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Apex Partners tenta conter crise no LinkedIn após rombo de R$ 975 milhões

Gestora capixaba publica nota para acalmar investidores e parceiros de empreendimentos imobiliários, mas documentos judiciais revelam dívida líquida que mais que dobrou em 18 meses e exposição por garantias internas

Apex Partners tenta conter crise no LinkedIn após rombo de R$ 975 milhões
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • A Apex Partners publicou nota no LinkedIn para afastar temores sobre seus empreendimentos imobiliários após a revelação de rombo multimilionário
  • Documentos entregues à Justiça mostram dívida líquida de R$ 975 milhões, saltando de R$ 413 milhões em janeiro de 2025
  • Empreendimentos são estruturados via SPEs, mas parte das garantias da dívida é formada por participações em empresas do próprio grupo
  • BTG Pactual rompeu parceria de distribuição e fechou fundo ligado à gestora para resgates após inconsistências financeiras
  • Por que isso importa: A crise testa os limites da segregação patrimonial em um grupo com dívidas próximas de R$ 1 bilhão e conexões políticas no Espírito Santo, num momento em que a confiança do mercado já evaporou
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A Apex Partners, gestora de investimentos capixaba que se tornou uma das principais acionistas da CVC e pivô do escândalo batizado pelo mercado de "Master Capixaba", recorreu ao LinkedIn na última semana para tentar conter a desconfiança de investidores e parceiros em torno dos empreendimentos imobiliários do seu portfólio. A publicação, de tom tranquilizador, chega em um momento em que documentos apresentados pela própria companhia à Justiça revelam uma dívida líquida de R$ 975 milhões — valor que mais que dobrou em um ano e meio.

Na nota, a Apex Partners sustenta que a gestão financeira e operacional de cada projeto imobiliário segue sob responsabilidade das construtoras e incorporadoras parceiras, e que as obras em execução mantêm ritmo normal. O argumento central é a segregação patrimonial: os empreendimentos são estruturados via Sociedades de Propósito Específico (SPEs), modelo em que cada projeto forma um patrimônio próprio, isolado do caixa da controladora. A mensagem é clara: os imóveis não estão contaminados pela crise financeira da gestora.

"A mensagem principal e o serviço prestado à sociedade é: o cliente precisa verificar seu extrato oficial no BTG Pactual. O que consta formalmente no extrato do banco está mantido, seguro e protegido, como os títulos públicos. O problema se concentra naqueles que aportaram recursos em fundos geridos diretamente pela Apex ou enviaram valores para fora da instituição."

O quadro financeiro, porém, desafia o discurso calmante. Os documentos entregues ao Judiciário detalham um passivo bruto preliminar de R$ 985,6 milhões, com composição que expõe a fragilidade da estrutura: R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas pela Rhino Securitizadora, R$ 309,8 milhões em obrigações de cashback de aproximadamente 1.600 clientes, R$ 201,7 milhões em dívidas bancárias com aval e R$ 35,2 milhões em tributos atrasados.

Como as garantias internas ampliam a exposição da Apex

Um ponto que a nota no LinkedIn não menciona é a composição das garantias que sustentam parte dessa dívida. Algumas delas são formadas por participações em empresas do próprio grupo — o que significa que, em um cenário de estresse, o valor dessas garantias tende a cair em paralelo à crise da controladora. É um efeito cascata: quanto mais a Apex perde valor de mercado, menos suas próprias ações valem como colateral.

A situação se conecta diretamente à operação da CVC. A gestora, junto com fundos ligados à Carbyne e à Rhyno, acumulou uma fatia superior a 15% da companhia de turismo. A queda acentuada das ações da CVC desde o início de 2026 — mais de 30%, segundo fontes de mercado — comprometeu parte da estrutura de garantias montada para viabilizar a operação.

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"As rentabilidades significativamente superiores às do mercado sugerem uma exposição ao risco proporcionalmente maior."

A pressão sobre o caixa é imediata. Debêntures próximas do vencimento, pedidos de resgate em fundos geridos pelo grupo e operações de cashback concentram centenas de milhões em obrigações de curto prazo. Parte dos ativos que deveriam sustentar essas obrigações vale menos em um cenário de venda rápida, reduzindo a margem de manobra da Apex para honrar compromissos sem recorrer a novas capitações ou renegociações.

