Poder & Bastidores

Mauro Mendes é alvo de PF em operação que chega a Rondônia

Ex-governador de Mato Grosso é o principal alvo de ação com 25 mandados em quatro estados; acordo com a Oi, validado pela Justiça estadual em 2025, teria desviado recursos via fundos de investimento do Banco Master

Mauro Mendes é alvo de PF em operação que chega a Rondônia
📷 Ex-governador Mauro Mendes e deputado Fábio Garcia
📋 Em resumo
  • A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (6) operação com 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará
  • O principal alvo é o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), investigado por suposto desvio de R$ 308 milhões de um acordo entre o governo de MT e a Oi
  • O STF autorizou o bloqueio e a indisponibilidade de bens de até R$ 316 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados
  • Também são alvos o deputado federal Fábio Garcia (União), vice na chapa de reeleição do governador Otaviano Pivetta, além de secretários, um desembargador e um procurador do estado
  • O acordo com a Oi foi firmado em abril de 2024 para encerrar uma disputa tributária que se arrastava desde 2009; a dívida original era de R$ 690 milhões
  • A Justiça de Mato Grosso validou o acordo em agosto de 2025, mas o ex-governador Pedro Taques (PSB) denunciou irregularidades no caminho do dinheiro
  • Por que isso importa: A operação atinge o coração da política de Mato Grosso a 70 dias das eleições, com o principal aliado de Mendes na chapa majoritária e o próprio ex-governador disputando uma vaga ao Senado
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (6) uma operação de grande alcance que tem como principal alvo o ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União Brasil). Ao todo, são cumpridos 25 mandados de busca e apreensão nos estados de Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que também decretou o bloqueio e a indisponibilidade de bens de até R$ 316 milhões e a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

A investigação apura indícios de que um acordo financeiro firmado entre o governo de Mato Grosso e a operadora de telefonia Oi S.A. teria sido utilizado para desviar recursos públicos por meio de uma estrutura composta por fundos de investimento em cascata e empresas interpostas. O objetivo, segundo os investigadores, seria ocultar a origem, a movimentação e o destino do dinheiro. Os fatos podem configurar, em tese, crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.

"Há indícios de que a operação financeira tenha sido utilizada para viabilizar o desvio de recursos públicos superiores a R$ 308 milhões, por meio de uma estrutura composta por fundos de investimento em cascata e empresas interpostas."

O acordo com a Oi: de R$ 690 milhões a R$ 308 milhões em 15 anos de disputa

O ponto de partida da investigação é um acordo firmado em 10 de abril de 2024 entre a Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso (PGE-MT) e a Oi S.A. A transação encerrou uma disputa judicial que se arrastava desde 2009, quando o estado bloqueou recursos da empresa por cobrança indevida de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Na época, a dívida do estado com a operadora era de R$ 690 milhões, mas o valor foi renegociado para R$ 308 milhões.

Em agosto de 2025, o juiz Yale Sabo Mendes, do Núcleo de Execuções Fiscais de Cuiabá, validou o acordo e determinou o arquivamento da execução fiscal. Na decisão, o magistrado registrou que "a ciência confirmada pelo Administrador Judicial e a concordância expressa do Estado de Mato Grosso corroboram a plena eficácia do acordo".

O problema, segundo investigadores, não está na validade do acordo em si, mas no caminho que o dinheiro percorreu depois dele.

📱
Receba as apurações no seu WhatsAppÉ um canal, não um grupo: só o Painel Político publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.
Entrar no canalou assine por R$19/mês

Os fundos do Banco Master e a denúncia de Pedro Taques

De maio a outubro de 2024, o governo de Mauro Mendes depositou os R$ 308 milhões em dois fundos de investimento recém-criados pelo Banco Master: R$ 154 milhões no fundo Lotte Word e a outra metade no fundo Royal Capital. Os dois fundos haviam sido constituídos em 22 de fevereiro de 2024 — menos de dois meses antes do acordo com a Oi.

Do Lotte e do Royal, o dinheiro foi investido em outros fundos que, segundo denúncia do ex-governador Pedro Taques (PSB) protocolada no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e na PGR, apontam para empresas e pessoas próximas de Mauro Mendes.

Taques, que é pré-candidato ao Senado e rival político de Mendes, levou o caso à CPI do Crime Organizado do Senado em março de 2026. Na ocasião, ele afirmou que os fundos de investimento são uma "Disneylândia para lavagem de dinheiro", em que o dinheiro é repassado entre uma cadeia de fundos até chegar ao verdadeiro dono. "Esse terceiro entrou em acordo com o estado, que depositou [o valor] em dois fundos constituídos, geridos e administrados pelo Banco Master: Royal Capital e Lotte Word. E [o dinheiro] chega em empresas beneficiárias do filho, da esposa e de aliados do governador de Mato Grosso", disse Taques.

