Painel Econômico

Do calote ao confronto com a polícia: como a intervenção do Ueno Bank incendiou a política paraguaia em 24 horas

Em menos de 24 horas, a intervenção do maior banco em número de clientes do Paraguai gerou prisões, embargo de bens, projeto de lei de socorro e confronto entre manifestantes e a polícia em Asunção — com o presidente Santiago Peña, ex-sócio do grupo controlador, no centro da pressão

Do calote ao confronto com a polícia: como a intervenção do Ueno Bank incendiou a política paraguaia em 24 horas
📷 Divulgação
📋 Em resumo ▾
  • O Banco Central do Paraguai (BCP) decretou, por unanimidade, a intervenção e abertura do processo de resolução bancária do Ueno Bank na madrugada de 3 de novembro, após constatar solvência abaixo de 50% do mínimo legal
  • O banco é o número 1 do país em quantidade de clientes, cartões e transações — cerca de 3 milhões de clientes, equivalentes a 60% da população adulta paraguaia — ainda que seja apenas o 5º maior em ativos e depósitos totais
  • Oito dirigentes do Ueno, incluindo o fundador e CEO Miguel Vázquez Villasanti e o presidente Juan Manuel Gustale, foram detidos ou se entregaram à Justiça; a Justiça já embargou US$ 70 milhões em bens ligados a eles e ao Grupo Vázquez
  • O presidente Santiago Peña foi sócio do grupo controlador do banco (via Ueno Holding) até março de 2025, e pediu a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo — que também presidiu o Ueno até 2023 e já formalizou por carta ao Senado que pôs seu cargo à disposição
  • Peña articula com o Congresso um projeto de lei para usar o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) para pagar correntistas e devolver recursos públicos (IPS e outras caixas previdenciárias) aplicados no banco — proposta que a oposição (Patria Querida) classificou como tentativa de “blanquear” o próprio presidente
  • Centenas de correntistas e aposentados protestaram na noite de terça em Asunção, marchando até o Congresso Nacional; o ato terminou em confronto com a Polícia Nacional, e manifestantes prometeram acampar pedindo a destituição de Peña
  • Por que isso importa: o que começou como uma intervenção técnica por insolvência bancária se transformou, em menos de um dia, em uma crise que mistura colapso financeiro, prisões por suspeita de crime, disputa institucional dentro do próprio Banco Central e confronto nas ruas da capital. Com quase dois terços da população adulta do país afetada diretamente como clientes do banco, e com o presidente da República tendo histórico de sócio no grupo controlador, o caso testa simultaneamente a credibilidade regulatória, a independência das instituições paraguaias e a estabilidade política do governo Peña.
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Na madrugada da última terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou, por unanimidade de seu Diretório, o início do procedimento de resolução bancária do Ueno Bank, nos termos da Lei nº 2.334/03, que regula a garantia de depósitos e os processos de resolução de instituições financeiras no país. A decisão foi tomada após o órgão constatar que o índice de solvência do banco havia caído para menos da metade do mínimo legal exigido.

Na prática, isso significou o fechamento imediato das agências e o congelamento de todos os ativos e passivos do Ueno a partir do anúncio. Cerca de 120 funcionários do BCP foram deslocados para as unidades do banco para iniciar o processo de conciliação contábil. A autoridade monetária estima que 97% dos correntistas terão seus depósitos totalmente cobertos pela garantia legal, de até 75 salários mínimos (cerca de US$ 39 mil por depositante).

O Ueno não é o maior banco do Paraguai em ativos — ocupa a quinta posição nesse quesito —, mas é, disparado, o líder em número de clientes, cartões de débito e crédito e volume de transações. Com cerca de 3 milhões de clientes, a instituição atinge aproximadamente 60% da população adulta do país, segundo dados do próprio banco e da imprensa local anteriores à crise.

