Análise & Opinião

Lula venceu a Faria Lima, o Pentágono e o próprio medo

Mais que uma reeleição, o resultado de 25 de outubro marcou terras raras, Amazônia, Forças Armadas e um mercado financeiro que apostou errado — e agora cobra a conta de quem perdeu

Lula venceu a Faria Lima, o Pentágono e o próprio medo
📷 © Paulo Pinto/Agência Brasil
📋 Em resumo ▾
  • Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos — 64.256.232 votos, uma diferença de cerca de 4,4 milhões sobre Flávio Bolsonaro
  • A vitória foi lida por veículos como o New York Times, Al Jazeera e a SBS coreana como um freio na onda de direita que varria a América Latina desde o retorno de Trump
  • Terras raras, cerca de 300 terras indígenas e o ritmo do desmatamento na Amazônia estavam diretamente em jogo no resultado
  • O mercado financeiro apostou pesado — e errado — na vitória de Flávio; a reversão dessa aposta, não uma decisão do governo, é o que vem corroendo bolsa e dólar
  • O desemprego caiu a 5,2% no 3º trimestre, a menor taxa da série histórica do IBGE, e a Avibrás foi retomada como símbolo da indústria de defesa nacional
  • O “Exército do Lula”, canal de WhatsApp criado por André Janones, saltou de 50 mil para mais de 10,5 milhões de inscritos em três semanas — e inspirou réplicas na França, Espanha e Argentina
  • Ruas, fandoms de artistas internacionais e mais de 100 nomes da música, do cinema e do esporte brasileiro se somaram à mobilização pelo segundo turno
  • Por que isso importa: o resultado da eleição se cruza, ao mesmo tempo, com soberania mineral, proteção ambiental, política externa e a sobrevivência financeira de quem apostou contra o resultado das urnas — um feixe de consequências raro em uma única eleição.
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No domingo (25), quase 65 milhões de brasileiros — 64.256.232, para ser exato, 51,79% dos votos válidos — reconduziram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República, contra Flávio Bolsonaro (PL). A diferença entre os dois ficou em torno de 4,4 milhões de votos. Não foi só mais uma eleição: foi uma eleição que carregava, ao mesmo tempo, a disputa pelas terras raras do subsolo brasileiro, o destino de quase 300 terras indígenas na Amazônia, o rumo da política externa diante de Washington e — percebeu-se nos dias seguintes — o dinheiro de quem apostou terabilhões na vitória do outro lado.

O freio que o mundo estava esperando (ou temendo)

Antes mesmo do segundo turno, a imprensa internacional já tratava o Brasil como a última peça de um tabuleiro que vinha caindo inteiro para a direita, puxado pela chamada “Donroe Doctrine” de Trump: Argentina, Chile, Bolívia, Honduras, Peru. A vitória de Lula foi manchete do New York Times como “um golpe duro na direita da América Latina”; a emissora sul-coreana SBS falou em “freio na onda de direita”; a Al Jazeera chamou o resultado de possível “ponto de virada” para a região. Na Espanha, o premiê Pedro Sánchez — que antecipou eleições gerais para novembro — comemorou no X: “o que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha”. Não é exagero dizer que, por uma noite, o Brasil voltou a ser notícia por resistir, não por se alinhar.

A guerra que não estava nas pesquisas: o Exército do Lula

Se há uma inovação desta eleição que vai ser estudada por anos, foi o que o deputado André Janones (Rede-MG) fez com um canal de WhatsApp. Criado em outubro, o “Exército do Lula” tinha cerca de 50 mil integrantes na manhã da primeira segunda-feira pós-1º turno. Em 48 horas, passou de 1 milhão. Em poucos dias, 2 milhões. No dia 21 de outubro, 7 milhões. No dia 23, dois dias antes da votação, 10 milhões. Ao fim da campanha, o canal somava mais de 10,5 milhões de inscritos — e continua ativo. Não era um canal oficial de campanha: era um deputado sozinho, transformando um grupo de mensagens em um exército de replicadores de conteúdo, em uma escala que nenhuma campanha brasileira havia produzido antes.

