnas. A política migratória é um dos temas centrais da campanha. Para o governo Trump, acolher Flávio reforça a aliança com a família Bolsonaro. Para os democratas, é um exemplo de dois pesos e duas medidas. Para o Brasil, o caso deixa de ser só judicial: se Moraes mandar prender o senador, um eventual pedido de extradição vai cair no meio dessa disputa entre os dois partidos americanos.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.