Naskar fraude: advogado de Bolsonaro assume defesa de ex-sócios presos
Celso Vilardi entra com habeas corpus no STJ para três executivos presos em operação da PCDF que apura desvio de até R$ 1 bilhão de 3 mil investidores, enquanto o suposto controlador foragido permanece em Dubai
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- O advogado Celso Vilardi, representante de Jair Bolsonaro, assumiu a defesa dos três ex-sócios da fintech Naskar Gestão de Ativos
- Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato foram presos em 22 de julho de 2026 pela Polícia Civil do DF em operação que apura prejuízo de R$ 900 milhões a R$ 1 bilhão
- Vilardi protocolou habeas corpus no STJ, distribuído ao ministro Carlos Pires Brandão da Sexta Turma; não há data para julgamento
- A fintech prometia 2% ao mês de rendimento, operou por 13 anos e parou pagamentos em maio de 2026
- O empresário Douglas Silva de Oliveira Azara, 26 anos, apontado como controlador, está foragido em Dubai desde 15 de julho; a empresa foi transferida para o nome de sua avó, de 77 anos, com Alzheimer
- Por que isso importa: O caso expõe como promessas de retorno acima do mercado, combinadas à ausência de fiscalização efetiva, podem sustentar esquemas por mais de uma década antes de colapsar — e como a fuga para paraísos jurídicos dificulta a recuperação de recursos de milhares de investidores
O advogado Celso Vilardi, conhecido por representar o ex-presidente Jair Bolsonaro em processos judiciais, assumiu a defesa dos três ex-sócios da fintech Naskar Gestão de Ativos presos em julho de 2026 sob acusação de liderar um esquema que teria causado prejuízo de R$ 900 milhões a R$ 1 bilhão a mais de 3 mil investidores. Na última semana, Vilardi protocolou um pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ), distribuído ao ministro Carlos Pires Brandão, da Sexta Turma, enquanto o suposto controlador da empresa, Douglas Silva de Oliveira Azara, permanece foragido nos Emirados Árabes Unidos.
Quem são os presos e como a operação se desenrolou em 22 de julho
Os três ex-sócios presos pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) em 22 de julho de 2026 são Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato — este último conhecido como Maurício Jahu, ex-jogador e ex-apresentador de televisão. A operação, conduzida pela Divisão de Falsificação e Defraudações (Difraudes), representou o primeiro grande desdobramento judicial do caso Naskar após o colapso dos pagamentos em maio.
Os investigados foram conduzidos para a sede da PCDF e, segundo o delegado Henry Galdino, diretor da Difraudes, permaneceram em silêncio durante os interrogatórios. "Seria interessante se eles explicassem como tudo foi feito, mas como eles ficaram em silêncio, a gente vai ter que contar com os outros elementos de prova, como as apreensões de celulares e documentos contábeis", afirmou Galdino em entrevista ao portal Metrópoles.
O delegado apontou Rogério Vieira como a figura de maior influência entre os três presos. "Até porque ele era o que tinha mais influência sobre o grupo, pois tem conhecimento maior do assunto", observou Galdino.
A estratégia de defesa: de Bolsonaro à Naskar
A entrada de Celso Vilardi no caso representa uma mudança significativa na estratégia dos investigados. Além de ser o advogado de Jair Bolsonaro em processos no Supremo Tribunal Federal (STF), Vilardi acumula experiência em defesas de alto perfil: atuou para o empresário Eike Batista, para o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares no processo do Mensalão e para a empreiteira Andrade Gutierrez em ações relacionadas à Operação Lava Jato.
O pedido de habeas corpus protocolado no STJ foi distribuído ao ministro Carlos Pires Brandão, da Sexta Turma, responsável por decisões em matéria penal e processual. Até o momento, não há data definida para o julgamento. A escolha do STJ como instância recursal, em vez de tribunais locais, pode indicar uma estratégia de buscar decisão em instância superior, aproveitando a complexidade jurídica do caso e a ausência de decisões consolidadas sobre o tema em instâncias inferiores.
"Não existe almoço grátis, não existe milagre. Se te prometem o dobro da média (de ganhos) do mercado, você precisa desconfiar."
— Henry Galdino, delegado da PCDF e diretor da Difraudes, em entrevista ao Metrópoles.
Como a Naskar funcionava: 13 anos de promessas de 2% ao mês
A Naskar Gestão de Ativos operava como uma fintech de gestão de recursos com uma proposta simples e sedutora: captava investimentos de clientes com a promessa de rendimento mensal de 2% — percentual expressivamente superior ao praticado pelo mercado tradicional. Para um investidor que aplicasse R$ 1 milhão, a empresa se comprometia a pagar R$ 20 mil mensais, além de administrar o patrimônio.
A empresa funcionou por cerca de 13 anos sem que clientes relatassem problemas significativos — um período longo o suficiente para construir reputação e atrair novos investidores por indicação. A estrutura, com sede anterior no Distrito Federal e atuação mais recente em São Paulo, parecia consolidada até que, em 4 de maio de 2026, o pagamento mensal de rendimentos não foi realizado.
Os clientes tentaram contato com os sócios, mas não obtiveram resposta. Em 6 de maio, o aplicativo da instituição deixou de funcionar e não voltou ao ar. Cinco dias depois, a Naskar anunciou que havia sido comprada pela suposta empresa norte-americana Azara Capital por R$ 1,2 bilhão, com promessa de ressarcimento a partir de 18 de maio. Nada disso ocorreu.
