Operação Unha e Carne: listas com 25 políticos ligam bicheiro à Alerj
PF cumpre mandados contra Adilsinho, Bacellar e Poncio; documentos achados em mala apontam repasses a políticos, incluindo ex-governador Cláudio Castro
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- A Polícia Federal deflagrou a 5ª fase da Operação Unha e Carne, mirando o bicheiro Adilsinho, o ex-deputado Rodrigo Bacellar e o pastor Márcio Poncio.
- Investigação se baseia em listas com 25 nomes de políticos encontradas em mala de couro, apontando repasses mensais e lavagem de dinheiro.
- Ex-governador Cláudio Castro (PL) e outros agentes públicos são citados em documentos que detalham a "contabilidade" da Máfia do Cigarro.
- O ministro Alexandre de Moraes autorizou o sequestro de R$ 22 milhões e novas prisões no âmbito da ADPF das Favelas.
- Por que isso importa: O caso revela que a contravenção no Rio não opera apenas na ilegalidade, mas mantém uma folha de pagamento estruturada dentro das instituições democráticas
A Polícia Federal (PF) deflagrou na manhã desta quinta-feira (2) a quinta fase da Operação Unha e Carne, aprofundando o cerco sobre a simbiose entre a contravenção penal e o poder público no Rio de Janeiro. Os alvos centrais desta ofensiva são o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar e o empresário do tabaco Márcio Poncio.
A operação não é apenas mais um capítulo de prisões; é a materialização de uma "contabilidade paralela" que a PF conseguiu decifrar. No centro das investigações estão listas manuscritas e planilhas que detalham repasses financeiros a pelo menos 25 agentes políticos, evidenciando que a Máfia do Cigarro não atua na margem do sistema, mas como um financiador estrutural dele.
A mala de couro e os 25 nomes do esquema
A prova material que sustenta a atual fase foi obtida ainda em novembro de 2022, durante a Operação Smoke Free, mas sua análise ganhou contornos explosivos agora. Em um dos endereços de Adilsinho, agentes da PF localizaram uma mala de couro na cabeceira da cama do bicheiro. Dentro dela, não havia apenas dinheiro, mas a "agenda" do crime: listas com os nomes de 25 políticos.
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Segundo a investigação, esses documentos apontam a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais de origem ilícita e contabilidade vinculada à lavagem de capitais. A PF afirma que as listas chamaram a atenção por indicarem "possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro".
Entre os nomes que constam nas anotações está o do ex-governador Cláudio Castro (PL). Embora a PF não tenha confirmado, até a atualização desta reportagem, a identificação formal de todos os 25 citados, a existência de uma folha de pagamento tão extensa sugere um esquema de proteção generalizado, onde a lealdade política era comprada com recursos do contrabando e do jogo.
"Encontrar a contabilidade do crime na cabeceira da cama de um bicheiro é a prova de que a ilegalidade não opera nas sombras; ela tem endereço, agenda e beneficiários conhecidos."
Do "Capo" do cigarro ao pastor do tabaco
A operação mira a cúpula financeira e logística da Máfia do Cigarro. Adilsinho, apontado como um dos principais "capos" do setor no estado, está preso desde fevereiro, mas continuava a operar o esquema de dentro da cadeia, segundo os investigadores. Ele já havia escapado de ofensivas anteriores, demonstrando a capacidade de antecipação que a conexão com agentes públicos lhe proporcionava.
Ao seu lado na lista de alvos está Márcio Poncio, conhecido como o "pastor do cigarro". Patriarca de uma família influente no setor tabagista, Poncio foi preso em sua residência na Barra da Tijuca. A PF investiga suas possíveis ligações com a Máfia do Cigarro, buscando entender como a fachada empresarial e religiosa servia para lavar o dinheiro do contrabando antes de destiná-lo aos cofres políticos.
O STF, a ADPF das Favelas e o sequestro de R$ 22 milhões
As medidas desta quinta-feira foram autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do julgamento da ADPF 635/RJ, conhecida como ADPF das Favelas. A decisão do STF determinou que a PF investigasse a atuação dos principais grupos criminosos no Rio e suas conexões com agentes públicos, rompendo a barreira que antes separava a segurança pública da corrupção institucional.
Além das prisões, Moraes determinou o sequestro de bens e valores até R$ 22 milhões, visando asseguir o ressarcimento de danos aos cofres públicos e o confisco de lucros obtidos ilicitamente. Bacellar, que já estava encarcerado, será transferido para um presídio federal, isolado da rede de contatos que mantinha no sistema prisional comum.
A defesa e o silêncio institucional
A defesa de Adilsinho emitiu nota rechaçando as alegações de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos, afirmando confiar no "Poder Judiciário e no devido processo legal". No entanto, a existência física das listas e o sequestro de valores expressivos colocam a narrativa da defesa em xeque perante a opinião pública.
O silêncio de outros políticos citados nas listas, até o momento, contrasta com a mobilidade financeira do esquema. A operação expõe uma verdade incômoda: a democracia fluminense foi sequestrada não apenas pela violência nas favelas, mas pela corrupção nos gabinetes, onde o voto era trocado por mesadas do contrabando.
"Quando a Polícia Federal precisa confiscar a contabilidade do crime na cabeceira de um bicheiro, fica claro que o Estado falhou em fiscalizar, mas acertou em documentar o colapso."
O fim da impunidade ou apenas o início?
A 5ª fase da Operação Unha e Carne representa um ponto de inflexão. Não se trata mais de prender o operador do jogo do bicho na esquina, mas de desmontar a estrutura corporativa que sustenta o crime organizado no Rio de Janeiro. A conexão entre a Alerj, o mercado do cigarro e a facção criminosa revela um sistema de governança paralelo, onde a lei é apenas uma sugestão e a lealdade é comprada com o lucro do contrabando.
Resta saber se o Judiciário terá fôlego para processar e condenar todos os 25 nomes que, segundo a PF, recebiam mesadas da contravenção. Se a resposta for positiva, o Rio de Janeiro poderá começar a limpar suas instituições. Se a resposta for negativa, as listas encontradas na mala de couro serão apenas mais um documento histórico da impunidade carioca.
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