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Banco Master: veja o método que a PF usou para chegar a Moraes; leia a íntegra do relatório

Documento de 218 páginas detalha a técnica forense que apontou o destinatário das notas de Vorcaro — e revela Fábio Faria como o articulador dos primeiros encontros com o ministro

Banco Master: veja o método que a PF usou para chegar a Moraes; leia a íntegra do relatório
📷 Arte/IA Painel Político
📋 Em resumo
  • A Polícia Federal detalhou, em relatório de 218 páginas enviado ao ministro André Mendonça, a técnica forense usada para identificar o destinatário das mensagens de Daniel Vorcaro — sem depender do conteúdo, que era de visualização única.
  • O método cruza registros de sistema do iPhone: criação da nota, screenshot, um PDF residual gerado pelo próprio iOS e o log de envio pelo WhatsApp, tudo na mesma janela de segundos.
  • A sequência aponta, de forma recorrente, um terminal salvo na agenda de Vorcaro como "Alexandre de Moraes BRASILIA".
  • O relatório indica ainda o ex-ministro Fábio Faria como o articulador dos primeiros encontros entre o banqueiro e o ministro, a partir do fim de 2023.
  • O documento detalha ainda um segundo contrato, de ~R$ 50 milhões, pago com cotas de um avião Legacy 650 e um helicóptero, que o escritório de Viviane Barci teria usado — o escritório nega que o acordo tenha se concretizado
  • Por que isso importa: é a resposta técnica à defesa que Moraes apresentou em março, e desloca o debate do "se houve conversa" para "a quem pertencia o número"
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O que torna o novo capítulo do Caso Banco Master diferente dos anteriores não é uma nova mensagem picante. É um método. O relatório da Polícia Federal cujo sigilo o ministro André Mendonça (STF) derrubou nesta terça-feira (1º) — uma Informação de Polícia Judiciária de 218 páginas, endereçada ao próprio ministro — dedica sua parte central a explicar, passo a passo, como os investigadores identificaram o destinatário das mensagens de Daniel Vorcaro, mesmo sem nunca terem lido o conteúdo delas. O Painel Político teve acesso ao documento e o disponibiliza na íntegra ao final desta matéria.

O problema que a PF precisou contornar

As mensagens mais sensíveis foram trocadas em formato de visualização única — aquele que se apaga após ser aberto e não fica armazenado. Do ponto de vista de quem investiga, é uma parede: não há texto recebido para periciar. Foi justamente nessa parede que a defesa de Moraes se apoiou em março, quando o ministro sustentou, em nota, que os registros encontrados no aparelho de Vorcaro estariam vinculados a pastas de outras pessoas — e não a ele.

O relatório contorna o obstáculo por um caminho lateral e engenhoso: em vez de buscar o conteúdo, reconstrói o comportamento do aparelho.

Como o método funciona

Segundo o documento, Vorcaro adotava um padrão repetido dezenas de vezes. Ele redigia um texto no aplicativo de Notas, tirava um print da tela e, em seguida, enviava esse print por WhatsApp. O que a perícia explorou foi o rastro involuntário que essa rotina deixa no sistema do iPhone.

A PF cruzou duas categorias de registro do próprio iOS. A primeira, os "logs", anota o instante em que uma mensagem é enviada pelo WhatsApp. A segunda, o "uso de aplicativos", marca quando cada app é aberto e fechado e o momento exato de cada captura de tela. A esses dois somou-se um terceiro elemento decisivo: ao dar o print, o iPhone gera automaticamente um arquivo PDF de idêntico teor, que fica guardado numa pasta temporária do sistema (a pasta "tmp"), inacessível ao usuário comum. Esse PDF residual, segundo a PF, não é criado de propósito — é um vestígio que o próprio aparelho deixa.

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Encaixando as três peças na linha do tempo, a análise reconstrói uma cadeia que se repete quase segundo a segundo: abre o Notas → edita a nota → tira o print (e o PDF residual nasce no mesmo instante) → fecha o Notas → abre o WhatsApp → um log registra o envio de mensagem para um número específico → fecha o WhatsApp. A conclusão da PF é que aquele número era o destinatário imediato de cada nota recém-capturada.

A perícia não recuperou o que foi dito. Recuperou para quem — e quando.

O número que aparece em toda a cadeia

O terminal que se repete ao fim de cada sequência é o +55 61 99266-4093. Segundo o relatório, esse número estava salvo na agenda de Vorcaro como "Alexandre de Moraes BRASILIA" — e também sob outros três apelidos para o mesmo contato: "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".