Oito dirigentes detidos, US$ 70 milhões embargados

A crise avançou rapidamente para o campo criminal. O Ministério Público paraguaio abriu uma causa penal depois que o próprio Diretório do Banco Central apresentou denúncia contra dirigentes do Ueno, suspeitos de concessão irregular de empréstimos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, conglomerado controlador do banco.

Ao longo de terça-feira, a Polícia Nacional confirmou a detenção progressiva de dirigentes da instituição — em um primeiro balanço, seis detidos e dois ainda fugitivos; ao final do dia, a contagem chegou a oito dirigentes capturados ou entregues à Justiça, entre eles Federico Miguel Vázquez Villasanti, vice-presidente primeiro e CEO do Ueno Bank, e Juan Manuel Gustale Cardoni, presidente da instituição. A Justiça determinou ainda o embargo de US$ 70 milhões em bens pertencentes a diretores do banco e ao Grupo Vázquez.

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É necessário marcar com precisão o que está provado e o que ainda é objeto de investigação: a intervenção do BCP tem base técnica declarada pelo próprio regulador — o índice de solvência abaixo do mínimo legal —, mas a origem dessa insolvência, incluindo as suspeitas de empréstimos irregulares a empresas ligadas ao grupo controlador, está sob apuração criminal em curso. Nenhum dos detidos foi condenado ou teve responsabilidade criminal estabelecida até a publicação desta reportagem. Em comunicados anteriores à intervenção, o Ueno Bank afirmava repetidamente estar em “pleno cumprimento dos limites e requerimentos legais e regulatórios aplicáveis”, e que os procedimentos em curso “não constituíam constatação de irregularidade nem sanção” — posição que, até onde esta reportagem apurou, não foi reiterada publicamente pelos dirigentes após as detenções de terça-feira.

O conflito de interesse que chega ao próprio presidente

O caso tem, desde outubro, um ingrediente de conflito de interesse na cúpula do Banco Central: Carlos Carvallo, atual presidente do BCP, presidiu a então Financeira Ueno — depois convertida em Ueno Bank — entre 2021 e agosto de 2023, pouco antes de assumir a presidência do próprio órgão responsável por fiscalizar a instituição.

Com a intervenção decretada, o presidente Santiago Peña pediu publicamente a renúncia de Carvallo através de sua conta na rede social X: “Ante os fatos de conhecimento público registrados no decorrer do dia, pedi a renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai.” Carvallo, por sua vez, formalizou por carta enviada ao Senado que colocou seu cargo à disposição da instituição — até a publicação desta reportagem, não havia confirmação pública de que a saída tenha sido formalmente aceita.

Mas o conflito de interesse não se limita a Carvallo. Segundo apuração da agência MercoPress, o próprio presidente Peña foi sócio do grupo controlador do Ueno — como acionista da Ueno Holding, estrutura que controla o banco, não do Ueno Bank como pessoa jurídica bancária — até vender sua participação em março de 2025. O Ueno já havia afirmado publicamente que Peña “nunca teve relação com o banco em si como acionista ou investidor”, distinção que reserva o vínculo apenas à holding controladora. Em 2024, antes de vender as ações, Peña havia classificado como “campanha midiática” e “mentiras” as reportagens sobre a aplicação de G$ 250 bilhões (cerca de US$ 32 milhões) do fundo de pensões estatal (IPS) em bônus do Ueno.

Soma-se a isso um dado revelado pela Bloomberg Línea: os depósitos do governo paraguaio no Ueno dispararam desde que Peña assumiu a Presidência em 2023, chegando a aproximadamente US$ 869 milhões até junho de 2026 — o equivalente a 29% de todos os depósitos do banco. O próprio vice-presidente, Pedro Alliana, já havia manifestado preocupação, um dia antes da intervenção, com “a concentração e a vulnerabilidade dos fundos públicos depositados no Ueno”, e instado Peña a se ocupar do assunto.

