Caso Eldorado: PF investiga suposta compra de parecer do MPF
Segundo a PF, conversas apontam que o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, receberia R$ 10 milhões. Um procurador aposentado é investigado. Ninguém foi acusado formalmente
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- Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) indicam que um interlocutor ligado à Paper Excellence teria acertado o pagamento de US$ 7,5 milhões (cerca de R$ 40 milhões) por manifestações do Ministério Público Federal (MPF) favoráveis à empresa.
- Segundo as mensagens, o advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), teria direito a R$ 10 milhões desse valor.
- O subprocurador-geral aposentado Antônio Carlos Simões Soares é investigado pela PF por suspeita de combinar o conteúdo de pareceres com Willer.
- Ninguém foi indiciado ou denunciado. Willer não quis comentar, a Paper não respondeu, e Soares não foi localizado.
- Por que isso importa: a suspeita atinge a disputa de R$ 15 bilhões pela Eldorado Celulose e indica um possível esquema de compra de manifestações no Ministério Público. O parecer, no fim, não foi seguido pelo STJ.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) indicam que um interlocutor ligado à empresa Paper Excellence teria acertado o pagamento de US$ 7,5 milhões, cerca de R$ 40 milhões, em troca de manifestações do Ministério Público Federal (MPF) favoráveis à companhia. Segundo as conversas, o dinheiro passaria pelo advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que ficaria com R$ 10 milhões. As informações foram reveladas pelo portal UOL.
O que isso significa até aqui: são mensagens e suspeitas da PF. Ninguém foi indiciado, denunciado ou condenado. As pessoas citadas estão, no máximo, na condição de investigadas.
A disputa pela Eldorado
Para entender o caso:
- Em 2017, a J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, acertou a venda da Eldorado Brasil Celulose à Paper Excellence por cerca de R$ 15 bilhões. A Paper é controlada pela família indonésia Wijaya e atua no Brasil pela CA Investment.
- A Paper comprou 49,41% das ações, mas a J&F não transferiu o controle no prazo combinado. As duas empresas passaram a se acusar de descumprir o contrato.
- Em 2021, uma arbitragem, que é um julgamento privado escolhido pelas próprias empresas, deu razão à Paper e mandou a J&F concluir a venda.
- A J&F foi à Justiça de São Paulo para tentar anular a arbitragem. No Superior Tribunal de Justiça (STJ), conseguiu uma liminar, uma decisão provisória, que suspendeu essas ações e, na prática, adiou a tomada de controle da Eldorado pela Paper.
Quem é investigado e por quê
O subprocurador-geral da República aposentado Antônio Carlos Simões Soares é investigado pela PF por suspeita de combinar o conteúdo de pareceres do MPF com Willer Tomaz. Na época, Soares atuava no caso no STJ.
O que é um parecer: é a opinião do Ministério Público no processo. O juiz ou ministro não é obrigado a segui-la, mas ela tem peso na decisão.
Segundo a PF:
- no mesmo dia em que uma empresa de Willer, a Difusora Comunicação, recebeu R$ 12,3 milhões de um contato identificado como “Marc Dhabi”, Soares assinou um parecer contra a liminar que favorecia a J&F;
- ao passar os dados da conta a Dhabi, Willer anotou que o valor líquido, já descontados os impostos, seria de R$ 10 milhões, a mesma quantia que, pelas mensagens, caberia a ele;
- no fim daquele dia, Willer escreveu a Dhabi: “já está no site do STJ”;
- em março, Willer já tinha mandado a Dhabi outro parecer de Soares, também favorável à Paper, no mesmo dia em que o documento foi protocolado.
O “AC” e o “cacique”
As mensagens citam um combinado com alguém chamado “AC”. Para a PF, “AC” é compatível com as iniciais de Antônio Carlos Simões Soares. É uma interpretação dos investigadores, não uma identificação confirmada.
