Dono da fintech Naskar foge para Dubai em meio a calote de R$ 900 mi
Douglas Silva de Oliveira, 26, apontado como responsável pela Naskar, deixou o Brasil após acusações de fraude que atingiram cerca de 3 mil investidores.
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- Douglas Silva de Oliveira, 26 anos, fugiu para Dubai após ser apontado como responsável pela fintech Naskar Gestão de Ativos.
- A Naskar é investigada por suposto calote de R$ 900 milhões a R$ 1 bilhão contra cerca de 3 mil clientes.
- Douglas controla 12 empresas com capital social somado de R$ 2,4 bilhões, mas declara renda mensal de R$ 1,8 mil.
- Brasil e Emirados Árabes Unidos têm tratado de extradição em vigor desde 2026, o que pode mudar o desfecho do caso.
- Por que isso importa: o episódio expõe a fragilidade regulatória de fintechs que operam fora da supervisão do Banco Central e da CVM, prejudicando poupadores comuns.
Douglas Silva de Oliveira, de 26 anos, apontado como responsável pela fintech Naskar Gestão de Ativos — investigada por supostamente desaparecer com cerca de R$ 900 milhões de investidores —, fugiu para Dubai. A informação foi apurada com exclusividade pela coluna de Mirelle Pinheiro, do Metrópoles. O empresário é um dos investigados no caso do suposto calote de R$ 1 bilhão que teria prejudicado cerca de 3 mil clientes.
A fuga depois da enxurrada de acusações
Conforme o Metrópoles noticiou no início de junho, ao revelar a fraude, os três sócios originais da empresa deixaram seus cargos e transferiram a propriedade da Naskar para Douglas, em meados de maio. Pouco tempo depois, porém, Douglas teria deixado a sociedade da fintech e transferido sua participação para Célia de Fátima Ferreira, uma idosa de 77 anos, moradora de Uberlândia (MG).
À época, ele afirmou que a nova proprietária era sua "sócia há alguns anos" e disse que continuava figurando como responsável pela empresa. Semanas depois, segundo a coluna, veio o desfecho: após a série de acusações, Douglas Silva de Oliveira fugiu para o Oriente Médio.
Da promessa de salvação ao sumiço dos sócios
O colapso da Naskar começou em maio. Durante 13 anos, a empresa manteve os pagamentos sem problemas, mas em 4 de maio o pagamento mensal de rendimentos não foi realizado. O aplicativo da Naskar deixou de funcionar em 6 de maio e não voltou ao ar, enquanto a empresa mudava-se do endereço fixo em São Paulo sem informar os clientes.
Em nota, a companhia alegou "perda em nossa base de dados" e prometeu iniciar um processo de "circularização" junto aos clientes na semana seguinte. Nada disso se confirmou. Documentos da Junta Comercial de São Paulo mostram que, entre março e maio de 2026, os controladores mudaram razões sociais, retiraram atividades financeiras dos objetos sociais e abriram duas novas empresas no mesmo dia em que comunicaram a suposta perda de dados.
Azara Capital: a compradora que não existia
Em 14 de maio, a Naskar anunciou ter sido adquirida pela empresa americana Azara Capital LLC, em uma operação estimada em cerca de R$ 1,2 bilhão. Douglas Silva de Oliveira aparece como presidente da 7Trust, uma das empresas incluídas no pacote, ao lado da Next Gestão de Ativos.
A "gestora americana" apresentava, porém, sinais claros de fachada: o site não menciona presidente, diretores ou qualquer pessoa; o endereço em Miami é apontado pelo Google Maps como o do Ocean Bank, um banco comercial independente; e o perfil no Instagram foi criado há apenas três meses. A empresa também não aparece como entidade regulada pela Securities and Exchange Commission (SEC) nem pela Financial Industry Regulatory Authority (Finra), órgãos que supervisionam o mercado financeiro americano.
Um representante do grupo chegou a afirmar que "a estrutura corporativa global da Azara Capital conta atualmente com um quadro de 231 colaboradores distribuídos estrategicamente em três países" — sem citar quais países seriam esses. Em 19 de maio, a Receita Federal confirmou que Douglas Silva de Oliveira havia se tornado o único sócio-administrador da Naskar Gestão de Ativos.
