Fraude Naskar: sócios transferiram empresa para avó de 77 anos
Esquema de R$ 900 milhões usou laranja de 25 anos e cláusulas de blindagem para simular venda a gestora americana antes do colapso
📋 Em resumo ▾
- Polícia Civil do DF prendeu os três sócios da Naskar Gestão de Ativos em São Paulo.
- Empresa simulou venda por R$ 1,2 bilhão a um jovem de 25 anos, que depois repassou as quotas à avó de 77 anos.
- Cláusulas de impenhorabilidade e um e-mail corporativo ligam a "nova gestão" aos fundadores originais.
- Por que isso importa: A sofisticação da blindagem patrimonial expõe falhas graves na regulação de fintechs e o risco contínuo de vazamento de dados dos investidores.
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) prendeu nesta quarta-feira (22), em São Paulo, os três sócios da Naskar Gestão de Ativos. O trio é investigado por uma fraude que causou prejuízo superior a R$ 900 milhões a cerca de 3 mil investidores. As investigações revelaram um elaborado esquema de simulação societária para blindar patrimônio após o colapso da empresa.
A farsa da "gestora americana" e o laranja de 25 anos
Após retirar o aplicativo do ar e romper a comunicação com os clientes em maio, a Naskar divulgou um comunicado alegando ter sido vendida por R$ 1,2 bilhão para uma suposta gestora norte-americana chamada Azara.
Os registros oficiais da Junta Comercial de São Paulo, contudo, mostram outra realidade. O comprador formal foi Douglas Silva de Oliveira, de 25 anos. Documentos do processo indicam que ele declarava renda mensal de R$ 1,8 mil e possuía histórico de ações judiciais, incluindo despejo e processos por estelionato. Meses antes do colapso da fintech, Douglas alterou oficialmente seu sobrenome para "Azara".
A blindagem patrimonial e a avó de 77 anos
A simulação tornou-se ainda mais complexa em 28 de maio, quando Douglas transferiu 100% das quotas da Naskar para sua avó materna, Célia de Fátima Ferreira, de 77 anos, viúva e moradora de Uberlândia.
A transferência não foi comum. Os documentos registram que as quotas foram repassadas com cláusulas de impenhorabilidade, incomunicabilidade e inalienabilidade. Esses mecanismos jurídicos são utilizados para dificultar constrições patrimoniais e proteger bens contra credores.
Um detalhe crucial enfraqueceu a narrativa de independência da "nova gestão". O formulário de alteração societária assinado pela nova proprietária traz como e-mail de contato o endereço diretoria@7trust.com.br. A 7Trust pertence justamente ao grupo controlado pelos antigos sócios da Naskar, agora presos.
"O uso de cláusulas de impenhorabilidade e um e-mail corporativo ligado aos fundadores originais expõe a tentativa deliberada de blindar o patrimônio contra os credores."
Histórico de dívidas e vida de ostentação
A aquisição levanta dúvidas severas sobre a capacidade financeira da família. Documentos judiciais mostram que, desde 2022, familiares de Douglas acumulavam execuções bancárias superiores a R$ 1 milhão. Em 2023, o próprio Douglas respondeu a uma ação de despejo por falta de pagamento de aluguel em Brasília.
Pouco tempo depois, no mesmo endereço, passaram a funcionar empresas da família que declaravam capital bilionário e se apresentavam como instituições de pagamento, apesar de não possuírem autorização do Banco Central.
Esse histórico contrasta frontalmente com o estilo de vida ostensivo do jovem. Poucos dias antes da operação policial, Douglas publicava nas redes sociais imagens em festas de luxo na costa brasileira, ao lado de empresários do setor de apostas. Conforme revelado por investigações recentes, ele estaria atualmente em Dubai.
O risco contínuo e o vazamento de dados
Enquanto isso, milhares de investidores continuam sem receber os valores aplicados. Quem procura a empresa é direcionado para um atendimento automatizado no WhatsApp identificado como Azara Capital LLC.
O canal solicita CPF, dados bancários e informações pessoais sob a promessa de futuros pagamentos. Especialistas avaliam que o procedimento representa riscos severos aos investidores, inclusive sob a ótica da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), já que os ressarcimentos prometidos não foram efetivados e os dados podem ser utilizados para novas fraudes.
A arquitetura da impunidade financeira
O caso da Naskar Gestão de Ativos transcende o estelionato comum. Ele ilustra uma arquitetura de fraude moderna, onde a ficção jurídica é usada como escudo. A transferência de uma empresa bilionária para uma senhora de 77 anos, protegida por cláusulas de inalienabilidade e gerenciada por um e-mail dos próprios investigados, é um manual de como burlar a responsabilidade civil.
A facilidade com que empresas sem autorização do Banco Central operam, captam bilhões e desaparecem atrás de laranjas com histórico de inadimplência expõe uma lacuna regulatória perigosa.
Resta uma reflexão socrática para o sistema de justiça: se a estrutura legal permite que uma dívida de R$ 900 milhões seja "herdada" por uma avó de 77 anos enquanto os beneficiários reais ostentam em Dubai, quem de fato está sendo protegido pela lei? A recuperação dos ativos dependerá não apenas da prisão dos sócios, mas da capacidade do Judiciário de desconsiderar essa fachada societária e atingir o núcleo do patrimônio oculto.
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