Como em qualquer apuração que envolve acusação não condenada: até a publicação desta reportagem, não há evidência pública de que a antiga participação acionária de Peña na Ueno Holding tenha influenciado decisões específicas de política regulatória ou de alocação de recursos públicos no banco. Trata-se de uma suspeita levantada por setores da política paraguaia — inclusive dentro da própria base governista —, não de um fato apurado e provado.

O projeto de lei que a oposição chama de “blanqueo”

Horas após o pedido de renúncia a Carvallo, Peña anunciou que acordou com os presidentes das duas câmaras do Congresso o tratamento urgente de um projeto de lei que autoriza o uso do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) para iniciar “o pagamento imediato” aos correntistas afetados. Segundo o presidente, a lei também “garantirá a devolução dos fundos públicos, do IPS e das demais caixas de aposentadoria públicas” que mantêm recursos vinculados ao Ueno.

A proposta gerou reação imediata do partido de oposição Patria Querida (PPQ), que classificou a iniciativa como uma tentativa de “blanquear o próprio Peña” e declarou, em nota: “Nem é um salvamento, é um roubo descarado do dinheiro dos correntistas para pagar o desfalque do Ueno ao Estado e um debilitamento estrutural do sistema bancário paraguaio!”

Vale uma distinção técnica que a disputa política tende a borrar: o FGD é um fundo pré-constituído, alimentado por contribuições dos próprios bancos — não dinheiro novo do Tesouro — destinado justamente a cobrir depositantes em casos de resolução bancária. A controvérsia mais específica está na extensão dessa cobertura a recursos públicos institucionais (IPS e caixas previdenciárias), que normalmente correm por uma lógica de risco distinta da de pequenos correntistas pessoa física — e é exatamente esse ponto que a oposição aponta como uma forma de socorrer, por vias indiretas, a exposição do próprio Estado e de figuras a ele ligadas.

O Congresso chegou a convocar sessão extraordinária ainda na tarde de terça-feira para tentar avançar na liberação de recursos a pequenos correntistas, mas o conteúdo final do projeto, sua tramitação e os detalhes de como diferenciará depositantes pessoa física de fundos institucionais ainda não haviam sido definidos até a publicação desta reportagem.

A noite de confronto em Asunção

A reação popular veio rápido. Na noite de terça-feira, centenas de correntistas e aposentados se reuniram no microcentro de Asunção, em frente ao Panteão Nacional dos Heróis, para protestar contra a crise. O ato, que começou de forma pacífica, marchou até o Congresso Nacional, onde um grupo tentou avançar até a sede do Parlamento e foi contido por tropa de choque da Polícia Nacional, resultando em confrontos breves entre manifestantes e policiais.

Os manifestantes, que se descreveram como “autoconvocados”, ergueram cartazes com a frase “Destituição política do presidente Santiago Peña já!” e informaram à agência EFE que pretendiam passar a madrugada acampados na Praça de Armas, ao lado do Parlamento, para manter a pressão. Um correntista resumiu o sentimento do grupo à imprensa local: “Roubou meu futuro e meu presente.” Entre os manifestantes havia também funcionários do próprio Ueno Bank, preocupados com a continuidade de seus empregos e o pagamento de indenizações.

A crise também gerou, segundo reportagens paraguaias, comparações com o histórico “corralito” argentino de 2001 — um paralelo usado para transmitir a gravidade da sensação de dinheiro inacessível entre a população, ainda que as circunstâncias macroeconômicas dos dois países e dos dois episódios sejam distintas e não tenham sido equiparadas tecnicamente por nenhuma autoridade paraguaia até o momento.

O que ainda não está esclarecido

Permanecem sem resposta definitiva, até a publicação desta reportagem: se a renúncia de Carvallo ao Banco Central já foi formalmente aceita; o conteúdo final do projeto de lei sobre o Fundo de Garantia de Depósitos e como ele tratará a diferença entre correntistas pessoa física e fundos públicos institucionais; se haverá novas detenções de dirigentes do Ueno além dos oito já capturados; e se os protestos em Asunção se intensificarão nos próximos dias à medida que o Congresso avança — ou não — na votação da matéria.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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