Como a crise na Apex Partners expôs um passivo de quase R$ 1 bilhão
Demissões em massa, revisão de produtos e disputa societária: a plataforma capixaba, que administra mais de R$ 17 bilhões, entra em reestruturação após afastamento do fundador sob acusação de gestão temerária
📋 Em resumo ▾
- A Apex Partners iniciou reestruturação interna com demissões e revisão de produtos após crise que expôs passivo de quase R$ 1 bilhão
- O fundador Fernando Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados em 6 de agosto de 2026 sob acusação de "gestão temerária e má-fé"
- A dívida bruta da empresa saltou de R$ 413 milhões (janeiro de 2025) para R$ 985,6 milhões (junho de 2026), mais que o dobro em 18 meses
- O BTG Pactual rompeu parceria de distribuição e suspendeu resgates de fundo ligado à gestora; a Justiça concedeu blindagem temporária de 60 dias aos ativos
- A aposta em ações da CVC — que caíram mais de 30% em 2026 — é apontada como estopim da crise, com promessas de retorno mínimo ao CDI em ativo de renda variável
- Por que isso importa: A crise de uma das maiores gestoras do Norte e Nordeste coloca em xeque a governança de plataformas de investimento regionais e pode redefinir a confiança no mercado de capitais fora do eixo Rio-São Paulo
A Apex Partners, plataforma de investimentos fundada em Vitória (ES) que administra mais de R$ 17 bilhões e atende cerca de 8 mil clientes, iniciou em agosto de 2026 um processo de reestruturação interna que inclui demissões, revisão de produtos e integração de áreas. O movimento ocorre após o afastamento do fundador Fernando Antonio Kulnig Cinelli e a revelação de um passivo bruto de R$ 985,6 milhões — valor que dimensionou a gravidade de uma crise que já levou a empresa à Justiça e provocou a ruptura com o BTG Pactual.
Como a crise veio à tona: do afastamento à blindagem judicial
O ponto de inflexão ocorreu em 6 de agosto de 2026, quando os demais sócios da Apex decidiram afastar Fernando Cinelli da presidência e Eduardo Siqueira da diretoria financeira. A decisão foi tomada após uma investigação interna que identificou "inconsistências financeiras" na condução da gestão. No dia seguinte, a nova administração recorreu à Justiça para pedir uma blindagem temporária de 60 dias sobre os ativos de 178 empresas do grupo, argumentando a necessidade de preservar o patrimônio enquanto a extensão dos problemas era avaliada.
A ação judicial, apresentada à Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, revelou o passivo preliminar de R$ 985,6 milhões — mais que o dobro dos R$ 413 milhões registrados em janeiro de 2025. Entre os argumentos, os sócios alegaram que não tinham conhecimento da dimensão do endividamento e apontaram "gestão temerária e má-fé" por parte dos executivos afastados.
A Apex Partners informou, em nota oficial, que as providências judiciais visam "responsabilizar" os executivos e que uma auditoria externa e independente seria contratada para "dimensionar os impactos das inconsistências identificadas". A empresa afirmou ainda que a medida não configura recuperação judicial, mas tem caráter preventivo.
A aposta na CVC e o mecanismo que amplificou o rombo
O estopim da apuração interna está ligado à operação de compra de ações da CVC Corp, maior agência de viagens do Brasil. Entre 2025 e 2026, a Apex — por meio do fundo BRM Carbyne Voyage — acumulou cerca de 15,5% das ações da companhia, em uma operação apelidada pelo mercado de "Master Capixaba".
Para atrair investidores, a estrutura ofereceu uma garantia atípica: o melhor entre a valorização das ações da CVC ou um retorno mínimo de 100% do CDI — uma promessa de risco zero para um ativo de renda variável. Como as ações da CVC caíram mais de 30% desde o início de 2026 e a companhia registrou prejuízo de R$ 51,3 milhões no segundo trimestre, a Apex teria sido obrigada a tirar recursos do próprio caixa para cobrir a diferença, abrindo um rombo nos cofres da gestora.
Cerca de R$ 309,8 milhões das dívidas da Apex estão relacionados a obrigações de garantia de rendimento em cerca de 1.600 contratos — mecanismo pelo qual a gestora prometia retornos de até 125% do CDI. Em 13 de agosto, a gestora vendeu cerca de 17 milhões de ações da CVC, reduzindo sua participação para 7,97%.
"A diversificação aparente não necessariamente significa diversificação efetiva. A diversificação tem que ser feita com muita cautela, prudência e competência técnica."
— Ricardo Paixão, presidente do Corecon-ES, em entrevista ao portal ES Brasil.
A reestruturação interna: demissões, revisão de processos e cortes
Paralelamente aos desdobramentos judiciais, a Apex iniciou um processo de reestruturação interna que incluiu demissões de funcionários e associados. A companhia informou que as mudanças envolvem "reorganização das equipes, revisão de processos e integração de áreas", sem divulgar o número exato de desligamentos. A empresa afirmou que as decisões estão sendo tomadas de forma "individualizada" e que considera a "trajetória dos profissionais afetados".
A reestruturação também deverá atingir a carteira de produtos e serviços. De acordo com o portal A Gazeta, parte das iniciativas mantidas pela empresa será modificada, enquanto outras poderão ser encerradas. A Apex não divulgou previsão para a conclusão do processo nem detalhou quais áreas serão mais atingidas.
