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Forbes Brasil: Por que a CVM mostra vínculo com o Banco Master?

Registros da CVM apontam fundo ligado ao Banco Master como sócio da FRBS Participações. Empresa nega e diz desconhecer documentos da autarquia

Forbes Brasil: Por que a CVM mostra vínculo com o Banco Master?
📷 Times Brasil
📋 Em resumo
  • Sócio Oculto: Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o fundo Eagle Eye Investments detém participação de R$ 113,7 milhões na FRBS Participações, dona da Forbes Brasil.
  • Teia de Fundos: O Eagle Eye é um dos mais de 30 fundos da carteira do Astralo 95, alvo da Operação Compliance Zero da Polícia Federal (PF).
  • Reag no Centro: O Eagle Eye era administrado pela Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026 e investigada por lavagem de dinheiro para o PCC.
  • Estrutura Frozen: PF identificou que fundos com nomes de personagens do desenho "Frozen" (Olaf, Hans, Sven, Anna) compunham a engenharia financeira do esquema.
  • Por que isso importa: A contradição entre os registros da CVM e a negativa da Forbes expõe a fragilidade da governança corporativa e a opacidade do mercado de fundos de investimento no Brasil.
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A Forbes Brasil aparece nos registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como ativo principal de um fundo de investimento ligado ao escândalo do Banco Master. A revelação, feita pela reportagem da Times Brasil e confirmada pela Folha de S.Paulo, expõe uma teia societária que conecta a publicação — símbolo do jornalismo de negócios no país — a uma engrenagem financeira investigada pela Polícia Federal (PF) por lavagem de dinheiro e fraude bilionária.

A dona da marca Forbes no Brasil, a FRBS Participações S.A., figura como o principal ativo do fundo Eagle Eye Investments, que detém participação de R$ 113,7 milhões na empresa. Até 2025, esse valor correspondia a mais de 90% do patrimônio líquido do fundo. O problema é que o Eagle Eye não é um fundo qualquer: ele é um dos mais de 30 veículos que compõem a carteira do Astralo 95, centro das investigações da Operação Compliance Zero.

A engenharia financeira da "Estrutura Frozen"

O Eagle Eye Investments era administrado pela Reag Investimentos, gestora que foi liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026 e é investigada pela PF na Operação Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

De acordo com as investigações, a Reag era parte de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo fundos e o Banco Master. A estrutura da gestora era utilizada para criar e gerir fundos de investimento fechados, com múltiplas camadas societárias que serviam para mascarar os verdadeiros beneficiários finais e reinjetar dinheiro de origem ilícita no sistema financeiro legal.

Os advogados do liquidante do Banco Master identificaram o Astralo 95 como parte da chamada "estrutura Frozen" — um conjunto de fundos cujos veículos no topo da cadeia possuem nomes que fazem referência a personagens do desenho animado "Frozen", da Disney, como Olaf, Hans, Sven e Anna. A escolha dos nomes, aparentemente inocente, servia para criar uma cortina de fumaça sobre a origem dos recursos.

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"Quando fundos de investimento recebem nomes de personagens de desenho animado para ocultar bilhões em lavagem de dinheiro, a fantasia deixa de ser infantil e se torna criminosa."

O dinheiro que ia e voltava para o Master

A engenharia financeira identificada pela PF era simples em sua essência, mas sofisticada em sua execução. O dinheiro era pulverizado entre diversos fundos — entre eles o Astralo 95, cotista único do Eagle Eye, sócio oculto da Forbes Brasil — e aplicado em Certificados de Depósito Bancários (CDBs) do Banco Master poucas horas depois.

O ciclo se fechava: recursos de origem suspeita passavam pela Reag, eram distribuídos entre fundos com nomes de personagens da Disney, e retornavam ao Banco Master na forma de investimentos em CDBs. A Forbes Brasil, sem saber ou sem querer saber, era apenas mais um ativo na carteira dessa engrenagem.

A contradição: CVM versus Junta Comercial

A versão oficial da FRBS Participações é de que os únicos sócios da Forbes Brasil são Antonio Camarotti e Katarina Camarotti, pai e filha. Ambos detêm, em conjunto, 100% das ações da empresa, segundo documentos da Junta Comercial de São Paulo. Não há menção ao fundo Eagle Eye nesses documentos.

Procurada pela Folha de S.Paulo, Katarina Camarotti, diretora-executiva da Forbes Brasil, afirmou que a empresa desconhece os documentos registrados na CVM e nega qualquer vínculo societário com Daniel Vorcaro e suas empresas.

"Não temos conhecimento do porquê isso aconteceu. O que posso afirmar novamente é que isso que foi reportado está errado, pois esse fundo não é nem nunca foi acionista/sócio da FRBS/Forbes BR", afirmou em nota.

A negativa, no entanto, não explica a contradição entre os registros da CVM — autarquia federal responsável pela fiscalização do mercado de capitais — e os documentos da Junta Comercial. Se o fundo não é sócio, por que a CVM registra uma participação de R$ 113,7 milhões? Se os documentos da autarquia estão incorretos, como a FRBS Participações não percebeu que seu nome figurava como ativo principal de um fundo investigado pela Polícia Federal?

A CPI do Crime Organizado e a Reag

O caso já chegou ao Congresso Nacional. O presidente da CPI do Crime Organizado no Senado, Fabiano Contarato (PT-ES), protocolou em fevereiro pedidos de quebra de sigilo contra a gestora Reag e seu fundador, João Carlos Mansur, no âmbito das apurações sobre suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master e possíveis vínculos com o PCC.

Os requerimentos incluem acesso a dados bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos do empresário e da Reag. O senador também solicitou que o Banco Central envie à comissão a íntegra do processo administrativo que resultou na liquidação extrajudicial do Master e defendeu a convocação de Mansur para prestar depoimento.

"A CPI do Crime Organizado cumpre uma função constitucional de investigar e fiscalizar a atuação de organizações criminosas que se utilizam do sistema financeiro nacional. Não podemos nos omitir diante desse escândalo que continua nos surpreendendo e horrorizando pela gravidade dos fatos revelados", afirmou Contarato à Times Brasil.

As investigações no Congresso podem levar até as ramificações que conectam os investimentos da Reag a outros fundos e, consequentemente, a empresas conhecidas no mercado — como a Forbes Brasil.

Cenário: A opacidade dos fundos de investimento

O que o caso da Forbes Brasil revela não é apenas um episódio isolado de má governança corporativa, mas a opacidade estrutural do mercado de fundos de investimento no Brasil. A multiplicidade de camadas societárias, a pulverização de recursos entre dezenas de veículos e a ausência de fiscalização efetiva sobre a origem dos capitais criam um ambiente propício para a lavagem de dinheiro.

A Reag operava com a naturalidade de quem sabe que o sistema é leniente. Os fundos com nomes de personagens da Disney não eram uma piada de mau gosto, mas uma estratégia deliberada para confundir investigadores e jornalistas. A Forbes Brasil, mesmo que involuntariamente, tornou-se parte dessa engrenagem.

Resta saber se a CVM vai apurar a inconsistência entre seus próprios registros e a versão da empresa, ou se o caso vai se perder nas entrelinhas de uma investigação que já tem nomes maiores para perseguir — como Daniel Vorcaro, João Carlos Mansur e os operadores do PCC. A resposta a essa pergunta definirá se o mercado de capitais brasileiro é regulado por leis ou pela boa-fé de quem registra documentos.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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