Aqui é obrigatório o rigor. O que a PF documenta é que Vorcaro enviava mensagens àquele número segundos depois de criar cada nota, e que o número estava rotulado com o nome do ministro no aparelho do banqueiro. O que o relatório não faz — e diz expressamente que não fez, invocando a Lei Orgânica da Magistratura — é periciar a linha do próprio Moraes ou confirmar que ele leu o que recebeu. Moraes nega ser o destinatário. A quem o número de fato pertencia é a peça que o Plenário do STF terá de fechar.

Terminal atribuído ao contato Terminal atribuído ao contato "Alexandre de Moraes BRASILIA

Fábio Faria: quem abriu a porta

Se o método é a manchete, o segundo eixo do relatório é a resposta a uma pergunta que rondava o caso desde o início: quem aproximou um banqueiro investigado de um ministro do Supremo? O documento aponta, de forma recorrente, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria (governo Bolsonaro) como o articulador dos primeiros contatos.

É Faria quem, em 26 de dezembro de 2023, compartilha com Vorcaro o contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA". Dias antes, em 21 de dezembro, havia tratado da logística de um encontro — pedindo a Vorcaro os dados do carro "para autorizar a segurança a acompanhar na garagem". Nas conversas, segundo o relatório, Faria se referia ao ministro pelo codinome "Careca".

Fábio Faria compartilhando os contatos de

Fábio Faria compartilhando os contatos de "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF"

Faria pede dados do carro de Vorcaro para

Faria pede dados do carro de Vorcaro para "autorizar a segurança a acompanhar na garagem"

A partir dessa aproximação, o relatório descreve Faria cuidando dos detalhes: agendando reuniões — inclusive uma "na casa do Alexandre" —, transmitindo recados entre os dois e acompanhando as tratativas do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Em 15 de janeiro de 2024, é Faria quem cobra: "Respondeu a Vivi?"; e quando Vorcaro pergunta se ele havia "fechado 3 anos" de contrato, Faria responde "4 anos", e emenda "Mas pode fazer 3".

Faria e Vorcaro tratam do prazo do contrato (Faria e Vorcaro tratam do prazo do contrato ("fechou 3 anos" / "4 anos... pode fazer 3")

O mesmo padrão reaparece na articulação dos eventos em Londres, em 2024 e 2025 (estes últimos cancelados), em que Faria ajuda a organizar a ida de autoridades. É também dele a iniciativa, segundo o relatório, de sugerir o convite ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para um desses eventos.

Faria encaminha mensagem agendando reunião

Faria encaminha mensagem agendando reunião "na casa do Alexandre"

Conversa em que se cogita

Conversa em que se cogita "convidar o DPF Andrei" para Londres

As aeronaves: um segundo contrato de R$ 50 milhões

Se o primeiro contrato — os R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes — já era conhecido, o relatório detalha um segundo acordo, de cerca de R$ 50 milhões, firmado em maio de 2025 e com uma forma de pagamento peculiar: a cessão de cotas de duas aeronaves de Vorcaro. Segundo o documento, os ativos eram um avião Legacy 650 (prefixo PP-NLR) e um helicóptero Airbus EC 155 B1, cujas cotas custariam, respectivamente, US$ 5.512.951,89 e US$ 1.335.014,01, conforme a brochura que Vorcaro pediu para enviar à advogada.

Vorcaro pede a

Vorcaro pede a "Marcos Prime" que envie a Viviane a brochura do avião e do helicóptero

Custo das cotas do Legacy 650 e do EC 155 B1Custo das cotas do Legacy 650 e do EC 155 B1

O relatório descreve ainda o esforço para estruturar a transferência sem que o escritório aparecesse como sócio formal das empresas de Vorcaro. O advogado Leonardo Palhares registra que, segundo "Guilherme", o "escritório deles não pode ser parte do contrato, não pode ter participação em empresas" — devendo ser "dono direto da cota". A operação foi montada via holding Viking Participações e um Termo de Acordo e Dação em Pagamento.

Palhares envia o Termo de Acordo e Dação em PagamentoPalhares envia o Termo de Acordo e Dação em Pagamento

O ponto mais sensível é o indício de uso efetivo. Em julho de 2025, um sócio de Vorcaro na empresa Prime You relata que o escritório "já usaram aviões e helicópteros", e encaminha ao banqueiro um recorte de conversa em que pergunta a Viviane se "estão gostando da utilização das cotas". A resposta atribuída à advogada: "Sim, estamos gostando muito."