A plataforma, fundada em 2013 no Espírito Santo, atua também no Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul, e chegou a planejar a transformação em banco regional antes da crise.
O rompimento com o BTG e o congelamento de resgates
A crise teve efeito imediato nas relações institucionais. O BTG Pactual, que mantinha contrato de distribuição de produtos e serviços financeiros da Apex, rescindiu a parceria e suspendeu os resgates do fundo BRM Carbyne Crédito Estruturado, administrado pelo banco e gerido pela Carbyne, empresa ligada ao grupo capixaba.
Em junho de 2026, o fundo tinha R$ 148 milhões e 855 investidores; no momento da suspensão, o patrimônio chegava a R$ 160,5 milhões e 909 cotistas. Apesar do valor, apenas R$ 220,8 mil estavam disponíveis imediatamente — cerca de 0,15% do total. Quase todo o dinheiro estava concentrado em nove fundos da Contea Capital, gestora posteriormente comprada pela Apex.
A medida do BTG, somada à blindagem judicial de 60 dias, impôs uma restrição temporária aos saques de investidores, que devem aguardar a conclusão da auditoria externa para saber se haverá perdas.
"A prioridade da companhia neste momento é esclarecer integralmente os fatos, preservar a continuidade de suas operações e proteger o presente e o futuro de um negócio que, ao longo de 13 anos, construiu uma trajetória relevante para o desenvolvimento econômico."
— Nota oficial da Apex Partners, divulgada em 7 de agosto de 2026.
Conexões políticas e o ecossistema capixaba
A crise da Apex ganhou dimensão política por conta do perfil de seus sócios. O quadro societário inclui Victor Casagrande, filho do ex-governador capixaba Renato Casagrande, e Pedro Ferraço, filho do governador Ricardo Ferraço. Uma ata de 2021 identifica Ferraço como ex-diretor comercial da Rhino Securitizadora, responsável por emitir títulos que correspondem a quase metade das dívidas da Apex.
O governo do Espírito Santo, por meio da Secretaria da Fazenda (Sefaz), emitiu comunicado oficial informando que não possui recursos do Tesouro Estadual nem do Fundo Soberano (Funses) investidos na Apex. A crise veio a público um dia após a oficialização da candidatura de Ricardo Ferraço à reeleição e a de Renato Casagrande ao Senado, ambos integrantes da mesma aliança.
A Rhino Securitizadora se manifestou afirmando manter "estrita segregação funcional, patrimonial e operacional" em relação à Apex e que suas operações seguem normais, sob fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O que diz o fundador afastado
Fernando Cinelli, por meio de nota divulgada à imprensa, afirmou estar "dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas". A defesa do empresário destacou sua "disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade".
Cinelli também moveu ação judicial para provar que não tomava decisões sozinho, argumentando que as operações eram colegiadas. Até o momento, não há comprovação pública de fraude ou desvio de recursos — a auditoria externa e uma perícia judicial deverão esclarecer se a crise resultou de investimentos malsucedidos, falhas de governança ou condutas intencionais.
Contexto e antecedentes
A Apex Partners nasceu em 2013 em Vitória com a ambição de desenvolver um mercado de capitais robusto no Espírito Santo — um estado historicamente dependente do eixo Rio-São Paulo para acesso a investimentos sofisticados. Ao longo de 13 anos, a gestora construiu um ecossistema que reúne ativos imobiliários, crédito estruturado, operações corporativas e wealth management, chegando a administrar mais de R$ 18 bilhões em determinado momento.
A crise, no entanto, expõe fragilidades recorrentes no setor de gestoras de recursos independentes: a concentração de riscos mascarada por diversificação aparente, a ausência de controles internos capazes de conter decisões unilaterais e a dependência de garantias de retorno em ativos de renda variável — prática que, quando desencadeada por quedas de mercado, transforma perdas pontuais em passivos sistêmicos.
A comparação com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 2025 após crise de liquidez, já foi feita pelo mercado — com a Apex sendo apelidada de "Master Capixaba". No entanto, especialistas recomendam cautela: os casos são diferentes em estrutura e regulamentação, e a crise da Apex ainda está em fase de apuração preliminar. O que une os dois episódios é o alerta sobre a fragilidade de modelos de negócio que misturam captação de recursos de varejo, operações de alta alavancagem e governança corporativa deficitária.
A reestruturação da Apex Partners não é apenas uma questão corporativa — é um teste de stress para o ecossistema financeiro regional. Se uma gestora com 13 anos de trajetória, milhares de clientes e bilhões sob administração pode ver seu passivo dobrar em 18 meses sem que os próprios sócios percebam, o problema vai além de uma gestão individual: ele questiona a eficácia dos mecanismos de supervisão e a maturidade do mercado de capitais fora dos centros tradicionais.
A decisão que a empresa tomará nos próximos 30 dias — se pedirá recuperação judicial ou conseguirá renegociar suas obrigações — definirá não apenas o futuro dos 8 mil clientes, mas também o padrão de confiança que investidores de todo o Norte e Nordeste terão em plataformas similares. O Espírito Santo sonhou em ser um polo financeiro independente. Agora, precisa provar que sabe proteger quem acreditou nesse sonho.
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