O governo de Mauro Mendes, por sua vez, nega irregularidades. Em nota de fevereiro de 2026, afirmou que "o acordo conduzido pela PGE ocorreu de forma correta, legal e com vantagem para o estado, evitando o bloqueio das contas" e que "eventuais fatos ocorridos após o pagamento estão exclusivamente na área privada e não têm qualquer vínculo com o estado".

Os alvos da operação: de Mauro Mendes a Fábio Garcia

Além de Mauro Mendes, a operação atinge o núcleo duro da política mato-grossense. Entre os alvos estão o deputado federal Fábio Garcia (União), indicado a vice-governador na chapa de reeleição do governador Otaviano Pivetta — convenção que confirmou a chapa ocorreu ontem (5), um dia antes da operação.

Também são investigados secretários de estado, um desembargador e um procurador — nomes que, até o fechamento desta reportagem, não haviam sido oficialmente divulgados. A abrangência geográfica dos mandados — Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará — indica que a PF mapeou uma rede de movimentação financeira e empresarial que extrapola as fronteiras do estado.

Mauro Mendes, procurado pela reportagem, afirmou em nota que "confia nas investigações da Polícia Federal e irá contribuir com tudo que for requerido. Aguarda com naturalidade o desdobramento da investigação, pois acredita que o caso será totalmente esclarecido".

Senado e governo de Mato Grosso em jogo

A operação não poderia ter timing mais delicado. A 70 dias das eleições, Mauro Mendes é pré-candidato ao Senado por Mato Grosso — cargo que disputa contra justamente Pedro Taques, autor da denúncia que deu origem à investigação. A filiação de Taques ao PSB, a pedido do vice-presidente Geraldo Alckmin, e a articulação de Mendes com o União Brasil transformaram a disputa ao Senado em um dos embates mais acirrados do estado.

No governo do estado, a situação é igualmente sensível. Fábio Garcia, vice de Pivetta, é um dos principais aliados políticos de Mendes e havia sido defendido enfaticamente pelo ex-governador para compor a chapa. A operação que atinge Garcia a um dia da convenção que o oficializou como candidato cria um problema de imagem imediato para a reeleição de Pivetta.

O caso também não é o primeiro em que Mauro Mendes enfrenta investigação federal. Em junho de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu investigação contra o ex-governador por supostas fraudes em crédito consignado envolvendo o Banco Master — o mesmo banco que criou os fundos Lotte Word e Royal Capital.

"O acordo conduzido pela PGE ocorreu de forma correta, legal e com vantagem para o estado, evitando o bloqueio das contas."

A estrutura do desvio: fundos em cascata e empresas interpostas

Segundo as investigações, o mecanismo do suposto desvio funcionaria assim: a Oi, detentora do crédito tributário contra o estado, teria cedido o direito de receber o valor a um terceiro — fato atestado, segundo o governo, pelo administrador judicial e pela Vara da Recuperação Judicial da Oi. Esse terceiro, porém, teria firmado o acordo com o estado e indicado os fundos do Banco Master como destinatários do pagamento.

Do Lotte Word e do Royal Capital, o dinheiro teria sido direcionado a outros fundos e, deles, para empresas ligadas a parentes e aliados de Mauro Mendes. A estrutura em cascata — típica de operações de lavagem de dinheiro — teria como função dificultar o rastreamento patrimonial e criar camadas de distanciamento entre o recurso público original e seu destino final.

A PF, em nota sobre a operação, não detalhou nomes nem valores individualizados, mas confirmou que a apuração continua e que "outras infrações penais poderão ser identificadas no decorrer das investigações".

A operação contra Mauro Mendes é, antes de qualquer coisa, um teste de maturidade institucional. Se as suspeitas se confirmarem, o caso será um dos maiores desvios de recursos públicos por via de acordo tributário da história recente de Mato Grosso — e um exemplo clássico de como fundos de investimento, quando mal fiscalizados, podem se transformar em esteiras de lavagem de dinheiro. Se as suspeitas não se confirmarem, a operação será mais um capítulo da guerra política entre Mendes e Taques, travada nos tribunais e agora nas urnas.

Mas há um fato incontornável: o STF autorizou 25 mandados, a quebra de sigilos e o bloqueio de R$ 316 milhões em bens. Isso não é uma denúncia de campanha — é uma decisão judicial fundamentada em indícios. E o timing, a 70 dias da eleição, não é coincidência: é a Justiça Federal mostrando que, neste ano, a política mato-grossense não terá trégua nem no gabinete, nem no Senado, nem na praia de Balneário Camboriú, onde Mauro Mendes, segundo relatos de fevereiro, já havia ido "conversar com ministros" do STF.

A pergunta que o eleitor de Mato Grosso precisa fazer é simples: se R$ 308 milhões de um acordo tributário podem sumir em fundos de investimento, quanto mais pode sumir no orçamento de um estado que, em 2024, pagou R$ 308 milhões para encerrar uma disputa que começou em 2009? A resposta, como sempre, estará nos autos — se alguém tiver paciência para ler 25 mandados de busca e apreensão.


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #PolicieFederal #corrupcao #Investigacao #Rondonia