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Lula e Trump na Casa Branca: cinco temas que definem o futuro da relação Brasil-EUA

Encontro desta quinta (7) em Washington vai além da diplomacia protocolar e aborda tarifas, PIX, crime organizado, minerais estratégicos e eleições de 2026

Lula e Trump na Casa Branca: cinco temas que definem o futuro da relação Brasil-EUA
📷 Ricardo Stuckert/Presidência da República
📋 Em resumo
  • Lula e Trump se reúnem às 11h locais (12h em Brasília) em formato de "visita de trabalho", menos formal que encontro bilateral tradicional 
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  • Cinco eixos centram a pauta: combate ao crime organizado, investigação do PIX pelo USTR, geopolítica global, terras raras e eleições brasileiras de 2026.
  • Brasil busca reverter tarifas de 40% impostas em 2025 e evitar classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA 
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  • Por que isso importa: o resultado do encontro pode redefinir o equilíbrio comercial, a soberania tecnológica e a autonomia política do Brasil em ano eleitoral.
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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump se reúnem nesta quinta-feira (7), às 11h locais (12h em Brasília), na Casa Branca, em Washington, para uma "visita de trabalho" focada em economia e segurança.

O encontro, confirmado pela própria Casa Branca nesta terça (5), marca um passo decisivo para normalizar relações abaladas por tarifas comerciais, divergências geopolíticas e tensões institucionais — e pode definir rumos para o Brasil em ano eleitoral.

O que levou Lula e Trump a se sentarem à mesma mesa

A relação entre os dois presidentes teve altos e baixos desde o retorno de Trump à Casa Branca. Em julho de 2025, o republicano aplicou tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, justificando a medida com base em políticas internas do Brasil e na persecução penal do ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, o diálogo foi retomado gradualmente: conversas na Assembleia Geral da ONU (setembro), encontro privado na Malásia (outubro) e telefonemas subsequentes pavimentaram o caminho para o encontro desta quinta.

"O Brasil não é problema para os Estados Unidos. O que nós temos que fazer é um ganha-ganha", afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin à GloboNews, antecipando o tom construtivo que o governo brasileiro pretende adotar.

Combate ao crime organizado: o risco da classificação como "terrorismo"

Um dos temas mais sensíveis da pauta é a possível classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA . Fontes ligadas à administração Trump indicam que o secretário de Estado, Marco Rubio, defende a medida, já aplicada a grupos do México e da Venezuela.

A avaliação no Palácio do Planalto é que essa classificação abriria margem para ações unilaterais dos Estados Unidos em território brasileiro, inclusive operações militares em cenário extremo. Segundo apuração do jornalista Gerson Camarotti, do g1, Lula pretende convencer Trump a descartar a medida, reforçando que o Brasil prioriza a cooperação bilateral no combate ao crime organizado.

PIX sob investigação: soberania digital em xeque

O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro está entre os alvos de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), conduzida sob a Seção 301 da lei comercial americana . Washington argumenta que o PIX criaria desvantagens competitivas para empresas de pagamento eletrônicas dos EUA, como operadoras de cartão de crédito.

O governo brasileiro já respondeu formalmente à investigação, destacando que o PIX não discrimina empresas estrangeiras e que gigantes como o Google já utilizam a ferramenta . Em discurso em abril, Lula afirmou que o "PIX é do Brasil", transformando o tema em símbolo de defesa da soberania tecnológica nacional .

"O encontro é uma oportunidade para esclarecer o funcionamento do PIX e buscar um bom entendimento", reforçou Alckmin .

Terras raras: o novo tabuleiro geopolítico dos minerais estratégicos

O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de minerais críticos e terras raras — recursos essenciais para a transição energética, a digitalização e o avanço da inteligência artificial . O governo federal defende que a exploração ocorra sob controle nacional, com parcerias que garantam transferência de tecnologia e desenvolvimento industrial interno.

Os Estados Unidos, por sua vez, buscam reduzir a dependência da China nesse setor e já firmaram acordos bilaterais com empresas brasileiras, como o financiamento de US$ 565 milhões à mineradora Serra Verde, em Goiás. Contudo, a avaliação em Brasília é que iniciativas estaduais — como o acordo entre Goiás e Washington — não têm validade jurídica, já que o subsolo é competência da União.

Na véspera do encontro, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, ainda pendente de análise no Senado — movimento que sinaliza a prioridade do tema na agenda federal.

Geopolítica: divergências que não cabem no Salão Oval

Lula e Trump mantêm posições distintas sobre conflitos globais. O Brasil condenou ataques dos EUA à Venezuela e ao Irã, e Lula criticou publicamente a postura belicista do republicano em entrevista à revista alemã Der Spiegel em abril: "Ele não pode ameaçar outros países com guerra o tempo todo".

Além disso, Lula defende o fortalecimento da ONU como fórum multilateral, em contraposição a posturas unilaterais. Embora tenha sido convidado a integrar o Conselho da Paz proposto por Trump, o presidente brasileiro ainda não aceitou e, em janeiro, propôs mudanças na estrutura do grupo. A situação de Cuba, com pressão americana sobre Havana, também pode entrar na pauta.

Eleições 2026: o tabuleiro interno que transcende fronteiras

Para Lula, o encontro tem um componente político doméstico: buscar um compromisso informal de não interferência dos EUA nas eleições presidenciais de outubro de 2026. Fontes do governo ouvidas pela imprensa apontam preocupação com o Departamento de Estado, visto como mais ideológico e com interlocução com aliados do bolsonarismo.

Embora um ataque direto de Trump não esteja no radar, Lula busca garantir que não haja apoio a candidaturas oposicionistas, como a de Flávio Bolsonaro (PL). Ao mesmo tempo, o encontro permite ao presidente projetar imagem de liderança internacional em momento de desgaste interno, após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF pelo Senado.

O que esperar após o aperto de mãos

O formato de "visita de trabalho" sugere objetividade: declarações à imprensa no Salão Oval (cerca de 30 minutos), seguido de almoço restrito. Não se esperam anúncios bombásticos, mas sim sinais de direção — sobre tarifas, cooperação em segurança e alinhamento em temas globais.

O risco, para ambos os lados, é que divergências não resolvidas vazem para o domínio público, alimentando ruídos políticos. Para o Brasil, o desafio é equilibrar soberania e pragmatismo; para os EUA, evitar que tensões comerciais prejudiquem parcerias estratégicas em um ano eleitoral global.


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