Poder & Bastidores

Fernando Cerimedo: detenção na Bolívia expõe rede de poder sem cargo público

Detido na Bolívia após atentado contra ex-parceira grávida, o consultor argentino que operou para Milei, Bolsonaro e Paz Pereira agora enfrenta acusações de feminicídio, enriquecimento ilícito e ligações com o narcotráfico

Fernando Cerimedo: detenção na Bolívia expõe rede de poder sem cargo público
📷 Reprodução Instagram
📋 Em resumo
  • Fernando Cerimedo, consultor político argentino de 45 anos, foi preso em 18 de agosto de 2026 no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), ao tentar embarcar para Buenos Aires
  • Ele é investigado como autor intelectual de uma tentativa de assassinato contra sua ex-parceira Nadia Beller, advogada boliviana grávida de quatro semanas, que sobreviveu a três disparos em um hotel
  • A Fiscalia boliviana pediu prisão preventiva de 180 dias e abriu segundo processo por enriquecimento ilícito, após allanamentos encontrarem dinheiro em espécie, veículo oficial e cartões de "asesor principal" do presidente Rodrigo Paz Pereira
  • Cerimedo foi estrategista digital da campanha de Javier Milei (2023), alegou atuação para Jair Bolsonaro (2022) e assessorou Paz Pereira na Bolívia e Nasry Asfura em Honduras
  • O jornalista espanhol Javier Negre, dono do portal La Derecha Diario, anunciou desvinculação total de Cerimedo, afirmando que um acordo foi fechado na sexta-feira anterior à prisão
  • Por que isso importa: O caso expõe como operadores políticos sem cargo público acumulam poder transnacional, influência sobre forças de segurança e acesso a recursos estatais — e como sua queda pode arrastar governos inteiros
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O consultor político argentino Fernando Cerimedo, de 45 anos, figura central na estratégia digital que elegeu Javier Milei na Argentina e assessorou presidentes de direita em pelo menos três países latino-americanos, foi preso em 18 de agosto de 2026 no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), ao tentar embarcar em um voo para Buenos Aires com uma bolsa cheia de dinheiro. A detenção ocorreu horas depois de sua ex-parceira, a advogada boliviana Nadia Beller — grávida de quatro semanas de uma criança dele —, sobreviver a um ataque a tiros na porta de um hotel por dois sicários vestidos de entregadores. Cerimedo é investigado como autor intelectual do crime e por enriquecimento ilícito, enquanto a Bolívia e a Argentina mergulham em uma crise política que questiona os limites entre assessoria, corrupção e poder paralelo.

Da noite de terror à prisão na pista de embarque

A sequência de eventos que levou à detenção de Cerimedo começou na noite de 17 de agosto de 2026, quando Nadia Beller foi abordada na entrada de um hotel em Santa Cruz de la Sierra por dois homens disfarçados de entregadores de delivery. Os atiradores dispararam múltiplas vezes. Beller, atingida por três projéteis, sobreviveu ao fingir morte. "Se não fingia minha morte, me iam rematar", declarou ela à imprensa boliviana desde o leito hospitalar.

Horas depois, na madrugada de 18 de agosto, a polícia boliviana deteve Cerimedo no aeroporto internacional de Viru Viru quando ele tentava embarcar em um voo da Aerolíneas Argentinas com destino a Buenos Aires. Segundo reconstrução policial, ele carregava uma bolsa cheia de dinheiro.

A Fiscalia de Santa Cruz, representada pela fiscal Yolanda Aguilera, formalizou um pedido de prisão preventiva por 180 dias. "Quando se apresenta uma imputação formal é porque o Ministério Público tem elementos suficientes para acreditar na probabilidade do fato: autoria", afirmou Aguilera. A defesa de Cerimedo, liderada pela advogada Margarita Arce, nega as acusações e sustenta que Beller teria armado um "autoatentado" para desestabilizar o governo de Paz Pereira.

