Morte de 36 bebês em hospital paulista é investigada pela Polícia Civil
Polícia Civil de São Paulo instaura inquérito após relatos de infecções hospitalares e choque séptico; advogada afirma reunir contato de 36 mães que perderam filhos na unidade
📋 Em resumo ▾
- O 8º Distrito Policial (Brás) instaurou inquérito para investigar mortes de bebês por sepse e infecções no Hospital Salvalus, zona leste de São Paulo.
- Embora a delegacia apure formalmente seis casos iniciais, 16 certidões de óbito foram reunidas e a defesa das famílias afirma haver 36 relatos.
- Boletins de ocorrência detalham necrose de membros por medicação intravenosa, hemorragias e infecção de sistema nervoso por superbactéria.
- A operadora Hapvida sustenta em nota que os pacientes apresentavam quadros graves prévios e que receberam assistência multidisciplinar contínua.
- Por que isso importa: O inquérito põe à prova os protocolos de controle microbiológico em unidades pediátricas de grande fluxo da saúde suplementar no país.
A Polícia Civil do Estado de São Paulo instaurou um inquérito criminal para apurar a cadeia de acontecimentos que levou à morte de uma série de bebês ao longo do ano nas dependências do Hospital Salvalus, situado no bairro da Mooca, zona leste da capital. A unidade integra a rede assistencial da operadora privada de saúde Hapvida.
As representações formais dão conta de que as crianças teriam sido acometidas por infecções cruzadas no ambiente hospitalar, evoluindo para quadros de sepse, choque séptico, pneumonia e outras complicações clínicas severas. O 8º Distrito Policial (Brás) apura inicialmente seis registros formais, mas documentos atestam ao menos 16 certidões de óbito emitidas com diagnósticos semelhantes. A advogada Eduarda Fragnan Gomes, que representa familiares das vítimas, afirma manter contato direto com 36 mães que perderam seus filhos na instituição durante os últimos meses.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), as comunicações das mortes foram encaminhadas formalmente à autoridade policial na quarta-feira (21). O órgão estadual informou que as diligências incluem oitivas com equipes médicas, de enfermagem e testemunhas, além da análise pericial integral de todos os prontuários médicos para averiguar se houve falha terapêutica ou quebra de protocolos sanitários.
Procedimentos intravenosos, necrose e paradas cardiorrespiratórias
Os relatos registrados em boletins de ocorrência descrevem quadros clínicos com deterioração súbita e atípica. Em abril deste ano, o bebê Gael França da Silva, de apenas 4 meses, deu entrada no pronto-socorro pediátrico com inflamação de garganta. Segundo a mãe, a criança recebeu alta inicial com prescrição de analgésicos e antibióticos sem a realização de exames complementares imediatos.
Com a piora no dia seguinte, marcada por palidez e queda de temperatura, exames de sangue confirmaram uma infecção em curso, resultando na transferência do bebê para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e intubação. Devido a dificuldades para localização de acessos venosos periféricos, a equipe administrou medicação por via intravenosa no pé da criança. Dias depois, o membro sofreu processo irreversível de necrose. Gael permaneceu internado até falecer aos 7 meses, tendo como causas atestadas choque séptico, sepse, pneumonia e encefalopatia hipóxico-isquêmica.
Outro registro investigado envolve o recém-nascido Guilherme Ferreira Miranda, internado com um mês de vida para tratamento de atresia de vias biliares. Após intervenção cirúrgica e uso de medicamentos, o bebê apresentou espasmos nas pernas e inchaço corporal generalizado. Durante o período de cuidados intensivos, sofreu paradas cardiorrespiratórias sucessivas e hemorragias que se manifestaram por orifícios corporais momentos antes do óbito, diagnosticado como choque e coagulação intravascular disseminada.
"Pra todos os efeitos, na rede [Hapvida] o Salvalus é o hospital referência. Então, todos os casos vão para lá. Por isso, a gente não tem noção da profundidade da quantidade de óbitos."
— Eduarda Fragnan Gomes, advogada que representa os pais das vítimas.
Contaminação neurológica e resistência bacteriana
A apuração alcança ainda o caso de Alice Vitória de Andrade Reis, que deu entrada na unidade em novembro com seis meses de vida para a implantação de gastrostomia (GTT) destinada à alimentação enteral. Embora portadora de condições neurológicas crônicas (como hidrocefalia e síndrome de Dandy-Walker) e cardiopatia congênita, o quadro era estável no momento da internação.
Durante a permanência de seis meses no ambiente hospitalar, a criança sofreu deiscência da sutura cirúrgica e, no terceiro mês, apresentou quadro de infecção bacteriana no cérebro (ventriculite infecciosa). Familiares alegam que o quadro foi agravado pela contaminação por bactérias multirresistentes a antibióticos hospitalares convencionais (KPC). Alice faleceu aos 12 meses de vida.
A defesa técnica e os limites da investigação penal
Do ponto de vista jurídico, a apuração do 8º DP tramita na fase de inquérito policial, com objetivo de identificar a materialidade e a eventual existência de nexo de causalidade entre as condutas médicas e os resultados lesivos. A complexidade do caso reside na distinção técnica, exigida pelos laudos do Instituto Médico Legal (IML) e pelas comissões de controle de infecção hospitalar (CCIH), entre a progressão natural de patologias congênitas de base e a infecção evitável por contaminação externa ou imperícia.
Em nota oficial, a rede Hapvida argumentou que os pacientes citados apresentavam quadros clínicos de partida com elevada gravidade e complexidade intrínseca. A operadora enfatizou que todas as condutas terapêuticas adotadas pela equipe do Hospital Salvalus foram individualizadas, contínuas e conduzidas por corpo clínico multidisciplinar em estrutura desenhada para alta complexidade. A instituição informou manter canais permanentes de acolhimento e interlocução com os familiares, reiterando o respeito ao sigilo médico e à privacidade dos envolvidos.
O caso sob apuração na zona leste de São Paulo traz à tona um dos aspectos mais críticos da gestão hospitalar: a biossegurança em alas de terapia intensiva pediátrica. Restará à perícia técnica do Estado delimitar onde a fatalidade clínica encontrou seus limites e onde começam os deveres de responsabilização institucional pela integridade de pacientes em extrema vulnerabilidade.
Versão em áudio disponível no topo do post.