Patrimônio de R$ 2,4 bilhões, renda de R$ 1,8 mil
Aos 25 anos, Douglas possuía endereços residenciais no Distrito Federal e em Uberlândia (MG), além de constar como administrador, sócio-administrador e/ou representante legal de, ao menos, 12 empresas brasileiras como fintechs, fazendas, postos de combustíveis e transportadoras. Somados, os capitais sociais das 12 empresas ligadas a ele alcançam cerca de R$ 2,4 bilhões.
Entre os ativos está o Banco Phoenix, registrado sob a razão social Jabuti Capital Venture Group Ltda, constituída em 9 de janeiro de 2024 e sediada em Uberlândia, com capital social de R$ 1 bilhão, no qual Douglas figura como representante legal e sócio-administrador. Há ainda o Auto Posto Tupi Ltda, com capital social de R$ 191 milhões; a Fazenda Jabuti e a Fazenda Tel-Aviv, ambas instituídas em 9 de janeiro de 2024; e a Sommerlath Armazéns Gerais e a Fazenda Jerusalém, criadas em 19 de fevereiro de 2024.
O contraste chama atenção: apesar do patrimônio bilionário, Douglas Silva de Oliveira declara renda mensal de apenas R$ 1,8 mil. Até o momento, 30 boletins de ocorrência foram registrados no sistema da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) relacionados ao caso.
Pôquer enquanto os clientes esperam
Quase um mês após a repercussão inicial, Douglas chegou a se pronunciar publicamente e prometeu pagar os investidores. Em vídeo, afirmou:
"É corporativamente impossível, nesse curto período, tomar uma atitude de resolução" numa empresa que tinha pessoas com R$ 5 mil aplicados e outras com R$ 15 milhões aplicados.
A promessa não se cumpriu. Questionada em 7 de julho, a assessoria do empresário respondeu apenas que "não existe previsão" de início dos pagamentos aos investidores lesados. Dias depois, imagens circularam nas redes mostrando outra faceta do empresário: mais de dois meses após a revelação do calote, fotos e vídeos publicados nas redes sociais mostraram o novo dono da empresa em uma jogatina de pôquer, apostando altos valores ao lado de outras pessoas, enquanto investidores aguardavam os pagamentos prometidos.
Em um dos vídeos, ele é filmado calculando o valor acumulado na rodada: "Estamos com 85 mil no 'pot', foram dois 'pots' seguidos, acho que a gente tá nos 100 mil, mais ou menos".
Investigação sem prisões — e um novo obstáculo diplomático
A Polícia Civil do Distrito Federal abriu apuração para investigar suspeita de estelionato ou pirâmide financeira. Nem o Banco Central nem a Comissão de Valores Mobiliários tinham a Naskar registrada como instituição autorizada a captar recursos de clientes — a empresa operava por meio de contratos de mútuo, modalidade de empréstimo amparada no Código Civil, fora da supervisão dos dois órgãos.
Especialistas classificam o modelo como próximo de um esquema Ponzi clássico: rendimentos prometidos aos investidores mais antigos pagos com o dinheiro captado dos novos entrantes, estrutura que colapsa quando a captação não sustenta mais os pagamentos. Até aqui, nenhum dos envolvidos foi preso.
A fuga para Dubai, porém, pode ter vida mais curta do que teve para outros fugitivos brasileiros no passado. O tratado de extradição entre Brasil e Emirados Árabes Unidos, assinado em março de 2019, foi aprovado pela Câmara dos Deputados e prevê que o país receba de volta pessoas condenadas ou processadas criminalmente. O Senado aprovou o texto em outubro de 2025 e ele seguiu para promulgação, entrando formalmente em vigor. O acordo prevê dupla incriminação, recusa facultativa por razões humanitárias e a possibilidade de cada país recusar a extradição de seus próprios nacionais.
Como Douglas é brasileiro nato, a Constituição veda sua extradição direta ao Brasil — mas o novo tratado amplia os instrumentos de cooperação jurídica entre os dois países, incluindo bloqueio de bens e assistência mútua em investigações penais. Resta saber se a Justiça brasileira vai acionar esses mecanismos antes que o rastro do dinheiro dos 3 mil investidores desapareça de vez.
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