Cerimedo foi encaminhado à prisão de Palmasola, um dos presídios mais temidos da Bolívia. Dois dias depois, a Fiscalia de La Paz abriu de ofício um segundo processo por enriquecimento ilícito, após allanamentos em residências do consultor revelarem dinheiro em espécie sem montante especificado, um veículo oficial e cartões de apresentação que o identificavam como "asesor principal" do presidente boliviano.

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Quem é Cerimedo: do poker em Porto Rico ao centro da nova direita

A trajetória de Fernando Cerimedo é um mapa da política digital latino-americana. Nascido em 1981 em Mar del Plata, Argentina, ele se formou em Marketing na Universidade de Porto Rico entre 2001 e 2006 — período em que, segundo registros online, participava ativamente de torneios de pôquer em diversas cidades da ilha.

De lá para cá, seu currículo se tornou um terreno pantanoso de afirmações e desmentidos. Ele alegou ter sido senior advisor na Casa Branca durante o governo Barack Obama, ter feito pós-graduação em Harvard — onde teria conhecido Eduardo Bolsonaro — e no MIT, além de ter treinado com os Navy Seals. Nenhuma dessas afirmações foi confirmada por registros públicos. Uma fonte próxima à campanha de Obama disse à Agência Pública que não reconhecia o nome de Cerimedo.

O que é verificável é que, em 2018, Cerimedo começou a atuar como professor de marketing digital na Digital House, em Buenos Aires, e registrou o domínio de La Derecha Diario. Em 2021, fundou a agência Numen Publicidad e se aproximou de Javier Milei, então um deputado libertário em ascensão. Em 2023, foi peça-chave na estratégia digital que levou Milei à presidência da Argentina — embora o próprio candidato, em determinado momento, o tenha afastado da fiscalização de votos.

"Hacemos campañas negativas... consiste en divulgar de manera incisiva información perjudicial sobre candidatos rivales."

Fernando Cerimedo, em entrevista ao jornal La Nación, durante a campanha de Milei em 2023.

Além da Argentina, Cerimedo alegou atuação na campanha de Jair Bolsonaro em 2022 — quando organizou a transmissão ao vivo "Brasil foi roubado", questionando a vitória de Lula —, na campanha vitoriosa de Nasry Asfura em Honduras em 2025 e, mais recentemente, como assessor de comunicação digital do presidente Rodrigo Paz Pereira na Bolívia, eleito em 2025 após duas décadas de governos de esquerda.

A ruptura com Milei e o escândalo que antecedeu a queda

A relação de Cerimedo com o governo argentino começou a se deteriorar em 2025. O primeiro rompimento público ocorreu com o escândalo da criptomoeda $LIBRA, quando Cerimedo questionou o governo Milei nas redes sociais. Mas a ruptura definitiva veio com o vazamento de áudios de Diego Spagnuolo, então chefe da ANDIS (Agência Nacional de Discapacidade), que expuseram supostos desvios na compra de medicamentos.

Spagnuolo acusou Cerimedo de tê-lo gravado sem consentimento e repassado o material ao empresário de mídia Franco Bindi para divulgação. Cerimedo negou, mas admitiu ter conversado com Spagnuolo sobre irregularidades na ANDIS. Em setembro de 2025, Cerimedo testemunhou em juízo que Spagnuolo lhe dissera que havia informado o presidente Milei sobre os desvios e que o mandatário "se irritara" e determinara que a ministra Sandra Pettovello fosse notificada.

Desde o leito hospitalar na Bolívia, Nadia Beller foi além. Ela afirmou que Cerimedo lhe confidenciara os motivos do vazamento: "Fernando me disse que a irmã de Milei estava envolvida em corrupção" e que ele próprio havia vazado as mensagens "para que não houvesse impunidade". Segundo Beller, Cerimedo se afastou de Milei porque a cúpula presidencial estava "podre demais", enquanto seu vínculo mais próximo no governo argentino permanecia com a ministra da Segurança, Patricia Bullrich.