Recorte da conversa com Viviane sobre a utilização das aeronavesRecorte da conversa com Viviane sobre a utilização das aeronaves

A resposta do escritório

Procurada, a assessoria de Viviane Barci de Moraes afirmou que essa proposta foi extinta com a liquidação do Master, que o escritório mantinha "somente uma contratação" com o banco e que "nega qualquer transferência ou substituição do contrato". Segundo a nota, "a proposta do Banco Master não foi aceita, nada foi assinado e o contrato original foi extinto com a liquidação do banco".

Gonet, via um intermediário

O relatório dedica um capítulo às menções ao procurador-geral da República, Paulo Gonet — e aqui a cautela precisa ser máxima, porque a própria PF é explícita ao afirmar que não atribui conduta criminosa a Gonet. As referências não vêm de contato salvo em nome dele (não há nenhum no aparelho), mas de conversas com o advogado Ciro Soares, apontado como interlocutor.

Segundo o documento, em março de 2025 Ciro enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet, seguida das mensagens "Liga aqui" e "Ele quer falar com você" — após o que o celular registrou quatro ligações para o número de Ciro. O relatório ressalva que não é possível confirmar se Gonet participou das chamadas ou falou diretamente com o banqueiro.

Ciro envia foto com Gonet, seguida das quatro chamadasCiro envia foto com Gonet, seguida das quatro chamadas

O trecho mais citado hoje trata de um evento em Londres bancado por Vorcaro. Ciro escreve: "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres", e Vorcaro responde "Obvio ne". Meses depois, Ciro confirma que "PG confirmou a ida pra Londres" e pergunta se "o Pedrinho filho do PG pode ir com a gente" — nova resposta afirmativa do banqueiro. Há ainda mensagens de tom informal atribuídas a Gonet, encaminhadas por Ciro, como "Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!"

Ciro informa que

Ciro informa que "PG confirmou a ida pra Londres" e pergunta sobre o "Pedrinho filho do PG"

Registre-se que Pedro Gonet afirmou à imprensa que nunca soube do convite e que não vai a Londres desde 2019 — e que o evento de 2025 acabou cancelado.

O que Faria diz

Faria nega ter intermediado qualquer tratativa sobre processos judiciais. Em manifestações anteriores, seu entorno afirmou que ele prestou serviços ao Master após deixar o governo e que não atuou como ponte para assuntos do Judiciário. O relatório, é preciso registrar, não conclui que Faria tenha cometido crime — assim como não imputa conduta criminosa às demais autoridades citadas. Descreve interações; não decreta ilícitos.

O que está comprovado — e o que não está

Vale separar com clareza, porque a distinção é o que sustenta o caso juridicamente. Está documentado no relatório: a técnica forense, a cadeia temporal repetida, o número salvo com o nome do ministro, e o papel de Faria como articulador dos encontros, com datas e mensagens. Não está estabelecido: que o número pertencia de fato a Moraes e que ele leu as mensagens (ele nega); que houve contrapartida judicial a qualquer pagamento; e qualquer crime por parte de Faria, Andrei Rodrigues ou do procurador-geral Paulo Gonet, também citado no documento. A própria PF ressalva que a análise foi feita no prazo de 72 horas fixado pelo ministro, que não é exaustiva e que não aprofundou apurações sobre magistrados.

Vale um esclarecimento de escopo. A revelação dos cartões de crédito de R$ 300 mil emitidos pelo Master para os dois filhos de Moraes — noticiada pelo Estadão — não integra este relatório específico, mas outra apuração, baseada em mensagens com uma executiva do banco. O escritório confirmou que os cartões foram oferecidos, mas afirmou que "jamais [foram] usados". Mencionamos aqui para contexto, distinguindo-a das provas contidas no documento ora publicado.

Por que este relatório pesa diferente

O que muda com este documento não é o volume de escândalo — é a natureza da prova. Até agora, o caso vivia de reportagens sobre mensagens cujo teor Moraes contestava. O relatório desloca o eixo: em vez de discutir se houve conversa, ele apresenta um método que sustenta para quem Vorcaro escrevia, e mapeia quem costurou os encontros desde o começo. Cabe agora ao Plenário do STF — e à perícia definitiva — dizer se essa reconstrução resiste ao contraditório. A pergunta que o país leva para as próximas semanas não é mais sobre a existência das mensagens. É sobre a quem elas chegavam, e o que foi feito com elas.

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