O planejamento do colapso e a fuga para Dubai
As investigações da PCDF apontam que o "sumiço do dinheiro" não foi improvisado. O delegado Henry Galdino afirmou que o planejamento para a paralisação repentina dos pagamentos ocorreu há, pelo menos, um ano. "O que dá para afirmar é que a paralisação repentina foi planejada, não foi um mero desacordo comercial entre os clientes e a Naskar", declarou.
No centro da investigação está Douglas Silva de Oliveira Azara, de 26 anos, apontado como personagem central do esquema. Ele anunciou a compra da Naskar e, segundo a PCDF, transferiu a empresa para o nome de sua avó, Célia Fátima Ferreira, de 77 anos, diagnosticada com Alzheimer.
Douglas deixou o Brasil em 15 de julho de 2026, após ter a prisão preventiva decretada pela Justiça de Minas Gerais em outra investigação. Nesse caso, ele é suspeito de liderar esquema de desvio de aproximadamente R$ 60 milhões da Zema Financeira, empresa ligada à família do ex-governador Romeu Zema. A investigação mineira identificou oito suspeitos; seis já foram presos. Além de Douglas, permanecem foragidos Alex Sander Gomes Junior e Thays de Alvarenga Cardoso da Silva.
Sobre a possível participação de Douglas no esquema da Naskar, o delegado Galdino afirmou que, na fase atual das investigações, ainda não foram encontrados elementos suficientes que comprovem seu envolvimento.
Os investidores: entre a espera e a incerteza
Enquanto as investigações prosseguem, os clientes da Naskar seguem sem acesso aos valores aplicados. A investigação da PCDF reuniu relatos de investidores que afirmam ter perdido aplicações milionárias, incluindo aportes de R$ 3,9 milhões, R$ 2,3 milhões e R$ 1 milhão, todos de moradores do Distrito Federal. Também há casos de pessoas que indicaram novos investidores à empresa e dizem ter sido diretamente impactadas pelo suposto prejuízo coletivo.
O delegado Galdino afirmou que a polícia bloqueou bens dos investigados, mas ainda não é possível calcular se o valor será suficiente para ressarcir parte dos prejuízos. "A gente está fazendo todo o possível para recuperar pelo menos parte do dinheiro e amenizar o sofrimento das pessoas", garantiu.
"A gente bloqueou muita coisa, e continuamos atrás do restante do dinheiro e de outros bens."
— Henry Galdino, delegado da PCDF.
Contexto e antecedentes
A história da Naskar não é isolada no panorama brasileiro de fraudes financeiras, mas apresenta características que a tornam particularmente reveladora sobre falhas de supervisão e comportamento do investidor. A promessa de 2% ao mês — equivalente a uma taxa anual composta de aproximadamente 26,8% — é consistentemente superior ao retorno de qualquer ativo de renda fixa regulamentado no mercado brasileiro. No entanto, a empresa operou por 13 anos sem que órgãos de fiscalização como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou o Banco Central intervissem de forma efetiva.
O caso ressoa com episódios anteriores de grandes fraude financeiras no Brasil — do Banco Banespa às pirâmides de São Caetano do Sul nos anos 1990, passando pelo mais recente colapso da Fintech Ignis e de outras plataformas de criptoativos. O que une esses casos é a combinação de três elementos: retornos prometidos acima da média do mercado, ausência de regulamentação clara sobre a natureza da atividade e confiança construída ao longo de anos, que funciona como uma forma de "prova social" que atrai novos investidores.
A fuga de Douglas Azara para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, acrescenta uma camada de complexidade jurídica. Os EAU não possuem tratado de extradição com o Brasil, o que dificulta a repatriação do investigado. A estratégia de transferir a empresa para o nome de uma idosa com Alzheimer também indica planejamento para dificultar a responsabilização civil e criminal — tática que, se comprovada, pode configurar fraude processual e lavagem de ativos.
A atuação de Celso Vilardi, por sua vez, coloca a defesa dos ex-sócios em um patamar jurídico diferente. Advogado experiente em casos de alta complexidade e visibilidade nacional, Vilardi tem tradição em construir narrativas que questionam a legalidade de provas e a adequação tipológica das condutas — estratégia que, no STJ, pode encontrar terreno fértil em uma turma que já decidiu casos polêmicos de habeas corpus em favor de figuras públicas.
A defesa de Celso Vilardi no STJ é, em si, um termômetro do que está em jogo no caso Naskar: não se trata apenas de três executivos presos por um esquema financeiro, mas de um teste sobre até onde a estratégia jurídica de alto nível pode conter as consequências de um colapso que deixou milhares de pessoas sem suas economias. Se o habeas corpus for concedido, os ex-sócios poderão responder ao processo em liberdade — o que, do ponto de vista da recuperação de ativos, pode dificultar o bloqueio de bens e a pressão por colaboração premiada.
Mas o verdadeiro enigma da Naskar não está nos tribunais de Brasília. Está em Dubai, onde um jovem de 26 anos, que transferiu uma empresa de R$ 1 bilhão para o nome de sua avó com Alzheimer, decide se vale a pena voltar ao Brasil. Enquanto isso, os 3 mil investidores que confiaram em 2% ao mês durante 13 anos aprendem, na prática, que a promessa de retorno garantido tem um preço — e que, muitas vezes, quem paga é quem acreditou.
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