Do erro de Flori à pressa do Estado: a novela da gestão do hospital de Vilhena
Foi o prefeito Flori Cordeiro quem terceirizou a gestão do maior hospital do Cone Sul para uma OSS. A solução não resolveu — acumulou passivo de R$ 18 milhões e salários atrasados — e agora o Governo do Estado tenta repassar de novo, em contratação relâmpago suspensa pelo TCE-RO
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- A gestão do Hospital Regional de Vilhena, o maior do Cone Sul, virou uma queda de braço entre a Prefeitura, o Governo do Estado e o Ministério Público.
- A terceirização para a OSS Santa Casa de Chavantes foi decisão da gestão do prefeito Flori Cordeiro (Podemos) — que fez da saúde a "vitrine" de seu projeto ao governo estadual.
- O modelo rendeu a certificação ONA (qualidade), mas também um passivo de R$ 18 milhões e salários médicos atrasados, com o TCE-RO cobrando explicações.
- O Governo do Estado tentou substituir a Chavantes pela OSS Instituto Patris, em contratação emergencial de R$ 126,6 milhões fechada em 36 minutos — suspensa pelo TCE-RO.
- Por que isso importa: o hospital que virou referência agora é objeto de uma disputa política e administrativa que pode comprometer o atendimento de todo o sul de Rondônia.
- A OSS que o Estado tentou colocar tem a direção relacionada, em reportagem, a um grupo investigado pela PF na saúde de Goiás.
O maior hospital público do Cone Sul de Rondônia virou palco de uma disputa que envolve a Prefeitura de Vilhena, o Governo do Estado, o Ministério Público e o Tribunal de Contas — e que tem, no fundo, uma pergunta incômoda: quem deve administrar o Hospital Regional Adamastor Teixeira de Oliveira, e como? A novela é longa, tem contradições de todos os lados e um capítulo mais recente explosivo: uma contratação emergencial de mais de R$ 119 milhões, fechada em 36 minutos, que o TCE-RO suspendeu. Para entender o presente, é preciso voltar ao começo — e o começo passa pelo prefeito Flori Cordeiro.
A origem: a aposta de Flori na terceirização
A decisão de entregar a gestão do hospital a uma Organização Social de Saúde (OSS) — uma entidade privada que administra o serviço público com recursos do Estado — foi tomada ainda na gestão municipal, sob o comando do prefeito Flori Cordeiro de Miranda Júnior (Podemos). Há cerca de quatro anos, a Prefeitura contratou a Santa Casa de Misericórdia de Chavantes, OSS com sede no interior de São Paulo, para tocar o Hospital Regional, a UPA, o Instituto do Rim e o Laboratório Municipal.
A "vitrine" que já nasceu embaçada
A decisão de entregar a gestão do hospital a uma Organização Social de Saúde (OSS) foi tomada ainda na gestão municipal, sob o comando do prefeito Flori Cordeiro de Miranda Júnior (Podemos), que há cerca de quatro anos contratou a Santa Casa de Misericórdia de Chavantes para tocar o Hospital Regional, a UPA, o Instituto do Rim e o Laboratório Municipal.
O prefeito passou a usar a saúde como a "vitrine" de sua administração e como pilar de um projeto político maior — a intenção, cada vez mais evidente, de disputar o Governo do Estado.
Mas, a vitrine já vinha trincando havia meses — como o Painel Político vem documentando ao longo de 2026. Antes mesmo da crise da troca de gestão, a saúde da administração Flori já acumulava sinais de alerta: em junho, o caso da carreta de exames expôs falta de licitação, uma dívida de R$ 1,8 milhão e um novo empenho milionário sob escrutínio, com o Ministério Público chamado a intervir. Ainda em junho, pacientes ficaram sem ressonância por falta de contraste, num episódio que colocou a administração "em rota de colisão com a transparência". Em julho, os médicos anunciaram paralisação dos atendimentos eletivos por salários atrasados. E o cerco não se limitava à saúde: em março, o TRE-RO manteve a desaprovação das contas de Flori e do vice, com devolução de R$ 161 mil ao Tesouro; e, desde outubro de 2025, a própria Polícia Federal pediu autorização para investigá-lo por suspeita de desvio de recursos eleitorais na campanha de 2024.
Ou seja: quando o passivo de R$ 18 milhões e os salários atrasados explodiram no Hospital Regional — levando o TCE-RO a cobrar explicações do prefeito, do secretário municipal de Saúde e da presidente da Chavantes, em agosto —, não era um raio em céu azul. Era o agravamento de uma crise que já se anunciava. A vitrine que o prefeito queria mostrar ao eleitor do estado inteiro já estava, havia tempo, embaçada por dentro.
Uma ressalva de equilíbrio, contudo, é necessária: parte do rombo financeiro decorre de atrasos do próprio Governo do Estado em repassar os recursos de custeio — afinal, embora fisicamente em Vilhena, a unidade é de responsabilidade administrativa e financeira estadual. O passivo, portanto, tem paternidade dividida. Mas o fato político é inescapável: a saúde que Flori elegeu como seu maior trunfo virou seu maior alvo de fiscalização.
O problema: a vitrine trincou
Porém a solução terceirizada não resolveu o problema de fundo — apenas o deslocou. O modelo passou a acumular dificuldades que respingaram justamente na vitrine. Em agosto de 2026, o TCE-RO determinou que Flori Cordeiro, o secretário municipal de Saúde e a presidente da Santa Casa de Chavantes prestassem esclarecimentos, em 10 dias, sobre um passivo financeiro estimado em R$ 18 milhões no Hospital Regional, além de salários de médicos atrasados e um "apagão de informações na transição de gestão".
