Nunes Marques assume presidência do TSE com eleições de 2026 no horizonte
Novo comando da Justiça Eleitoral terá como prioridade fiscalizar o uso de inteligência artificial na campanha e garantir a integridade do pleito de outubro
📋 Em resumo ▾
- Kassio Nunes Marques assume a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (12), em cerimônia marcada para as 19h em Brasília
- O ministro André Mendonça será o vice-presidente; ambos foram indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro
- O principal desafio da nova gestão é fazer cumprir as regras que limitam o uso de inteligência artificial e combatem a desinformação nas Eleições Gerais de 2026
- Por que isso importa: com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a atuação do TSE será decisiva para garantir a lisura do processo eleitoral em um cenário de polarização e avanço de tecnologias de manipulação de conteúdo
O ministro Kassio Nunes Marques (STF) assume nesta terça-feira (12) a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável por organizar e fiscalizar as Eleições Gerais de outubro, que definirão os ocupantes dos cargos de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. A posse, marcada para as 19h no plenário do edifício-sede do TSE, em Brasília, marca o início de uma gestão que terá pela frente o complexo desafio de aplicar, em tempo real, as novas regras que limitam o uso de inteligência artificial na campanha eleitoral.
O que está em jogo nas eleições de 2026
O pleito de 2026 ocorre em um contexto de intensas transformações no ecossistema digital. Pela primeira vez, a Justiça Eleitoral conta com um marco regulatório específico para conteúdo sintético gerado por inteligência artificial. Entre as proibições aprovadas pelo TSE em março estão a divulgação de deepfakes sem rotulagem explícita, a recomendação algorítmica de candidatos por chatbots e a circulação de novos conteúdos sintéticos nas 72 horas anteriores ao início da votação.
"A Justiça Eleitoral não pecará pelo excesso, tampouco pela inação", afirmou Nunes Marques, então vice-presidente e relator das resoluções, ao defender o equilíbrio entre liberdade de expressão e segurança do processo democrático.
A norma também estabelece responsabilidade solidária das plataformas digitais pela remoção imediata de conteúdo que viole as regras, mesmo sem nova ordem judicial específica. A medida busca agilizar a resposta da Justiça Eleitoral a eventuais tentativas de interferência na livre escolha do eleitor.
Perfil e trajetória do novo presidente
Natural de Teresina (PI), Kassio Nunes Marques tem 53 anos e integra o Supremo Tribunal Federal desde 2020, quando foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ocupar a vaga deixada por Celso de Mello. Antes de chegar à Suprema Corte, construiu carreira na magistratura federal como desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), sediado em Brasília, e atuou como juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI). Também exerceu a advocacia por cerca de 15 anos.
A sucessão na presidência do TSE segue o critério de antiguidade entre os ministros do STF que compõem a Corte Eleitoral. Nunes Marques substitui a ministra Cármen Lúcia, que comandou o tribunal nos últimos dois anos e encerrou seu mandato antecipadamente para dedicar-se a outras atribuições no Supremo.
Composição e dinâmica institucional do TSE
O Tribunal Superior Eleitoral é composto por sete ministros titulares: três oriundos do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois advogados de notável saber jurídico, indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado Federal. Os respectivos substitutos integram o plenário nas ausências dos titulares.
Com a posse de Nunes Marques e André Mendonça na vice-presidência, o TSE passa a contar, simultaneamente, com dois ministros indicados por Bolsonaro em seus cargos de direção — uma configuração inédita que pode influenciar a percepção pública sobre a neutralidade da Corte em um ano eleitoral polarizado.
Regras de IA: o que muda na prática
As novas normas aprovadas pelo TSE estabelecem limites claros para o uso de tecnologias de inteligência artificial na campanha:
- É proibido divulgar conteúdo sintético (imagem, áudio ou vídeo gerado ou alterado por IA) sem identificação visível e permanente de sua origem artificial;
- Chatbots e sistemas de recomendação não podem sugerir candidatos ou partidos aos usuários durante o período eleitoral;
- Nas 72 horas anteriores ao início da votação e nas 24 horas seguintes, fica vedada a circulação de qualquer novo conteúdo sintético que modifique imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo que rotulado;
- Provedores de aplicação que não removerem conteúdo ilegal após notificação poderão ser responsabilizados solidariamente;
- É vedada a criação ou promoção de alterações em material audiovisual que contenha cena de sexo, nudez ou pornografia com fins de violência política, especialmente contra mulheres.
A fiscalização dessas regras exigirá do TSE capacidade técnica e agilidade processual sem precedentes. A Corte contará com equipes especializadas em monitoramento digital e parcerias com plataformas para identificação rápida de violações.
O que esperar da gestão Nunes Marques
A nova administração do TSE terá como eixos prioritários: a organização logística das eleições, o reforço à segurança das urnas eletrônicas, o combate à desinformação e o aprimoramento da transparência institucional. Em discurso proferido após sua eleição para a presidência, Nunes Marques destacou que a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro depende da capacidade da Justiça Eleitoral de agir com "equilíbrio, firmeza e previsibilidade".
Analistas observam que o tom adotado pelo novo presidente será crucial para manter a confiança de diferentes setores da sociedade no processo eleitoral. Em um cenário de polarização política e desconfiança institucional, a atuação do TSE será observada de perto por partidos, candidatos, imprensa e eleitores.
Contexto nacional e repercussão
Embora o TSE atue em âmbito nacional, decisões da Corte frequentemente repercutem em disputas locais e regionais. A aplicação uniforme das regras de IA, por exemplo, afetará campanhas em todos os estados, do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Por outro lado, questões específicas de determinados territórios — como a participação proporcional de candidatos indígenas no fundo partidário e no tempo de propaganda gratuita, também regulamentada nas novas resoluções — exigirão sensibilidade do tribunal para conciliar normas gerais com realidades diversas.
Um encerramento que provoca
A posse de Nunes Marques na presidência do TSE não é apenas uma troca de comando administrativo. É o início de um teste de estresse para a democracia brasileira em sua intersecção com a tecnologia. Se as regras aprovadas forem aplicadas com rigor e imparcialidade, poderão servir de modelo para outras democracias que enfrentam os mesmos dilemas. Se falharem, o custo será medido não apenas em votos, mas em confiança.
A pergunta que fica não é se o TSE terá poder para intervir — tem. É se terá tempo, precisão e legitimidade para fazê-lo antes que a desinformação molde a percepção do eleitor. Em outubro, a resposta virá nas urnas. E nos bastidores, a história estará sendo escrita agora.
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