La Derecha Diario se desvincula: o timing do acordo

Enquanto Cerimedo estava atrás das grades em Palmasola, o jornalista espanhol Javier Negre, dono do portal La Derecha Diario, correu para se desvincular publicamente do consultor. Em entrevista ao programa de Eduardo Feinann na Rádio Mitre, Negre afirmou que havia fechado na sexta-feira anterior — 14 de agosto — um acordo de "desvinculação total" de Cerimedo do portal e de sua pessoa. "Fernando, desde a semana passada, chegou a um acordo privado de desvinculação total de La Derecha Diario e de minha pessoa", declarou.

Negre sustentou que pedira a Cerimedo que deixasse o veículo porque "não tinha incidência direta nem na gestão, nem no management, nem em cargos diretivos". Ele também negou que o portal utilizasse as "granjas de bots" encontradas nos allanamentos à casa de Cerimedo na Bolívia, assegurando que o tráfego do site é "completamente orgânico".

O comunicado oficial de La Derecha Diario, publicado nas redes sociais, reforçou que Cerimedo "não é proprietário deste meio, não participou de sua fundação nem exerce sua direção". O texto reconheceu, no entanto, que Cerimedo se incorporou como "investidor estratégico" em meados de 2021, com participação de "caráter estritamente patrimonial", e que, desde 2024, quando Negre adquiriu o portal, reduziu sua participação.

Nadia Beller, por sua vez, também havia contribuído para o desenlace: "Eu sabia que Fernando havia vendido suas ações como parte do processo de liquidar suas empresas para levar adiante seu processo de divórcio", explicou.

"La Derecha Diario es ajena a cualquier actividad que pudiese estar desarrollando en Bolivia o en otros países y no tiene ninguna relación con el caso que se investiga."

— Comunicado oficial do portal La Derecha Diario, 24 de agosto de 2026.

As acusações de Beller: corrupção, polícia sob comando e "crime de Estado"

As declarações de Nadia Beller desde o hospital elevaram o caso de um atentado passiona a uma crise de Estado. Ela afirmou que foi ao hotel a pedido de Cerimedo, que lhe prometera entregar informação prejudicial sobre o ex-presidente boliviano Evo Morales. No local, foi emboscada.

Beller foi além: acusou Cerimedo de receber dinheiro sujo do governo Paz e lavá-lo na Argentina, manuseando "caixas cheias de notas". Ela também afirmou que Cerimedo dirigia a polícia boliviana desde as sombras e que havia uma "esquadrão de elite" da polícia operando sob suas ordens perto do hotel onde ela foi atacada. "A Bolívia não é governada por Rodrigo Paz, mas por Fernando Cerimedo. Eles vão encobri-lo absolutamente", denunciou.

Ela também disse que o governo boliviano é "o principal interessado" em calá-la e assegurou ter provas de negócios irregulares de Paz e sua família. Em entrevista ao portal boliviano DTV, Beller classificou o atentado não como um crime passional, mas como um "crime de Estado".

O vice-presidente boliviano, Edman Lara, que mantém uma disputa aberta com Paz, exigiu explicações sobre como Cerimedo chegou à Bolívia. "O senhor Fernando Cerimedo deve submeter-se a um julgamento sem privilégios, mesmo sendo o principal assessor de Rodrigo Paz", afirmou Lara, acrescentando que Cerimedo "teve poder e decidiu no governo".

O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, tentou conter os estragos ao afirmar que Cerimedo era apenas um "cooperante em função de assessoria" e que o Estado não lhe pagava. Sobre os cartões de "asesor principal", Gálvez disse que o cargo "não existe" e que os cartões não foram emitidos pelo Estado.

O eco regional: de Sheinbaum a Morales

O caso Cerimedo transcendeu as fronteiras boliviano-argentinas. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, apontou o consultor como parte de "redes da direita internacional que buscam influir em todos os países" e o associou ao espanhol Javier Negre como difusor de "mentiras e ofensas nas redes".