Afastamento de Cinelli e ação judicial expõem ruptura na governança

A nota da Apex no LinkedIn reforça que a companhia identificou por conta própria as inconsistências financeiras e agiu de forma imediata ao afastar o então presidente Fernando Antonio Kulnig Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira. A presidência passou a ser exercida interinamente por Marcelo Murad, sócio da gestora, enquanto uma auditoria externa segue em fase final de contratação.

O afastamento, porém, teve desdobramento judicial. A Apex Partners informou que ajuizará ação contra Cinelli por suposta gestão temerária e má-fé, além de buscar o bloqueio preventivo de seus bens. Em nota própria, o ex-presidente afirmou estar "dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas", e disse ter disposição para esclarecer as questões levantadas com transparência.

O que a nota omite é que a ruptura na governança já havia provocado reações em cadeia no mercado. O BTG Pactual, parceiro de distribuição desde 2019, rompeu o contrato com a Apex assim que o escândalo veio à tona. O banco também fechou para resgates a classe do fundo BRM Carbyne Crédito Estruturado, que tinha patrimônio líquido de R$ 160,5 milhões e 909 cotistas, após o volume de pedidos superar a liquidez disponível na carteira.

Os empreendimentos imobiliários no centro da disputa

O portfólio imobiliário da Apex inclui seis empreendimentos em três estados: o Arti Design Living, em Praia da Costa, Vila Velha (ES), com a Città Engenharia; o Parque Flora, em Jardim Camburi, Vitória (ES), com a Sá Cavalcanti; os projetos Cyan e Youniverse, na Enseada do Suá, Vitória (ES), com a Nazca; o MoMa Residence, em Itajaí (SC), com a Aikon Empreendimentos; e o Solano, em Londrina (PR), com a Montrecon Construtora.

A tese da segregação patrimonial via SPEs é juridicamente válida, mas sua eficácia prática depende de duas variáveis que ainda não foram testadas: a ausência de garantias cruzadas entre as SPEs e a controladora, e a capacidade das construtoras parceiras de absorver eventuais distúrbios de caixa sem recorrer à Apex. Se os parceiros imobiliários começarem a enfrentar dificuldades de financiamento ou desistências de compradores assustados com a crise de imagem, a segregação patrimonial pode não ser suficiente para blindar os projetos.

O que o caso revela sobre risco, alavancagem e política capixaba

A crise da Apex Partners transcende o mercado financeiro. A gestora é conhecida no Espírito Santo por sua proximidade com duas dinastias políticas locais: Pedro Chieppe Ferraço, head da APX Investimentos (empresa do grupo) e filho do governador Ricardo Ferraço (MDB); e Victor Casagrande, diretor institucional da Apex e filho do ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Até o momento, não há documento público apontando os filhos dos políticos como participantes das inconsistências financeiras, nem indicação de que os pais tenham tido envolvimento nos negócios investigados. O governo estadual se antecipou para afirmar que não há recursos do Tesouro nem do Fundo Soberano aplicados na Apex.

O calendário, porém, é desfavorável. Ricardo Ferraço teve sua candidatura à reeleição oficializada em 5 de agosto; a crise veio a público no dia seguinte. Renato Casagrande, que deixou o governo para disputar o Senado e lidera as pesquisas, integra a mesma aliança eleitoral. A questão que permanece no ar é até que ponto a crise de quase R$ 1 bilhão permanecerá confinada ao mercado financeiro — ou se se tornará um problema de campanha.

O fundo do poço ainda não foi atingido

A tutela cautelar concedida pela Justiça suspende, por ora, a cobrança imediata dos R$ 975 milhões em dívidas, dando à Apex um fôlego jurídico para tentar renegociações. Mas o mercado já descontou o risco: fontes ouvidas por reportagens anteriores estimam que o problema financeiro real pode variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão, faixa coincidente com os números apresentados nos documentos judiciais.

A estratégia da Apex é comprar tempo. A nota no LinkedIn, a auditoria externa em contratação e a ação contra Cinelli compõem um esforço coordenado de separar a gestora da sua própria crise — uma tarefa hercúlea quando a dívida, as garantias internas e a queda das ações da CVC estão todas entrelaçadas no mesmo emaranhado. A pergunta que investidores, parceiros construtores e eleitores capixabas começam a fazer não é mais se a Apex vai sobreviver intacta, mas quanto da conta será paga por quem.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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