O fenômeno não ficou dentro das fronteiras. Dias depois da vitória de Lula, apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, lançaram o canal “L’équipe de Mélenchon officielle” — que tinha cerca de 30 mil inscritos na terça-feira seguinte à eleição brasileira e, já na sexta, somava 164 mil, mirando a presidencial francesa de 2027. O Le Monde chamou o fenômeno de “janonismo”. Iniciativas semelhantes nasceram também na Espanha, puxadas pela equipe de Pedro Sánchez, e na Argentina, com o canal “Exército do Peronismo”. Janones, aliás, foi convidado pela própria equipe de Sánchez para ajudar a replicar a estratégia por lá.

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Ricardo Stuckert

As ruas e os artistas

A militância digital teve companhia nas ruas. Na reta final do segundo turno, atos reuniram multidões em Brasília, São Paulo e no Rio — onde Caetano Veloso convocou um ato musical e Marisa Monte marchou associando o voto à democracia, à educação e ao fim da escala 6x1. O hip hop teve seu próprio capítulo, com o ato “Rap Convoca”, que levou Emicida a um palco na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, ao lado de outros nomes do gênero.

Nas redes, mais de 100 artistas, atores e atletas brasileiros declararam voto em Lula — de Anitta a Wagner Moura, passando por Jão, Manu Gavassi e Camila Pitanga, que participaram inclusive de uma transmissão ao vivo com o próprio presidente e Janones. E, em um fenômeno sem precedentes na política brasileira, fandoms de artistas internacionais — perfis dedicados a Taylor Swift, Beyoncé, BTS, BLACKPINK, Billie Eilish, Ariana Grande e outros — colocaram seu alcance digital à disposição da campanha, sob a hashtag #FandomsComLula, para mobilizar indecisos e quem não tinha votado no primeiro turno.

O que estava realmente em jogo: terras raras e Amazônia

Por trás da disputa eleitoral havia um ativo concreto: o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo. O plano de governo de Flávio prometia “acabar com as amarras ambientais” e abrir licenciamento ágil para explorá-las com capital estrangeiro — o que analistas da Le Monde Diplomatique e da Fundação Perseu Abramo descreveram como um risco real de o país virar fornecedor subordinado de matéria-prima aos EUA, repetindo no Brasil o que se discute hoje com os recursos da Venezuela.

“Se Flávio Bolsonaro vencer, a gente perde.”

Essa frase, de um texto que circulou nas semanas finais da campanha, resume o que estava em jogo para a floresta: o plano de Flávio colocava cerca de 300 terras indígenas em risco e ameaçava reverter a fiscalização que cortou o desmatamento pela metade entre 2022 e 2025. Não foi retórica vazia — fazendeiros do Pará chegaram a planejar, em áudios obtidos pela Folha, a invasão da Terra Indígena Apyterewa no próprio dia da votação, caso Flávio vencesse.

Quem pagou a conta da campanha de Flávio

No financiamento de campanha, o retrato também foi revelador. Dos dez maiores doadores individuais de Flávio, quatro tinham ligação direta com o agronegócio — e dois deles já haviam sido alvo do Judiciário: Eloi Vitório Marchett, indiciado por formação de quadrilha e contrabando (caso prescrito antes do julgamento), e Nelson José Vigolo, hoje réu colaborador na Operação Faroeste, que apura grilagem de terras e venda de sentenças no oeste da Bahia. Juntos, os dois doaram R$ 3,1 milhões à campanha. Em Mato Grosso, o agronegócio sozinho destinou mais de R$ 11 milhões a Flávio — enquanto Lula, segundo o levantamento local, “não contou com doações expressivas de lideranças do estado”.

Reprodução TSE

Reprodução TSE

A disputa dentro da própria Justiça Eleitoral

A reta final também expôs fissuras dentro do próprio TSE. Durante a campanha, o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, chegou a suspender monocraticamente a divulgação de uma pesquisa que mostrava queda de Flávio nas intenções de voto — decisão que, segundo o O Globo, “acendeu alerta” entre ministros do STF preocupados com o comando do TSE nas mãos de dois indicados por Jair Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça. Mas é preciso registrar o desfecho real, não o que seria mais conveniente para a narrativa: depois da derrota, quando Flávio divulgou uma carta contestando o resultado sem provas, foram justamente Nunes Marques e Mendonça que se afastaram publicamente dele — avaliando, nos bastidores, segundo a Folha, que o senador “perdeu o bom senso”. Nunes Marques reafirmou em nota que a eleição transcorreu “na mais absoluta normalidade”. É um contraponto que vale manter: a mesma Justiça Eleitoral que, em certos momentos, pareceu pender para um lado, foi quem travou a tentativa de Flávio de colocar em dúvida o resultado.

