PF investiga Flávio Bolsonaro, Castro e Ramagem em caso de lavagem
Inquérito sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no STF, apura suposto esquema de lavagem de dinheiro via casas de apostas; investigados negam irregularidades
📋 Em resumo ▾
- Inquérito da Polícia Federal que apura suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz também menciona o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ)
- Investigação apura se o esquema usava casas de apostas esportivas (bets) para ocultar a origem de recursos, e também apura suposto vazamento de informações sigilosas do STJ a Tomaz
- Todos os citados negam irregularidades; Flávio classificou as informações como “fake news”
- PF já fez buscas contra um ex-servidor do STJ suspeito de repassar dados sigilosos ao advogado
- Por que isso importa: o inquérito atinge diretamente um candidato à Presidência da República em período eleitoral e levanta suspeitas sobre uso de estrutura estatal (Loterj) e vazamento de informações de tribunal superior — temas de interesse público direto
A Polícia Federal (PF) apura, em inquérito sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador. A investigação também menciona o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). A informação foi divulgada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO.
É importante esclarecer o estágio processual: trata-se de um inquérito em fase de apuração, sem indiciamento ou denúncia formal contra qualquer um dos citados até o momento. Todas as pessoas mencionadas negam irregularidades.
O que a PF apura sobre Flávio Bolsonaro
A investigação busca apurar se Flávio atuou ao lado de Tomaz em um suposto esquema de lavagem de dinheiro que teria usado casas de apostas esportivas para ocultar a origem de recursos. O inquérito também apura um suposto vazamento de informações sobre processos em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao advogado.
Procurado, Flávio negou qualquer irregularidade:
“A única relação entre ele e Willer Tomaz é de amizade”, e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidades a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação.” “Da mesma forma, o senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz e nenhuma de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa”
O senador também classificou as informações divulgadas como “fake news”.
Como o ex-governador Cláudio Castro aparece no inquérito
Castro surge no inquérito por uma relação apontada pela PF entre ele e Willer Tomaz, identificada a partir de mensagens extraídas do celular do advogado — obtidas após quebra de sigilo telemático autorizada na investigação. A conexão envolve a empresa Rede Loto, primeira casa de apostas esportivas credenciada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para operar no mercado de apostas online, credenciamento que ocorreu durante o governo de Castro. À época, a Loterj era comandada por Hazenclever Lopes, que, segundo a PF, já atuou em processos ao lado de Tomaz.
Na representação enviada ao STF, a PF afirmou que os dados obtidos demonstram que Tomaz mantinha relações próximas com agentes públicos e políticos, destacando especificamente o contexto envolvendo Hazenclever Lopes, a Loterj e as empresas Pixs/Riopag — que, segundo a PF, seriam ligadas a Willer:
“Parte dessas relações aparece acompanhada de elementos econômicos ou operacionais concretos, como viagens, acessos bancários, pagamentos, vínculos profissionais e participação em empresas ou contratos públicos, merecendo especial destaque o contexto envolvendo Hazenclever Lopes, Loterj e Pixs/Riopag”
A Riopag foi a empresa que venceu uma licitação no Rio de Janeiro para operar os pagamentos de sites de apostas licenciados pela Loterj.
Em nota, Castro afirmou conhecer Willer Tomaz desde 2020 e manter com ele uma relação de amizade, confirmando que o advogado chegou a atuar gratuitamente na defesa dele em alguns processos em razão desse vínculo pessoal. O ex-governador negou, no entanto, ter qualquer conhecimento prévio sobre os vínculos de Tomaz com a Pixs/Riopag à época da contratação pela Loterj:
“Não tinha conhecimento de qualquer vínculo de Willer com a PIXS/Riopag à época da contratação pela Loterj, nem da relação profissional ou pessoal entre o advogado e Hazenclever Lopes. Também desconhecia eventual custeio de viagens do então presidente da autarquia”
Castro ainda explicou que a indicação de Hazenclever para a presidência da Loterj partiu do PL, e que a autarquia tem gestão própria:
“Hazenclever foi uma indicação política do PL para a presidência da Loterj. A autarquia possui gestão própria, e Castro não participou da licitação, da contratação da PIXS/Riopag nem de qualquer tratativa envolvendo Willer e a empresa”
O que a PF apura sobre Alexandre Ramagem
Segundo informações da Folha de S. Paulo, a PF investiga um pagamento de R$ 270 mil que teria como beneficiário o ex-deputado Ramagem, repassado por meio de um intermediário. A empresa que recebeu o valor afirma ter prestado serviços ao escritório de Willer Tomaz e que, em 2024, quando Ramagem concorreu à prefeitura do Rio de Janeiro, a banca de advocacia solicitou que a empresa atuasse por três meses na pré-campanha dele. Ramagem não comentou o caso até a publicação desta matéria.
