Promotor do Amapá é demitido por compra de votos para campanha do irmão
Julgamento unânime do Conselho Nacional do Ministério Público afasta promotor João Paulo Furlan por suposta participação em esquema de compra de votos para beneficiar a campanha do irmão, Dr. Furlan (PSD), que lidera as pesquisas para o governo do Amapá
📋 Em resumo ▾
- O CNMP decidiu por 11 votos a 0 pela demissão do promotor João Paulo Furlan, do MP-AP
- Ele é acusado de participar de esquema de compra de votos nas eleições de 2020 para beneficiar o irmão, Dr. Furlan
- O promotor estava afastado desde janeiro de 2026 e chegou a presidir a associação da categoria mesmo sob investigação
- Dr. Furlan (PSD) lidera as pesquisas para o governo do Amapá com mais de 65% das intenções de voto
- Por que isso importa: A demissão de um membro da família que domina a política amapaense coloca em xeque a narrativa de gestão íntegra de uma das principais candidaturas do estado
O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) decidiu por unanimidade — 11 votos a 0 —, nesta quinta-feira (6), pela demissão do promotor de Justiça João Paulo de Oliveira Furlan, membro do Ministério Público do Amapá (MP-AP). A pena máxima disciplinar foi aplicada após a conclusão de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que investigava sua suposta participação em um esquema de corrupção eleitoral nas eleições municipais de 2020. O promotor é irmão do ex-prefeito de Macapá e atual candidato ao governo do Amapá, Dr. Furlan (PSD), que lidera com folga todas as pesquisas eleitorais para o cargo.
Como a PF ligou o promotor ao esquema de compra de votos
As investigações da Polícia Federal (PF) apontaram que o esquema de compra de votos no segundo turno das eleições de 2020 em Macapá teria operado por meio da distribuição de cestas básicas, abastecimento de combustível e pagamentos em dinheiro que variavam entre R$ 10, R$ 20 e R$ 100.
A peça-chave das investigações foi o celular de Gleison Fonseca da Silva, motorista identificado como responsável por distribuir dinheiro e material de campanha de Dr. Furlan perto de uma zona eleitoral. Nas mensagens interceptadas pela PF, João Paulo Furlan aparece orientando a entrega de cestas básicas: "Entrega 13 (cestas básicas) para ela, tá, que ela vai pegar contigo. Vou te mandar o número dela", teria escrito o promotor.
O Ministério Público Eleitoral do Amapá denunciou 14 pessoas pelo esquema, incluindo o então candidato a prefeito e seu irmão promotor. O documento da Procuradoria aponta que os denunciados "associaram-se para constituir, promover, financiar e integrar organização criminosa, estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, com o objetivo de obter vantagem em pleito eleitoral mediante o cometimento de crimes eleitorais".
O afastamento, a reabertura do caso e a aceleração do julgamento
João Paulo Furlan estava afastado das funções desde o início de 2026, quando o corregedor-geral do CNMP, Ângelo Fabiano Costa, decretou a medida cautelar por 60 dias. O afastamento proibia o acesso do promotor ao prédio e aos sistemas do Ministério Público.
O caso, segundo o próprio Furlan, havia sido arquivado pelo CNMP em 2022. No entanto, foi reaberto em ano eleitoral. O promotor questionou ainda a antecipação do julgamento para poucos dias após a oficialização da candidatura de Dr. Furlan ao governo do estado — e da esposa dele, Rayssa Furlan (Podemos), ao Senado.
"O conselheiro indicado pelo Senado, Gustavo Sabóia, suscitou questão de ordem para determinar que o PAD fosse julgado na sessão seguinte, embora ainda houvesse diligências pendentes. Em quatro meses de atuação, essa foi a segunda questão de ordem apresentada por ele, e ambas ocorreram exclusivamente no meu PAD."
— João Paulo Furlan, promotor de Justiça demitido
Mesmo afastado, João Paulo Furlan chegou a assumir a presidência da associação que representa a categoria no estado — uma contradição aparente entre a restrição funcional imposta pelo CNMP e a atuação associativa.
A eleição no Amapá e o peso do "clã Furlan"
A demissão do promotor não é um evento isolado. Ela ocorre no momento em que a família Furlan consolida o domínio político no Amapá. Dr. Furlan, eleito prefeito de Macapá em 2020 com 55,67% dos votos válidos no segundo turno, renunciou ao mandato em 2026 dentro do prazo legal para disputar o governo do estado.
Pesquisas de intenção de voto divulgadas em julho de 2026 mostram Dr. Furlan com 65,5% a 66% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 26,3% a 30% do atual governador Clécio Luís (União Brasil). No Senado, Rayssa Furlan lidera com 32% a 60% das intenções, dependendo do cenário testado.
"Porém, confio que o julgamento final observará exclusivamente as provas, o devido processo legal e a imparcialidade que se espera do CNMP."
— João Paulo Furlan, em nota antes da decisão
O que a demissão muda na campanha eleitoral
A decisão do CNMP transforma João Paulo Furlan no primeiro promotor de Justiça do MP-AP a ser demitido pelo conselho. Mas o impacto político vai além da esfera disciplinar.
Dr. Furlan já é alvo de outras investigações. A PF realizou operações que apontaram a existência de uma "milícia digital" ligada ao ex-prefeito, e perfis associados foram derrubados pela Justiça. A demissão do irmão reforça uma narrativa de proximidade com práticas eleitorais irregulares que a campanha de Clécio Luís certamente explorará nos próximos 58 dias de campanha oficial.
Do ponto de vista jurídico, a decisão do CNMP não atinge diretamente a candidatura de Dr. Furlan. O TSE já manteve a condenação do governador Clécio Luís por abuso de poder econômico em campanha anterior — o que não o impediu de concorrer. Mas a imagem de uma família cujo membro foi demitido por unanimidade por corrupção eleitoral é um ativo que a oposição não deixará de usar.
A sessão de julgamento foi fechada por força do sigilo do processo. O que se sabe é que o colegiado entendeu que as condutas atribuídas a João Paulo Furlan são incompatíveis com o exercício do cargo e aplicou a pena máxima.
A pergunta que fica no ar é: se um promotor de Justiça — guardião da lei — foi demitido por participar de um esquema eleitoral, que garantias têm os eleitores amapaenses de que as próximas eleições serão diferentes? O voto, afinal, não se compra com cesta básica. Mas a memória do eleitor, em outubro, dirá se isso ainda pesa.
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