Afastado por assédio do STJ, Marco Buzzi agora é investigado por venda de sentenças
Marco Buzzi e Paulo Dias de Moura Ribeiro são alvo de apurações por suspeita de tráfico de influência, assédio e lavagem de dinheiro; investigações foram autorizadas por Zanin
📋 Em resumo ▾
- STF autoriza PF a investigar ministros do STJ Marco Buzzi e Paulo Dias de Moura Ribeiro.
- Buzzi já está afastado por acusações de assédio sexual e terá julgamento administrativo em agosto.
- PGR denuncia esquema de venda de sentenças com lobistas e ex-servidores do tribunal entre 2019 e 2023.
- Por que isso importa: A crise expõe vulnerabilidades na cúpula do Judiciário e testa a eficácia dos mecanismos de controle interno
O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a Polícia Federal a investigar dois ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por suspeita de venda de sentenças e crimes sexuais. A medida amplia o escrutínio sobre a cúpula do Judiciário, revelando um cenário de múltiplas crises institucionais que desafiam a credibilidade da corte.
O duplo escrutínio sobre Marco Buzzi
O ministro Marco Buzzi enfrenta uma tormenta jurídica em duas frentes. Ele está afastado cautelarmente do STJ desde fevereiro de 2026 devido a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) por acusações de importunação e assédio sexual.
O julgamento do PAD está agendado para 6 de agosto, com a Procuradoria-Geral da República (PGR) recomendando a aposentadoria compulsória. Paralelamente, o ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou a inclusão de Buzzi no inquérito de venda de sentenças, conhecido como Operação Sisamnes.
A Polícia Federal busca analisar dados de familiares do magistrado para verificar indícios de participação no esquema. A defesa de Buzzi nega veementemente as acusações, afirmando que ele não tem relação com atividades de parentes e possui uma trajetória "sem qualquer mácula prévia".
A teia da venda de sentenças e Moura Ribeiro
Na mesma esteira, o STF também autorizou a investigação do ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro. A PF solicitou o levantamento de dados bancários de empresas, familiares e servidores ligados ao gabinete do magistrado.
A PGR já denunciou nove pessoas, incluindo o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e ex-servidores do STJ, Márcio Toledo Pinto e Daimler Alberto de Campos. O esquema, ativo entre 2019 e 2023, envolvia a produção de minutas apócrifas e lavagem de dinheiro.
"O ponto é que, neste estágio inicial da investigação, ainda não há elementos suficientes para concluir se houve ou não participação dessas pessoas nos fatos apurados", afirmou a PF em relatório ao STF.
A nota do STJ em nome de Moura Ribeiro afirma que ele desconhece a investigação e que um servidor citado foi exonerado por atuação irregular a seu próprio pedido.
O colapso dos controles internos
A Operação Sisamnes representa um dos maiores desafios à integridade do STJ nas últimas décadas. A atuação de lobistas que supostamente usavam minutas falsas para pressionar interessados expõe falhas graves nos controles internos do tribunal.
O fato de dois ministros estarem sob a lupa do STF simultaneamente, um por crimes sexuais e outro por corrupção, gera um ruído institucional que transcende os casos individuais. A defesa de ambos cita trajetórias honradas, mas a materialidade das investigações aponta para um sistema permeável.
O teste de estresse da autonomia judicial
A convergência dessas investigações no STF não é apenas um ajuste de contas processual, mas um teste de estresse para a autonomia e a reputação do STJ. Quando a cúpula de um tribunal é alvo de suspeitas de tráfico de influência e abuso de poder, a confiança pública é o primeiro ativo a ser liquidado.
Resta uma reflexão socrática para a sociedade e para o próprio Judiciário: se os mecanismos de controle interno falham em detectar desvios em seus próprios pares, até que ponto a intervenção externa, via STF e PF, é a única barreira restante contra a impunidade na mais alta corte de justiça infraconstitucional do país?
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