Eleições 2026

Flávio Bolsonaro fala ao NYT sobre a fuga: “Vou levar isso para o túmulo”

Em entrevista exclusiva ao New York Times, senador reafirma acusações de fraude sem provas e mantém sigilo sobre fuga que documentos e fontes americanas atribuem à Casa Branca

Flávio Bolsonaro fala ao NYT sobre a fuga: “Vou levar isso para o túmulo”
📷 Scott McIntyre - NYT
📋 Em resumo ▾
  • Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu sua primeira entrevista desde que deixou o Brasil, ao New York Times, em Miami.
  • Disse ter fugido “sozinho, sem ajuda de nenhum governo” — mas o jornal aponta que o avião foi articulado por um funcionário da Casa Branca e que sua entrada nos EUA foi autorizada diretamente por Donald Trump.
  • Ampliou as acusações de fraude na eleição que perdeu para Lula, sem apresentar provas novas, repetindo teses já rejeitadas pela Justiça Eleitoral.
  • Não foi formalmente acusado de crime até o momento; perde o foro privilegiado quando o mandato de senador terminar, em 2027.
  • Por que isso importa: o episódio aprofunda a tensão entre Brasília e Washington e redefine, a partir da Flórida, o futuro político da família Bolsonaro
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Em entrevista de 75 minutos ao New York Times, publicada nesta quinta-feira (5) a partir de Miami, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu sua primeira declaração pública desde que deixou o Brasil, driblando uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinava a entrega de seus passaportes. À repórter Ana Ionova, ele negou qualquer ajuda de governos na operação: “Fui eu. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, disse. Sobre como exatamente saiu do país, foi categórico: “vou levar isso para o túmulo comigo.”

O que Flávio diz ter feito sozinho

Segundo o relato que deu ao jornal, a decisão de deixar o Brasil foi tomada de forma espontânea, na manhã seguinte à derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, enquanto saía da casa onde o pai está em prisão domiciliar. Ele diz ter combinado a fuga com a esposa, Fernanda, e nega qualquer plano prévio com terceiros — admitindo apenas que “pode ter havido torcida” de amigos no exterior, “mas nada além disso”.

A viagem, de cerca de 8 mil quilômetros, passou por Argentina e Equador antes de terminar em Miami.

Avião da Casa Branca e aval de Trump

“Vou levar isso para o túmulo comigo.”

É aqui que a reportagem do NYT se contrapõe diretamente à versão do senador. Segundo o jornal, que cita autoridades americanas, o jato que levou Flávio aos Estados Unidos foi articulado por um funcionário da própria Casa Branca, e sua entrada no país foi autorizada pessoalmente pelo presidente Donald Trump. A reportagem acrescenta que, na passagem pela Argentina, Flávio foi recebido no aeroporto por um assessor de primeiro escalão do governo argentino — outro detalhe que a matéria classifica como “obscuro” na versão oficial do senador.

A informação está atribuída pelo NYT a autoridades americanas não identificadas — tratamento que o próprio jornal adota como “segundo funcionários dos EUA”. Fica registrado como apuração do veículo, não como fato confirmado por fonte oficial nomeada.

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Fraude eleitoral: acusações sem provas novas

Até aqui, as queixas de Flávio sobre o processo eleitoral se concentravam na prorrogação do horário de votação em algumas regiões — mudança que, segundo o NYT apurou, havia sido pedida pelos dois candidatos por causa de chuva forte e atrasos de ônibus, e que a Justiça Eleitoral brasileira considerou incapaz de alterar o resultado: afetou cerca de 34 mil votos, numa eleição que Lula venceu por 4,4 milhões.

Na entrevista, porém, o senador ampliou o discurso, falando em suposta violação de segurança na sala-cofre onde ficam os computadores de totalização dos votos — alegação que não apresentou provas para sustentar e que ecoa teorias já descartadas que o pai, Jair Bolsonaro, difundiu sobre as urnas eletrônicas, sistema que especialistas internacionais classificam como um dos mais seguros do mundo. Questionado diretamente sobre a base dessas suspeitas, respondeu: “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado.”

É importante marcar: trata-se de alegação do próprio Flávio, feita em entrevista — não de conclusão de perícia, auditoria ou decisão judicial. O Tribunal Superior Eleitoral já rejeitou contestações da campanha nesse sentido, e observadores internacionais independentes certificaram a integridade do pleito, segundo o NYT.

“Você já sabe aonde isso vai dar”: a despedida do pai

O senador também descreveu a conversa que teve com Jair Bolsonaro — condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e atualmente em prisão domiciliar em Brasília — horas antes de deixar o país. Segundo Flávio, o pai, com os olhos marejados, teria dito: “Você já sabe aonde eles vão com isso, né?” Ao que respondeu: “Pai, eu já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer.” Nenhum dos dois, segundo seu relato, falou abertamente em deixar o Brasil naquele momento.

Horas depois, Flávio publicou um vídeo nas redes dizendo que entregaria os documentos como determinado pela Justiça. Reapareceu em Miami cerca de 42 horas mais tarde.

Sem acusação formal — por enquanto

O senador responde a investigações por suposta lavagem de dinheiro e corrupção no Brasil, mas, segundo a reportagem, não foi formalmente denunciado em nenhuma delas até o momento. O senador responde a dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal relacionados a suposta lavagem de dinheiro e corrupção, mas, não foi formalmente denunciado em nenhum deles até o momento. Ele próprio reconheceu, na entrevista, acreditar que será preso: “Já sei que o desfecho final vai ser minha prisão.” É declaração do próprio senador sobre expectativa pessoal — não uma condenação ou decisão judicial.

Enquanto o mandato de senador não terminar, em fevereiro de 2027, Flávio mantém foro privilegiado. Depois disso, segundo o NYT, poderá ser processado nas instâncias comuns.

Flórida como base, e a porta aberta para o futuro

A família recebeu dos EUA um status migratório humanitário válido por um ano. Flávio disse ainda não saber onde vai se fixar — o irmão, Eduardo Bolsonaro, condenado no Brasil por pressionar o governo Trump a interferir no julgamento do pai, vive no Texas e recentemente obteve green card. Segundo o jornal, foi Paulo Figueiredo, aliado da família, quem passou a defender a Flórida como base mais natural depois que um candidato democrata venceu o governo do Texas nas eleições de meio de mandato desta semana nos EUA.

Do exterior, Flávio diz que vai tentar contestar judicialmente a vitória de Lula — embora reconheça ter poucas chances — e pretende articular, à distância, pautas como redução da maioridade penal e anistia ao pai e aos réus do 8 de janeiro. Evitou responder se pretende fazer lobby junto ao governo americano por novas sanções ou tarifas contra o Brasil. E não descartou nova candidatura: “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato de novo.”

A entrevista ao NYT devia ser, para os aliados de Flávio, a reafirmação de uma narrativa de perseguição política. Acabou sendo o oposto: um retrato em que cada alegação do senador vem seguida, parágrafo a parágrafo, do fato que a desmente ou a contextualiza. Não houve bombástica — só o desconforto, mais eficaz a longo prazo, de ver a própria versão dos fatos posta lado a lado com a apuração alheia.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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