Em 2 de abril de 2024, Dhabi escreveu a Willer:
“Amigo, o cacique está informando que nos registros dele o combinado para liminar com o AC era US 7,5 (dentro desse valor tinha BRL 10 seu e para o Japonês e os outros dois era USD 500 +USD 500 (...)”
— Mensagem de Marc Dhabi a Willer Tomaz, segundo a PF
Dhabi pediu que Willer confirmasse “com o AC”. Willer respondeu com a conta “7.5 + 0,5 + 0,5?”, e Dhabi confirmou.
A PF não identificou quem são o “cacique”, o “Japonês” e o próprio Marc Dhabi.
“Tem que ser via offshore”
Segundo as mensagens, depois do depósito:
- Dhabi pediu a nota fiscal e sugeriu que o serviço fosse descrito como “elaboração de campanha de mídia”;
- Willer ofereceu emitir a nota por uma empresa de táxi aéreo, como “compra de horas de voo”;
- Dhabi recusou. Disse que seria “muito arriscado” e que o pagamento “tem que ser via offshore”, isto é, por uma empresa aberta no exterior, em dólar, porque o “banco está na China”;
- Willer sugeriu então um pagamento “de fora, via invoice”, uma fatura internacional, e disse que assim “a blindagem fica total”.
Willer chegou a enviar uma proposta de contrato em nome da CA Investment. Em julho de 2024, o contrato passou a ser feito pela offshore Zunway Limited, e Dhabi devolveu o documento assinado. Para a PF, a Zunway foi usada para formalizar a contratação de Willer sem criar um vínculo, nos processos, entre ele e a CA Investment. Willer não aparece como advogado da empresa nos autos.
O parecer não foi seguido
A relatora do caso no STJ, ministra Nancy Andrighi, não revogou a liminar. Em outubro de 2024, ela deu razão em parte à J&F num dos recursos, contra o parecer de Soares.
Em outra frente da investigação, a Operação Linceu, a PF encontrou no celular de Willer uma minuta, isto é, um rascunho, de uma decisão de Nancy Andrighi nesse mesmo processo. A foto teria sido enviada pelo ex-secretário de Tecnologia do STJ Humberto Fontoura Pradera em 24 de outubro de 2024, antes de a ministra assinar a decisão. Pradera foi alvo de busca e apreensão e perdeu o cargo. Não há indicação de participação da ministra no vazamento.
A liminar só deixou de valer em maio de 2025, quando a J&F comprou a parte da Paper na Eldorado e as duas empresas desistiram das ações.
Onde Flávio Bolsonaro entra
Flávio não é citado nas mensagens sobre o caso Eldorado. Ele aparece nesta história porque é amigo de Willer Tomaz e porque é investigado em outro inquérito, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado. Nesse inquérito, Moraes mandou bloquear até R$ 6 bilhões de Willer. Foi também nesse caso que Moraes proibiu Flávio de deixar o país, ordem que o senador descumpriu ao viajar para os Estados Unidos na madrugada desta quarta-feira (28/10).
Não há, nas informações divulgadas, nenhuma indicação de que Flávio tenha participado do suposto acerto pelo parecer.
O outro lado
- Willer Tomaz disse ao UOL que não iria comentar. Antes, ele tinha negado categoricamente ter tido acesso a manifestações do MPF ou ter interferido nelas.
- A Paper Excellence não respondeu.
- Antônio Carlos Simões Soares não foi localizado.
Se as suspeitas da PF se confirmarem, o caso mostraria um sistema em que a opinião do Ministério Público, que deveria ser técnica e independente, tinha preço em dólar e era paga por offshore. A ironia é que o parecer não serviu para nada: a ministra decidiu em sentido contrário, e a disputa terminou num acordo entre as próprias empresas. Mas a investigação não depende do resultado. Se um parecer foi comprado, o crime existe mesmo que ele tenha sido ignorado. Por enquanto, há mensagens, um depósito e coincidências de datas. Cabe à PF provar quem é o “AC” e se o dinheiro chegou a ele.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.