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Fundo no Texas comprou casa onde Eduardo Bolsonaro vive; PF apura

Investigação da PF apura se estrutura patrimonial no exterior serviu para contornar bloqueios do STF enquanto Flávio negociava recursos para filme sobre Jair Bolsonaro

Fundo no Texas comprou casa onde Eduardo Bolsonaro vive; PF apura
📷 Reprodução TV Globo
📋 Em resumo
  • Fundo Mercury Legacy Trust, ligado ao advogado Paulo Calixto, adquiriu imóvel em Arlington, Texas, em fevereiro de 2026
  • Calixto também administra o Havengate Development Fund, que recebeu recursos de Daniel Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro
  • PF investiga se a estrutura financeira nos EUA contornou bloqueios do STF às contas de Eduardo Bolsonaro no Brasil
  • Eduardo nega vínculo com o imóvel e afirma que sua situação migratória impediria recebimento de fundos de investimento
  • Por que isso importa: o caso expõe lacunas na regulação de fundos offshore e testa a eficácia de bloqueios judiciais em operações transfronteiriças
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Um fundo privado de gestão de patrimônio, o Mercury Legacy Trust, adquiriu em fevereiro uma residência em Arlington, no Texas, por aproximadamente R$ 3,6 milhões. O imóvel está localizado no mesmo estado onde vive o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). A operação ganhou relevância porque o advogado Paulo Calixto, responsável pela defesa migratória de Eduardo nos Estados Unidos, figura como administrador da estrutura.

Conexão com recursos do Banco Master

A aquisição ocorre no centro de uma investigação da Polícia Federal sobre o destino de recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Parte dos R$ 61 milhões negociados teria sido direcionada ao Havengate Development Fund, fundo também administrado por Calixto no Texas, sob a justificativa de financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL).

Documentos acessados por veículos de imprensa indicam que transferências realizadas entre fevereiro e maio de 2025 pela empresa Entre Investimentos e Participações chegaram ao Havengate. A PF apura se parcela desses valores foi utilizada para custear despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, possivelmente contornando bloqueios judiciais impostos pelo Supremo Tribunal Federal às suas contas no Brasil.

"A casa não tem relação com nenhum dos dois", afirmou André Porciúncula, aliado de Eduardo Bolsonaro e um dos responsáveis pela entidade que adquiriu o imóvel.

Estrutura offshore e desafios de rastreamento

Fundos como o Mercury Legacy Trust e o Havengate são instrumentos comuns nos Estados Unidos para gestão patrimonial e planejamento sucessório. Sua operação em jurisdições que não aderiram integralmente a protocolos automáticos de troca de informações, como o Common Reporting Standard da OCDE, dificulta o monitoramento por autoridades estrangeiras.

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Nos registros públicos do Texas, o Havengate Development Fund LP tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC. A entidade controladora, Havengate Development Fund GP LLC, lista Calixto e o corretor Altieris Santana como membros do quadro societário. Ambos não responderam a solicitações de comentário.

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Posicionamentos e negações

Procurado, Eduardo Bolsonaro negou qualquer vínculo entre o imóvel adquirido pelo Mercury Legacy Trust e sua permanência nos Estados Unidos. Em declarações públicas, afirmou que seu status migratório não permitiria o recebimento de recursos de fundos de investimento e que todas as origens de seus recursos foram declaradas às autoridades americanas.

Sobre o filme Dark Horse, Eduardo reconheceu ter atuado como produtor-executivo em fase inicial do projeto, com investimento próprio de R$ 350 mil, mas afirmou ter deixado a gestão financeira quando a produção passou a operar via fundos de investimento. "Passei então a ser somente uma pessoa que assinou a sua cessão de direitos autorais para que um ator pudesse me representar no filme", declarou.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, reiterou que os recursos repassados por Vorcaro foram integralmente destinados à produção cinematográfica. "Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme", afirmou em entrevista.

Contexto: bloqueios judiciais e articulação transfronteiriça

A investigação ganha contorno político porque Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, período em que o STF impôs restrições a suas contas bancárias no Brasil. A Procuradoria-Geral da República pediu, recentemente, a condenação do ex-deputado por coação no curso de processo, sob a alegação de que articulou, a partir do exterior, sanções contra autoridades brasileiras.

"A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca", escreveu Eduardo Bolsonaro em rede social.

O caso também reacende o debate sobre a eficácia de medidas judiciais brasileiras quando envolvidos possuem estruturas patrimoniais em jurisdições com diferentes marcos regulatórios. Especialistas apontam que a ausência de adesão dos Estados Unidos ao CRS — padrão global de troca automática de informações financeiras — cria assimetrias que podem ser exploradas para dificultar o rastreamento de recursos.

O que está em jogo além do imóvel

A compra do imóvel em Arlington, por si só, não configura ilicitude. Fundos patrimoniais são instrumentos legítimos de planejamento financeiro. A questão investigativa reside na origem dos recursos, na transparência das operações e na possível utilização de estruturas legais para fins distintos dos declarados.

A PF segue apurando a cadeia de transferências, a relação entre as entidades envolvidas e a destinação final dos valores. O desfecho pode influenciar não apenas o caso específico, mas também a forma como o sistema de justiça brasileiro lida com operações financeiras que atravessam fronteiras em contextos de restrições judiciais.

A investigação sobre o fundo no Texas coloca em teste a capacidade de cooperação internacional em matéria financeira e a eficácia de bloqueios patrimoniais em um mundo com fluxos de capital cada vez mais desmaterializados. Enquanto a apuração avança, permanece a pergunta: em que medida estruturas legais de gestão patrimonial podem, na prática, neutralizar decisões judiciais nacionais?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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