Evo Morales, por sua vez, definiu Cerimedo como "agente do império". A BBC Mundo destacou que o caso permite observar "algo que vai além de sua figura pessoal: como mudaram as campanhas digitais na América Latina". A pesquisadora argentina Natalia Aruguete, especialista em comunicação política, ressaltou que Cerimedo "levou essa lógica de uma campanha a outra e de um país a outro".

Antecedentes e contexto

Para entender a dimensão do caso Cerimedo, é preciso compreender o modelo político que ele personifica: o do consultor-transnacional que não precisa de cargo público para exercer poder público. Diferente dos operadores tradicionais, que atuavam dentro das estruturas partidárias e estatais de um único país, Cerimedo e seus pares — como o colombiano Abelardo de la Espriella ou o próprio Santiago Caputo na Argentina — constroem uma arquitetura de influência baseada em três pilares: acesso direto a presidentes, domínio de infraestrutura digital (trolls, bots, algoritmos) e circulação de narrativas entre países.

Esse modelo encontrou terreno fértil na América Latina pós-2018. A ascensão de Jair Bolsonaro no Brasil, Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e, mais recentemente, Rodrigo Paz Pereira na Bolívia e Nasry Asfura em Honduras, coincidiu com a profissionalização de estratégias digitais importadas do universo MAGA (Make America Great Again) de Donald Trump. Cerimedo, que chegou a ser apresentado pela revista The Economist como "o homem MAGA na América Latina", foi um dos principais articuladores dessa circulação.

O problema é que esse modelo opera fora dos controles institucionais. Sem cargo formal, sem registro em organogramas, sem prestação de contas, o consultor-transnacional acumula funções incompatíveis: estrategista, lobista, empresário de mídia e, segundo as acusações de Beller, operador de esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro. Como observou o especialista boliviano Carlos Saavedra em entrevista ao portal Animal Político: "Um assessor não pode ser ao mesmo tempo militante, lobista, empresário e político. Esses papéis são incompatíveis com a assessoria. Quando esses limites se cruzam, sempre há complicações".

O antecedente criminal de Cerimedo — uma condenação em 2016 por vender o mesmo apartamento em Mar del Plata para duas pessoas diferentes, com pena de 30 meses de prisão suspensa — já sinalizava um padrão de comportamento que mistura impunidade e oportunismo. Seus negócios anteriores acumulavam dívidas de 80 milhões de pesos e cheques sem fundo de mais de 300 milhões, segundo o Banco Central argentino.

A investigação do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 também identificou Cerimedo como parte do "núcleo da desinformação e dos ataques ao sistema eleitoral", embora nunca tenha sido formalmente acusado. Em julho de 2026, ele participou de uma transmissão digital com Eduardo Bolsonaro em que, novamente, levantou dúvidas infundadas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras.

A prisão de Fernando Cerimedo não é apenas a queda de um consultor argentino acusado de tentar matar sua ex-parceira. É o colapso de um modelo político que, durante anos, funcionou sob a premissa de que a influência digital podia substituir a accountability institucional. Cerimedo não governou nenhum país, mas esteve perto o suficiente de quem governava para que sua queda arraste governos inteiros.

A pergunta que a Bolívia, a Argentina e o restante da América Latina precisam responder não é se Cerimedo é culpado — isso caberá à Justiça. A pergunta é: como um homem sem cargo público, com antecedentes criminais, afirmações acadêmicas não verificadas e investigações em múltiplos países, chegou a acumular tanto poder? E, mais importante: quantos Cerimedos ainda circulam entre ministérios, palácios e aeroportos, com cartões de "asesor principal" que não constam de nenhum organograma, esperando que a próxima crise os exponha?

Se a nova direita latino-americana quer sobreviver à era pós-Cerimedo, precisará aprender que operadores de sombras podem ser úteis em campanhas, mas se tornam explosivos em governos. E que, no final, não são os algoritmos que julgam — são os tribunais.


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