Como a "onça capixaba" virou "Vorcaro do ES" em uma semana?
Com R$ 986 milhões em dívidas, debêntures sem lastro, resgates travados em fundo de R$ 160 mi e rompimento do BTG Pactual, a plataforma de investimentos do Espírito Santo desmorona após inconsistências financeiras apontadas pelo próprio fundador. Entenda a crise que abala a política e a elite empresarial capixaba
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- A Apex Partners, plataforma de investimentos do Espírito Santo com ~R$ 20 bi sob gestão, afastou seu fundador Fernando Cinelli e o CFO Eduardo Siqueira após identificar "inconsistências financeiras".
- O grupo declarou passivo de R$ 985,6 milhões, incluindo R$ 452 mi em debêntures e R$ 309,8 mi em fundos; obteve liminar cautelar na Justiça do ES.
- O BTG Pactual rompeu o contrato de distribuição de sete anos; a CVM informou que a Apex não possui registro para atuar em mercados regulados.
- O FIDC BRM Carbyne (R$ 160,5 mi, 909 cotistas) teve resgates suspensos; auditoria da PwC não conseguiu verificar 86% dos ativos do fundo.
- Debêntures teriam sido emitidas sem conhecimento do conselho; clientes faziam transferências diretas à Rhino Securitizadora, violando exclusividade com o BTG.
- Por que isso importa: A crise expõe fragilidades de governança em uma das maiores plataformas de investimentos do interior brasileiro — e atinge sócios como o Grupo Buaiz, consolidando um alerta para investidores de capitais médios fora do eixo Rio-São Paulo.
A Apex Partners, plataforma de investimentos sediada em Vitória (ES) que se apresentava como a firma das "onças brasileiras" — investidores de cidades de alta renda fora do radar dos grandes bancos —, desmoronou em menos de uma semana. O fundador e então presidente Fernando Antonio Kulnig Cinelli foi afastado; o diretor financeiro Eduardo Siqueira removido; o BTG Pactual rompeu o contrato de distribuição de sete anos; e a empresa ajuizou pedido de proteção judicial após declarar passivo de R$ 985,6 milhões. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) informou, em nota, que a Apex não possui registro para atuar nos mercados regulados pela autarquia.
O caso, que já é comparado pelo mercado ao escândalo da Americanas — com direito a alcunha de "Vorcaro capixaba" atribuída a Cinelli por executivos que acompanhavam seu estilo de vida —, expõe uma rede de operações opacas, debêntures sem lastro, distribuição paralela fora do contrato com o BTG e uma auditoria da PwC que, em determinado fundo, não conseguiu verificar 86% dos ativos.
"O BTG começou a dar nome aos bois sobre o que estava acontecendo ali, e avisou que ia romper o contrato."
— Fonte ligada à Apex Partners, ao Pipeline
Do pitch deck à "pedalada": como Cinelli tentou capitalizar a empresa sem o BTG
Sem linha de crédito do BTG Pactual — seu parceiro de distribuição há sete anos —, Cinelli montou um pitch deck com números que teriam sido auditados pela PwC, buscando capitalização junto a acionistas atuais e a funcionários, que teriam a oportunidade de se tornar sócios de um "negócio próspero".
A operação, porém, não deu tempo de decolar. Ficando sem caixa, a Apex teve que voltar ao BTG dias depois e admitir que tinha "um problema temporário de descasamento de passivos". Segundo pessoas ligadas à empresa, foi só nessa reunião que a ficha de alguns dos sócios caiu. O banco, por sua vez, comunicou à CVM o distrato na semana passada e, na sequência, encerrou formalmente a parceria.
Um dos gatilhos da crise de liquidez, segundo pessoa próxima à casa, teria sido posições alavancadas na CVC — empresa de turismo da qual a Apex é acionista e na qual Cinelli ocupava cadeira no Conselho de Administração até renunciar no dia 6 de agosto, horas após ser afastado da gestora. Chamadas de margem de capital teriam acelerado o descontrole de caixa.
R$ 986 milhões em dívidas: debêntures sem lastro e fundos sem verificação
Os quase R$ 1 bilhão em dívidas declaradas pelo grupo em seu pedido de proteção judicial — feito na sexta-feira (7/08) à noite — não vieram de operações imobiliárias ou de crédito tradicional. Teriam vindo, principalmente, de emissões de debêntures sem conhecimento do conselho de administração e que agora têm lastro questionado.
A estrutura do passivo, segundo levantamento do Estadão, inclui R$ 452 milhões em debêntures e R$ 309,8 milhões em fundos. O BTG Pactual, por sua vez, fez uma análise de ativos e títulos na semana passada que indicou que, em média, 3% dos lastros seriam questionáveis — algo na ordem de R$ 270 milhões, considerando os cerca de R$ 9 bilhões em contas abertas na plataforma por clientes da Apex.
Mas esse número não contabiliza transferências feitas por clientes diretamente à Rhino Securitizadora, sem passar pela custódia do BTG. "Essa inclusive seria outra irregularidade porque o contrato com o BTG era de exclusividade e eles estavam fazendo distribuição com outros parceiros", diz uma fonte ouvida pelo Pipeline.
O impacto mais imediato para investidores atingiu o BRM Carbyne Crédito Estruturado FIC FIDC, fundo gerido pela Apex e distribuído pelo BTG. O banco suspendeu todos os resgates devido à incompatibilidade entre a liquidez da carteira e a corrida de saques. O fundo tem R$ 160,5 milhões em patrimônio líquido e 909 cotistas. A auditoria da PwC, contratada para apurar as inconsistências, não conseguiu verificar 86% dos ativos do FIDC — ficando sem base para opinar sobre a carteira.