A virada: o hospital volta ao Estado
No fim de 2025, o Hospital Regional foi devolvido ao Governo de Rondônia. Mesmo assim, o Estado manteve a Chavantes na condução, renovando periodicamente o contrato — até decidir, em 2026, que era hora de trocar a Organização Social. E foi aqui que a novela ganhou seus capítulos mais turbulentos.
O prefeito Flori, que antes defendia a terceirização, passou a criticar duramente a forma como o Estado conduzia a substituição. Em julho, quando o Governo enviou representantes de uma nova OSS para assumir o hospital, o clima virou tensão: segundo o prefeito, a nova gestora chegou com cerca de 30 pessoas para assumir um complexo que tinha 400 funcionários da Chavantes e outros 300 servidores municipais, sem transição planejada e sem respeitar o aviso prévio de 60 dias. O episódio mobilizou o Ministério Público, a Polícia Militar e o secretário estadual de Saúde, e a Justiça concedeu liminares que mantiveram a Chavantes na administração.
Curiosamente, o próprio Flori forneceu munição à oposição: ao defender que o Estado assumisse o imóvel para poder investir, ele admitiu que "a transição está documentada, está formalizada" — declaração que o vereador Samir Ali apontou como incoerente com as críticas que o prefeito fazia à troca. É a novela onde quase todos os personagens defendem, em momentos diferentes, posições opostas.
O capítulo explosivo: a OSS escolhida em 36 minutos
O ponto mais grave veio à tona em análise de documentos do sistema SEI publicada pela Folha do Sul. O Governo, via SESAU, escolheu a OSS Instituto Patris para assumir o hospital numa contratação emergencial — apesar de o próprio Estado ter arquivado, em abril de 2026, um emergencial anterior por considerar a situação "superada". A emergência, segundo a apuração, "ressuscitou" sem fato novo que a justificasse.
E a escolha foi relâmpago: em 2 de julho, às 11h57, a proposta do Patris entrou no sistema; às 12h33, o secretário de Saúde assinou a ordem de serviço autorizando a OSS a assumir o hospital. 36 minutos. Uma proposta concorrente, protocolada dois dias antes, só foi aberta oficialmente um dia depois da escolha do Patris. O valor — R$ 9,969 milhões/mês, ou R$ 126,6 milhões ao ano — ficou 38,5% acima de outro termo firmado pelo próprio Estado, sem memória de cálculo aberta. E o Conselho Estadual de Saúde, que havia deliberado contra a estadualização em maio, foi ignorado.
Da entrada da proposta à ordem autorizando a OSS a assumir o hospital, passaram-se 36 minutos. A concorrente só foi aberta um dia depois.
O freio: o TCE-RO suspende a entrada do Patris
A contratação relâmpago não prosperou. O Tribunal de Contas do Estado de Rondônia suspendeu cautelarmente a ordem de serviço para a entrada do Instituto Patris no Hospital Regional de Vilhena. O rito de exceção, denunciado por sua pressa e falta de fundamentação, foi travado antes de produzir efeitos.
Quem é o Instituto Patris — e a sombra que o acompanha
O Instituto Patris é uma OSS real, com sede em Cuiabá (MT) e filiais em Goiás e no Paraná, que administra hospitais estaduais e municipais — entre eles o Hospital Estadual de Luziânia e a Maternidade Dona Íris, em Goiás. A entidade recebeu, em junho de 2025, o Cebas (Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social) do Ministério da Saúde, e afirma atuar em fortalecimento do SUS.
Mas há uma sombra que exige registro — com o devido rigor. Segundo reportagem do portal Goiás24Horas, replicada pela Rondônia Dinâmica, a direção do Instituto Patris é relacionada a um grupo empresarial investigado pela Polícia Federal na saúde pública de Goiás e Mato Grosso. É fundamental a ressalva que a própria reportagem faz: as informações disponíveis não indicam que o próprio Instituto Patris seja formalmente investigado pela PF. O que se aponta é um vínculo da direção com integrantes investigados — não uma acusação contra a OSS em si.
Para dar contexto ao ambiente: a saúde pública de Goiás foi palco de uma série de operações contra OSS nos últimos anos — a Operação Pragas do Egito (MPF/PF/CGU) e a Operação Parasitas (Polícia Civil de Goiás), entre outras, que apuram desvio, superfaturamento e "planilhas de propina" em contratos de gestão hospitalar. Essas operações miram principalmente outra organização, o Instituto Brasileiro de Gestão Hospitalar (IBGH) — não o Patris. Mas elas compõem o pano de fundo de um setor, o das OSS de saúde, sob escrutínio crescente.
O que está em jogo
No centro de toda a novela está o essencial: um hospital que funciona, é referência e atende todo o sul de Rondônia — e que corre o risco de ter o atendimento comprometido por uma disputa que é, em boa medida, política. Flori Cordeiro apostou na terceirização e fez dela vitrine eleitoral; o modelo trouxe qualidade, mas também passivo e salários atrasados, com responsabilidade dividida entre município e Estado; o Governo, agora, tenta repassar a gestão a uma nova OSS por um rito emergencial que o Tribunal de Contas barrou.
A pergunta que a própria fiscalização coloca vale como fecho: se o Estado sabia da transição desde 2025, se o hospital funciona e é certificado, onde está a emergência em saúde que justifica trocar sua gestão em 36 minutos — e entregá-la a uma OSS cuja direção carrega questionamentos? Enquanto a resposta não vem, quem espera no corredor do hospital é o paciente do Cone Sul.
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