Vorcaro teria ordenado ataque hacker durante prisão
Revista Piauí revela tentativa de invasão às contas de Vorcaro e do cunhado durante prisão domiciliar; operação buscava apagar provas usadas pela PF no caso Banco Master
📋 Em resumo ▾
- Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, teria ordenado um ataque hacker para apagar dados de sua conta no iCloud enquanto estava em prisão domiciliar, segundo a revista Piauí
- A Polícia Federal já havia apreendido o celular de Vorcaro e bloqueado o acesso externo aos dados; a invasão foi identificada e a exclusão, impedida
- O mesmo grupo teria tentado remover notícias sobre Vorcaro nos EUA e produzido um dossiê sobre um diretor do Banco Central ligado a casos de liquidação, como o do Master
- Os citados pela reportagem negam ilegalidade ou não comentam; a defesa de Vorcaro não respondeu à revista
- Por que isso importa: se confirmada, a tentativa de apagar provas digitais durante uma investigação em curso pode configurar obstrução, agravando a situação processual de quem já responde pelo caso Banco Master
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, teria ordenado um ataque hacker contra sua própria conta no iCloud enquanto cumpria prisão domiciliar em São Paulo, em janeiro deste ano, segundo reportagem da revista Piauí. O objetivo, de acordo com a publicação, era apagar dados que poderiam ser usados pela Polícia Federal (PF) nas investigações sobre o banco. É importante marcar, desde já, que essa é uma informação atribuída pela Piauí a sua apuração — não há, no material disponível, decisão judicial ou confirmação da PF sobre o episódio.
O que a PF já sabia antes da tentativa de invasão
Segundo a reportagem, a PF havia apreendido o celular de Vorcaro cerca de dois meses antes do episódio e já havia bloqueado o acesso externo aos dados do aparelho, numa medida para preservar possíveis provas. A tentativa de invasão, de acordo com a Piauí, também teve como alvo a conta de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela reportagem como seu principal operador financeiro. Zettel teve o próprio aparelho apreendido após ser detido no Aeroporto de Guarulhos, em 14 de janeiro.
Ainda segundo a Piauí, Vorcaro teria contratado o publicitário e lobista Thiago Miranda para organizar a operação. Miranda, por sua vez, teria acionado o especialista em segurança digital Thiago Santos, que atuava com outros profissionais. Santos conseguiu acessar a conta do ex-banqueiro — mas a PF identificou a invasão e impediu a exclusão dos dados, frustrando o objetivo da operação, segundo o relato da revista.
Segundo a Piauí, a Polícia Federal identificou a invasão à conta de Vorcaro e impediu a exclusão dos dados antes que a tentativa de apagar provas tivesse efeito.
Tentativa de remover notícias nos Estados Unidos
Além da invasão às contas digitais, Thiago Miranda teria recorrido novamente a Thiago Santos para tentar remover notícias sobre Vorcaro e Martha Graeff publicadas por veículos de comunicação de Miami, nos Estados Unidos, de acordo com a reportagem. O grupo também teria procurado escritórios especializados em Direito Digital norte-americanos para solicitar formalmente à Meta a retirada de conteúdos das redes sociais. A Piauí relata que os serviços foram pagos, embora os valores não tenham sido quitados integralmente — a reportagem não detalha quem exatamente efetuou os pagamentos nem o valor total envolvido.
A ligação com o filme sobre Bolsonaro e o dossiê sobre o BC
Thiago Miranda também aparece, segundo a reportagem, nas investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com o relato da Piauí, o publicitário teria aproximado Vorcaro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e cobrava repasses financeiros previstos no acordo envolvendo a produção. Vale notar: este trecho atribui a Miranda uma conduta (cobrança de repasses) relatada pela revista, não uma acusação formal com decisão judicial associada até o momento.
A atuação atribuída a Thiago Santos incluiu ainda a elaboração de um dossiê de 11 páginas sobre Renato Dias de Brito Gomes, diretor do Banco Central responsável pela área de Organização do Sistema Financeiro e Resolução — departamento que trata, entre outras coisas, de processos de liquidação de instituições financeiras, incluindo o caso do próprio Banco Master. A existência de um dossiê sobre o diretor responsável justamente pela área que decide sobre liquidações é o ponto que a reportagem aponta como mais sensível, por sugerir tentativa de mapear ou pressionar quem decide sobre o destino da instituição.
O que dizem os envolvidos
A separação entre alegação e resposta de cada parte é importante aqui, porque nenhuma delas teve seus argumentos confirmados por decisão judicial até a publicação da reportagem:
- Thiago Miranda, procurado pela Piauí, não comentou diretamente as informações sobre o ataque hacker.
- Seu advogado, Rafael Martins, divulgou nota em que defende "a absoluta legalidade de todos os atos praticados pelo constituinte e que são alvo de apuração por meio das operações Compliance Zero e Projeto DV". O advogado acrescentou que "a apuração dos fatos e a publicidade das investigações reforçam a inexistência de atos ilícitos praticados por Thiago Miranda" — ou seja, a defesa nega qualquer ilegalidade, mas o conteúdo citado confirma que Miranda é alvo das apurações mencionadas (Compliance Zero e Projeto DV), sem que isso signifique culpa.
- Thiago Santos negou ter participado de qualquer atividade irregular e declarou que procurou espontaneamente a Polícia Federal para prestar esclarecimentos — uma informação relevante, já que sugere colaboração voluntária com a investigação, não fuga dela.
- A defesa de Daniel Vorcaro não respondeu aos questionamentos da revista até a publicação — o que o texto registra como tentativa de contraditório não atendida, e não como confissão ou omissão culposa.
Por que isso importa
Vorcaro já responde a investigações relacionadas à situação do Banco Master, instituição sob intervenção. Se confirmada de forma independente, uma tentativa deliberada de apagar provas digitais durante uma prisão domiciliar — justamente num momento em que o acesso ao aparelho já estava bloqueado pela PF para preservar evidências — tende a ser tratada como fato novo e potencialmente mais grave do que a investigação original, por sugerir obstrução à Justiça. O dossiê sobre o diretor do Banco Central responsável pelas liquidações, se vinculado de fato à tentativa de interferir no desfecho do caso, amplia a dimensão do episódio além da esfera estritamente financeira.
Até a publicação desta matéria, com base no material disponível, não há decisão judicial, indiciamento formal ou denúncia especificamente sobre o episódio do ataque hacker — apenas o relato da Piauí, a resposta da defesa de Thiago Miranda e a negativa de Thiago Santos.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.