A defesa de Willer Tomaz
Em nota, o advogado Willer Tomaz negou categoricamente ter obtido qualquer acesso irregular a decisões judiciais ou ter interferido em manifestações do Ministério Público Federal:
“O advogado Willer Tomaz nega categoricamente ter tido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou a pareceres do Ministério Público Federal, bem como ter interferido em qualquer manifestação. As insinuações são falsas, configuram desinformação e revelam desconhecimento elementar, ou deliberada distorção, do funcionamento dos tribunais”
Tomaz argumenta ainda que o conhecimento antecipado de julgados não constitui crime, descrevendo-o como uma funcionalidade prevista no próprio sistema da Corte, e questiona a divulgação do inquérito em período eleitoral:
“Tampouco há ilícito quando um procurador, convencido pelos memoriais apresentados, incorpora seus argumentos ao parecer. Isso é contraditório, e converter rotina processual em suspeita é criminalizar a advocacia. A defesa desconhece o relatório citado e repudia sua divulgação seletiva, em plena campanha eleitoral, com menções a terceiros alheios aos fatos investigados. Ilegal, este sim, é o vazamento de material sigiloso, cujos autores serão identificados e responsabilizados”
A origem da investigação
O inquérito é um desdobramento de uma apuração anterior da PF no Rio Grande do Sul sobre suspeitos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas esportivas. Nessa apuração original, policiais encontraram indícios de que Tomaz controla a Rede Loto, casa de apostas que obteve autorização do governo do Rio de Janeiro para operar em maio de 2023.
A partir dessas informações, agentes da PF pediram e obtiveram a quebra de sigilo telemático do advogado, o que deu acesso a mensagens, e-mails e outras informações de seu celular. Foi essa análise que levou a PF a encontrar vínculos com Flávio Bolsonaro, motivo pelo qual a investigação foi enviada ao STF, corte com prerrogativa de foro sobre parlamentares.
O suposto vazamento de informações do STJ
Na mesma investigação, a PF identificou indícios de que o escritório de Tomaz teria tido acesso antecipado a minutas de decisões do STJ e a pareceres do Ministério Público Federal. Em alguns casos, segundo a apuração, o escritório teria recebido previamente informações sobre o resultado de julgamentos e, a partir disso, alterado sua estratégia processual.
Na última segunda-feira (19), a PF realizou buscas contra Humberto Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ, suspeito de repassar informações sobre processos em tramitação na Corte a Tomaz. É importante frisar: trata-se de suspeita em apuração, sem indiciamento formal divulgado até o momento.
Pradera foi exonerado do STJ na última sexta-feira (16). Antes da exoneração, o presidente do tribunal, ministro Luis Felipe Salomão, já havia determinado a abertura de um procedimento interno para apurar as suspeitas envolvendo o servidor. Entre os elementos identificados pelos investigadores estão dados sobre demandas internas da Corte e até uma fotografia de um documento exibido na tela de um computador.
O inquérito reúne, portanto, duas frentes distintas sob a mesma relatoria no STF: de um lado, a suspeita de lavagem de dinheiro via apostas esportivas com ramificações políticas que vão de um ex-governador a um candidato à Presidência; de outro, a suspeita de vazamento de informações sigilosas de dentro do próprio Judiciário. Nenhum dos citados foi indiciado ou denunciado até a publicação desta matéria, e todos negam irregularidades — o desfecho da apuração, e eventuais desdobramentos penais, dependem agora das próximas etapas da investigação conduzida sob supervisão do STF.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.