"É uma companhia real, com negócios reais e muita gente séria lá dentro. Na atuação imobiliária, por exemplo, os imóveis comprados foram entregues. São nessas debêntures novas que parece que o problema se concentra."
— Gestor ouvido pelo Pipeline
O "Vorcaro capixaba": estilo de vida, precificação e o momento em que a ficha caiu
A queda de Cinelli não foi apenas financeira — foi simbólica. Executivos que acompanhavam o empresário descrevem um estilo de vida que, ao longo do último ano, vinha chamando atenção: viagens à Suíça, novos imóveis como um apartamento na Ilha do Boi, troca de voos de carreira por fretamento particular. "Uma vida luxuosa de Instagram dele e da esposa, que estava incompatível com o patamar financeiro dos outros sócios. Até o cabelo para trás com gel ele passou a usar, por isso estão chamando de Vorcaro capixaba", compara um executivo, citando ainda precificação superestimada de ativos como ponto comum entre os dois casos.
Afastado da empresa, Cinelli mudou o status no LinkedIn para "sabático". Em nota, afirmou que "está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas. Com o gesto, demonstra sua disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade."
A Apex, por sua vez, ajuizou ação de responsabilidade contra Cinelli e Siqueira, buscando responsabilização por gestão temerária e má-fé, com pedido de bloqueio preventivo de bens. A companhia obteve liminar cautelar na Justiça do Espírito Santo e ressalta que a medida "não se trata de recuperação judicial" — embora tenha 30 dias para, se necessário, converter o pedido prévio em processo de RJ.
O Espírito Santo e a elite capixaba: quando a crise atinge o poder local
A Apex não era uma gestora qualquer no Espírito Santo. Era uma das maiores plataformas de investimentos do interior brasileiro, com atuação forte em mercado imobiliário e uma base de clientes de alta renda em cidades com crescimento acima da média nacional. Seu modelo de "onças brasileiras" — investidores fora do radar dos grandes bancos — a tornou referência para capitais médias do país.
Entre seus sócios capitalistas estão nomes conhecidos da elite empresarial capixaba, como Americo Buaiz Filho, do Grupo Buaiz, conglomerado com mais de oito décadas de história no estado, atuante em alimentos, comunicação, shopping centers e educação. A Apex esclarece que Buaiz "participa da companhia de forma minoritária através de uma de suas empresas, sem jamais ter exercido qualquer função de gestor."
A crise, porém, já provoca movimentação entre acionistas minoritários, que estão buscando advogados para avaliar perdas financeiras e eventualmente entrar com ações. O caso também coloca em xeque a governança de uma estrutura que, apesar de reportar quase R$ 20 bilhões sob administração e gestão, parecia operar com "Compliance Zero", nas palavras de uma fonte do mercado — com informações estratégicas omitidas do próprio conselho e emissões de dívida sem aprovação formal.
O que a CVM e o BTG revelam sobre o buraco regulatório
A informação da CVM de que a Apex não possui registro para atuar em mercados regulados é um detalhe que não pode ser subestimado. A empresa atuava como plataforma de investimentos, captando recursos de clientes e distribuindo produtos financeiros — mas fazia isso através da DRM Apex Investimentos, credenciada como escritório de assessoria de investimentos, e não como gestora de carteira registrada na autarquia.
Essa estrutura — comum no mercado de capitais de médio porte — permite que plataformas de investimentos operem em uma zona cinza regulatória, onde a responsabilidade pela custódia e pela verificação de ativos é diluída entre parceiros (no caso, o BTG) e gestoras relacionadas (como a Carbyne e a Rhino). Quando a parceria com o BTG se rompeu, a fragilidade da estrutura ficou exposta: sem a custódia do banco, quem garantia a integridade dos ativos?
O BTG, por sua vez, foi categórico. "Sob a ótica da regulação da CVM, uma vez que toma-se conhecimento desses indícios de irregularidades e descumprimento de normas, não há opção de fazer diferente: a regra exige o distrato imediato", explicou uma fonte ligada ao banco.
O que fica: uma lição para o Brasil além do eixo Rio-São Paulo
A crise da Apex Partners é, em primeiro lugar, uma história de falha de governança — de um fundador que, segundo relatos, centralizava informações, omitia dados do conselho e emitia dívidas sem lastro aparente. Mas é também uma história sobre o mercado de capitais brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo, onde plataformas de investimentos crescem captando recursos de elites regionais seduzidas pela promessa de retornos acima da média e pela proximidade com gestores locais.
A Apex se apresentava como a alternativa aos grandes bancos para o investidor capixaba de alta renda. Em maio de 2026, ainda captava R$ 100 milhões em rodada interna e mirava expansão até 2032. Em agosto, o fundador está afastado, o fundo Carbyne tem resgates suspensos, 909 cotistas não conseguem resgatar seus recursos e a empresa busca proteção judicial para sobreviver.
A pergunta que o caso deixa é mais ampla do que a sorte de Cinelli ou a recuperação dos investidores. Se uma plataforma com ~R$ 20 bilhões sob gestão, sócios como o Grupo Buaiz e parceria com o BTG Pactual conseguiu operar por anos com indícios de "Compliance Zero", quantas outras "onças brasileiras" estão dormindo em florestas regulatórias que a CVM ainda não mapeou?
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