Avião usado por Flávio tem elo com ex-sócio de condenado nos EUA
A Baires Fly é citada pela promotoria argentina em caso de desvio de verbas da área da deficiência. Um intermediário da empresa foi sócio de Fred Machado, condenado nos EUA
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- O jato Gulfstream G400 LV-JQW, usado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar a Argentina, é da Baires Fly S.A. A empresa é citada pela promotoria argentina na investigação de desvios na ANDIS, a agência federal argentina para pessoas com deficiência.
- Um intermediário de negócios da empresa, Sergio Mastropietro, foi sócio de Fred Machado, empresário argentino condenado nos EUA por lavagem de dinheiro e fraude.
- Não há indício de que Machado tenha participado do voo. A Baires Fly não é ré no caso ANDIS, e Mastropietro nega as acusações.
- O mesmo avião já transportou o presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA), Claudio “Chiqui” Tapia, e outro jato da empresa levou Javier Milei a Nova York em 2023.
- Por que isso importa: a escolha do avião levanta perguntas sobre quem contratou o voo e quem pagou, o que ainda não foi esclarecido.
O jato particular usado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar a Argentina rumo aos Estados Unidos pertence a uma empresa citada num dos maiores escândalos de corrupção do governo de Javier Milei. O Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, é da Baires Fly S.A., empresa de táxi aéreo com sede no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires. Ela aparece na investigação sobre desvio de dinheiro da ANDIS, a agência argentina responsável por políticas para pessoas com deficiência.
A confirmação oficial
O governo argentino confirmou o trajeto de Flávio em nota da Dirección Nacional de Migraciones:
“A Direção Nacional de Migrações informa que às 22h50 do dia 27/10 ingressaram pela passagem de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, [Flávio Bolsonaro e sua família], com documentação de viagem hábil, sem nenhum impedimento legal (...). Às 23h30, a comitiva embarcou num voo privado operado pela companhia Baires Fly S.A. com destino à cidade de Guayaquil, Equador.”
— Dirección Nacional de Migraciones, Argentina (tradução livre)
O avião decolou de Puerto Iguazú à 0h22 de quarta-feira (28/10).
Quem é dono do avião
As informações divergem:
- Segundo o jornal Perfil e o site elDiarioAR, o dono formal da Baires Fly é Luis Grande, empresário com décadas no setor de aviação executiva.
- O jornal Página/12 atribui a propriedade da empresa e do jato a Sergio Daniel Mastropietro.
- A Revista Fórum descreve Mastropietro como intermediário de negócios da Baires Fly.
O caso ANDIS
Na investigação sobre desvios na ANDIS:
- o promotor Franco Picardi apontou Mastropietro e a Baires Fly como “cabeças da lavagem” do dinheiro desviado;
- segundo o Página/12, a empresa teria emitido notas fiscais falsas de voos que nunca aconteceram, para lavar recursos;
- o juiz Sebastián Casanello chegou a mandar bloquear mais de 7 bilhões de pesos, valor que um tribunal superior considerou excessivo;
- o caso está hoje com o juiz Ariel Lijo.
A situação jurídica: segundo o Perfil, a Baires Fly não é acusada como empresa no processo. Mastropietro nega as acusações e diz que os negócios foram feitos com outra firma, a Baires Jets. Ninguém foi condenado no caso.
O elo com Fred Machado
Mastropietro foi sócio do empresário Federico “Fred” Machado na empresa SO VAIN S.A., criada em 2010. Segundo o Página/12, foi ele também quem apresentou Machado ao político José Luis Espert.
Quem é Machado: em 2021, ele foi acusado nos EUA de narcotráfico, lavagem de dinheiro e fraude. Foi extraditado da Argentina em novembro de 2025. Em agosto de 2026, num acordo com a Justiça americana, foi condenado por conspiração para lavagem de dinheiro e fraude eletrônica. A acusação de narcotráfico foi retirada como parte do acordo.
A ligação com o voo de Flávio é indireta: a relação societária é de Machado com Mastropietro, não diretamente com a Baires Fly. Segundo a Revista Fórum, não há indício de que Machado tenha participado da contratação do voo.
Os outros passageiros famosos
- Segundo o jornal Clarín, o mesmo LV-JQW levou o presidente da AFA, Claudio “Chiqui” Tapia, ao sorteio da Copa do Mundo em Washington, em dezembro de 2025.
- Outro jato da Baires Fly, o LV-KAX, levou Javier Milei a Nova York logo depois do 2º turno de 2023, segundo o Perfil.
Quem contratou o voo?
Essa é a pergunta ainda sem resposta. Segundo o Página/12, o voo teria sido contratado por um intermediário americano. A Baires Fly não se manifestou.
As versões que circulam, mas não estão confirmadas
O Página/12, jornal argentino, publicou informações que não foram confirmadas por outras fontes:
- que agentes da SIDE, o serviço de inteligência argentino, circulavam pelo aeroporto de Iguazu na segunda-feira, o que o jornal vê como indício de cumplicidade do governo Milei;
- que um comboio teria saído do condomínio de Flávio, em Brasília, às 20h de segunda-feira, o que marcaria o início da fuga;
- que Flávio teria também um passaporte italiano desde 2023.
O governo Milei não comentou essas informações.
Uma correção ao texto do Página/12: o jornal diz que a Casa Branca anunciou asilo para Flávio. O que o Departamento de Estado anunciou foram vistos. Asilo não foi anunciado.
A situação jurídica de Flávio
Flávio é investigado, e não acusado, em inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e sobre o financiamento do filme Dark Horse. Ele saiu do país descumprindo a ordem do ministro Alexandre de Moraes, que o proibia de deixar o Brasil. Até a publicação, não havia mandado de prisão contra ele. Flávio nega irregularidades.
O outro lado
A Baires Fly, Sergio Mastropietro, Luis Grande e o governo argentino não se manifestaram sobre o uso do avião. Flávio Bolsonaro também não se pronunciou.
O avião escolhido para tirar Flávio do continente não é um avião qualquer. Ele pertence a uma empresa citada num escândalo de corrupção em curso na Argentina, ligada indiretamente a um condenado nos EUA, e já usada por figuras próximas ao poder argentino. Nada disso prova cumplicidade do governo Milei nem de ninguém. Mas reforça a pergunta central que as investigações no Brasil terão de responder: quem organizou e quem pagou a saída de um senador proibido pela Justiça de deixar o país.
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