Gestão Flori em Vilhena: A carreta de exames e o sigilo milionário
Falta de licitação, dívida de R$ 1,8 milhão e novo empenho de R$ 1 milhão sob escrutínio. O Ministério Público deve intervir na saúde municipal
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- Carreta Fantasma: Unidade de ressonância de São Paulo operou em Vilhena sem licitação pública visível, ignorando clínicas locais como Mega Imagem e CDI.
- Dívida Milionária: Bastidores apontam débito de R$ 1,8 milhão da Prefeitura, gerando resistência até da Secretaria Estadual de Saúde.
- Cortina de Sigilo: Processos administrativos classificados como secretos impedem fiscalização da Câmara e motivaram corte de microfone na Casa.
- Novo Empenho: Contrato de R$ 1 milhão (empenho 2496/2026) com empresa de Porto Velho levanta novas dúvidas sobre metas e fiscalização.
- Por que isso importa: A gestão do ex-delegado Flori testa os limites da transparência no Cone Sul, desafiando um Ministério Público com seis promotores na comarca
A administração do prefeito Flori Cordeiro de Miranda Júnior, o Delegado Flori, enfrenta um crescente escrutínio em Vilhena devido a uma sequência de contratações na área da saúde marcadas por sigilo administrativo, ausência de licitação e dívidas milionárias. O que deveria ser uma solução para a fila de exames de ressonância magnética transformou-se em um labirinto burocrático que agora exige a intervenção do Ministério Público de Rondônia.
A carreta de São Paulo e o fantasma da licitação
No centro das discussões está a contratação de uma carreta de ressonância magnética trazida de São Paulo pela Secretaria Municipal de Saúde. A unidade móvel chegou com a promessa de ampliar a oferta de exames de imagem, mas sua operação abriu uma caixa-preta administrativa.
Segundo informações de profissionais ligados ao serviço, a unidade realizou centenas de exames sem que houvesse registros públicos de licitação, tomada de preços ou carta-convite. A ausência de um instrumento contratual amplamente divulgado gera uma pergunta óbvia: por que a prefeitura ignorou estruturas privadas locais já aptas a realizar os procedimentos, como a Mega Imagem e o CDI (Centro de Diagnóstico por Imagem), que operam no município há anos?
O que deveria ser uma política pública de redução de filas acabou abrindo uma sequência de questionamentos sem resposta: quanto foi pago? Quantos exames foram realizados? Quem autorizou a execução? Qual a fonte dos recursos?

A carreta de Flori
O rastro de R$ 1,8 milhão e a resistência do Estado
A falta de amparo legal cobra seu preço. Nos bastidores, profissionais que trabalharam na carreta relatam atrasos severos nos pagamentos. A justificativa apresentada pela operação era a ausência de repasses por parte do Município de Vilhena, configurando uma dívida que, segundo esses relatos, ultrapassa a cifra de R$ 1,8 milhão.
O episódio remete a um fato revelador sobre a fragilidade administrativa do processo. Quando a carreta começou a operar, o então secretário estadual de Saúde, Coronel Jefferson Rocha, manifestou resistência em liberar repasses estaduais para custear a iniciativa. A preocupação do Estado girava em torno da ausência de cadastramentos, convênios e procedimentos administrativos mínimos para respaldar a execução do serviço.
Mesmo sem o aval técnico do Estado e sem a devida formalização municipal, os exames aconteceram. E a conta, ao que tudo indica, ficou na mesa.
O sigilo como escudo e o embate na Câmara
O problema mais grave não é apenas a irregularidade da contratação, mas a blindagem das informações. Ninguém consegue saber exatamente o que foi realizado. Nem a Câmara Municipal de Vilhena conseguiu acessar detalhes sobre os procedimentos, os pacientes atendidos ou os atos administrativos que permitiram a execução dos serviços. O motivo? A classificação de diversos processos administrativos sob sigilo.
A falta de transparência transformou o Legislativo em palco de tensão. Recentemente, durante uma sessão marcada por pedidos de informação da oposição, o vereador Jander Rocha questionou a tramitação de contratos e procedimentos da prefeitura. O debate escalou até o momento em que o presidente da Casa determinou o corte do microfone do parlamentar.
"A transparência não pode ser tratada como um favor do gestor, mas como a regra inegociável da coisa pública. Quando processos de saúde são blindados pelo sigilo, a população paga a conta da opacidade."
O episódio do microfone cortado reforça uma crítica que ganha força na sociedade civil: a dificuldade sistemática de acesso a documentos públicos na gestão Delegado Flori.
Novo empenho de R$ 1 milhão e a sombra de Porto Velho
Enquanto as dúvidas sobre a carreta de ressonância permanecem no ar, uma nova contratação passou a chamar a atenção dos observadores locais. Trata-se de uma empresa sediada em Porto Velho, que já possui empenho emitido pela Prefeitura de Vilhena no valor de R$ 1 milhão, registrado sob o número 2496/2026.
O documento existe, mas a nebulosidade permanece. Quais serviços serão efetivamente executados? Quais metas deverão ser cumpridas? Quais mecanismos de fiscalização serão utilizados para garantir que o dinheiro público não se dissipa no ar? A repetição do padrão — contratar sem explicar, empenhar sem detalhar — acende o alerta vermelho nos órgãos de controle.
A trajetória de Delegado Flori e o silêncio dos órgãos de controle
Nos corredores da política local, outro ponto passa a ser discutido com cautela: a postura dos órgãos de controle. O prefeito Flori Cordeiro de Miranda Júnior construiu sua carreira na Polícia Federal antes de ingressar na política. Nos bastidores, há quem questione se essa trajetória institucional, teoricamente pautada pela lei e pela investigação, contribui para uma atuação mais tímida ou cautelosa dos órgãos fiscalizadores quando comparada a casos envolvendo outros gestores públicos.
A discussão ganha contornos de indignação quando se observa a estrutura do Ministério Público na comarca. Vilhena conta atualmente com seis promotores de Justiça atuantes: Elício de Almeida e Silva, Fernando Franco Assunção, João Paulo Lopes, Rodrigo Leventi Guimarães, Thiago Gontijo Ferreira e Vinícius Basso de Oliveira.
Apesar da força-tarefa natural que um número desses representa, críticos sustentam que temas relacionados à transparência municipal, contratos administrativos e acesso a informações públicas ainda avançam em ritmo muito abaixo do esperado. A inércia diante de contratos sigilosos e dívidas milionárias na saúde é um termômetro preocupante.
Cenário: A conta da opacidade
A principal pergunta continua sem resposta: quem autorizou, quanto custou, como foi pago e onde estão os documentos que permitam à população acompanhar cada etapa desses procedimentos?
A gestão de um ex-delegado da Polícia Federal não pode se dar ao luxo de tratar o sigilo como ferramenta de governo. A transparência é o antídoto contra a corrupção e o único caminho para restaurar a confiança pública. Resta saber se o Ministério Público de Rondônia, com seus seis promotores em Vilhena, vai exigir a quebra desses sigilos ou se a carreta de exames continuará rodando pelos bastidores, deixando para trás apenas o rastro de uma dívida milionária e a dúvida sobre o destino do dinheiro público.
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