O mercado que apostou — e perdeu

Se há um grupo que não escondeu de que lado estava, foi o mercado financeiro. Na véspera do segundo turno, Polymarket e Kalshi davam a Flávio cerca de 80% de chance de vitória. A Bolsa chegou a subir e o real a se valorizar na expectativa de uma “virada fiscal” com Flávio no poder. Quando o resultado saiu ao contrário, o Ibovespa teve a pior semana pós-eleição em 37 anos, o fundo EWZ caiu 18,29% em Nova York e o real recuou mais de 11% no mercado futuro — não por nenhuma medida do novo governo, mas pela reversão de apostas que “só faziam sentido com outro presidente”.

“O mercado foi afoito.”

É a frase de um economista do mercado financeiro desde 1983, citado pela Exame, resumindo o que aconteceu: investidores precificaram uma probabilidade de vitória de Flávio maior do que a realidade sustentava — e quem usou alavancagem para apostar nisso quebrou. Um gestor da Amplus Capital relatou ter sido procurado por mais de 40 pessoas que perderam todo o patrimônio, e em alguns casos ficaram com dívidas superiores ao que tinham antes da eleição, operando no mercado de opções e até na Polymarket.

Um mercado que já estava sob suspeita

É nesse mesmo universo financeiro, aliás, que operações da Polícia Federal — Carbono Oculto, Quasar e Tank — já vinham investigando, antes mesmo da eleição, um esquema que teria movimentado R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024 usando fundos de investimento e postos de combustível sediados justamente na Faria Lima, com conexões apontadas ao PCC e ao Banco Master de Daniel Vorcaro — motivo, inclusive, de quebra de sigilo aprovada por uma CPI do Senado. Separadamente, uma megaoperação da Polícia Civil do Rio mirou uma rede do Comando Vermelho que teria lavado R$ 6 bilhões em um só ano com ramificações em São Paulo. São investigações em curso, sem condenação definitiva até aqui — mas que bastam para entender por que a expressão “mercado financeiro limpo” soa, hoje, mais aspiracional do que real.

Os números que sobraram da campanha

Enquanto a política se resolvia nas urnas, a economia seguia produzindo seus próprios números: o desemprego caiu a 5,2% no terceiro trimestre, a menor taxa para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012, com 103,6 milhões de pessoas ocupadas — recorde da série. Em julho, Lula visitou a fábrica da Avibras, em Jacareí, retomada sob nova gestão depois de anos de paralisação e hoje credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa — um símbolo, ainda que sem cronograma de novas encomendas anunciado, do discurso de soberania que o governo tenta sustentar também na indústria militar.

Flávio, a fuga e o que vem depois

Dias depois da derrota, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil com a família, fez escala na Argentina e no Equador e pousou em Miami — enquanto a Justiça argentina já apura, por decisão da juíza Capuchetti, se houve irregularidade na sua entrada no país vizinho. É um desfecho que, por si só, já diz mais sobre o momento político brasileiro do que qualquer discurso de vitória.

Talvez daqui a algumas décadas este episódio seja lembrado como um dos movimentos políticos mais influentes do século: um deputado e um canal de WhatsApp, multiplicados por fandoms de artistas que nunca haviam se metido em eleição alguma, virando modelo de mobilização copiado da França à Argentina em menos de uma semana. “Fazer o L” já circulava como gesto de campanha — mas, depois de outubro, ele carrega outra coisa: a ideia de que a onda de direita que varria o continente podia, sim, ser enfrentada com organização popular, e não só com dinheiro de campanha ou decisão de tribunal. O modelo que avançava sobre a América Latina não foi derrotado em 25 de outubro — mas foi, pela primeira vez em muito tempo, ofuscado. E talvez, por conta disso, as democracias da região ainda respirem aliviadas por mais uma década.

Não foi só Lula contra Flávio. Foi o Brasil que tem terras raras contra quem queria vendê-las rápido demais; foi a floresta em pé contra quem já planejava invadi-la; foi um mercado que apostou no cavalo errado e agora cobra a conta de quem perdeu, não de quem ganhou. O resultado de 25 de outubro não resolve nada disso de uma vez — mas, pela primeira vez em muito tempo, o país que dizia “sim” a tudo que vinha de fora disse, nas urnas, que ainda quer decidir por conta própria o que fazer com o que é seu.


🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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