Rota bioceânica: Lebrinha admite vergonha com atraso em Costa Marques
Deputada reconhece pressão de lideranças bolivianas enquanto estado avança pouco em infraestrutura fronteiriça; empresários temem perda de protagonismo regional
📋 Em resumo ▾
- Gislaine Lebrinha admite constrangimento com cobranças bolivianas sobre infraestrutura em Costa Marques
- Bolívia já executa obras de preparação logística enquanto Rondônia ainda discute prioridades
- BR-429, eixo central da rota, tem recuperação anunciada após 16 anos de atrasos
- Setor produtivo pressiona por ações concretas além de discursos protocolares
- Por que isso importa: a janela de oportunidade para inserção de Rondônia no corredor bioceânico pode se fechar se o estado não acelerar investimentos estruturantes
A deputada estadual Gislaine Lebrinha (União Brasil) admitiu, em bastidores, constrangimento com a lentidão do Governo de Rondônia em avançar na infraestrutura da fronteira com a Bolívia. A fala ocorre em momento de pressão crescente de lideranças bolivianas e empresários que veem na rota bioceânica uma oportunidade concreta de integração logística rumo ao Pacífico.
Bolívia acelera enquanto Rondônia ainda planeja
Nos bastidores da política do Vale do Guaporé, cresce o desgaste em torno da postura de representantes rondonienses diante da assimetria na preparação para a integração bioceânica. Lideranças do Departamento do Beni, na Bolívia, têm cobrado publicamente avanços estruturais do lado brasileiro, especialmente em Costa Marques, ponto estratégico de conexão internacional.
"Eu confesso que já estou até com vergonha de receber novamente o presidente boliviano e as lideranças do Beni, porque eles cobram o tempo todo o que Rondônia tem feito do lado brasileiro para essa integração acontecer"
A fala atribuída à deputada revela um clima de pressão que ultrapassa o protocolo diplomático. Enquanto Rondônia debate prioridades internas, a Bolívia já iniciou trabalhos de encascalhamento e preparação das rodovias que compõem o corredor internacional ligando o Beni à fronteira brasileira.
Empresários de Rondônia, Mato Grosso e do próprio território boliviano passaram a enxergar o eixo da BR-429 como alternativa logística concreta para exportações futuras. A possibilidade de criar uma saída estratégica ao Pacífico, sem depender integralmente dos corredores tradicionais da Cordilheira dos Andes, atrai investimentos e expectativas.
BR-429: a espinha dorsal que ainda espera por obras
A rodovia federal que liga Presidente Médici a Costa Marques, conhecida como Rodovia da Integração, é peça central do projeto bioceânico. Após mais de 15 anos de atrasos, obras de recuperação e pavimentação de 251,6 quilômetros da BR-429 foram anunciadas com investimento de R$ 273,7 milhões e prazo de execução de cinco anos.
A ordem de serviço foi assinada pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), mas o cronograma ainda está em fase inicial. Para o setor produtivo, a demora entre anúncio e execução representa um risco: a janela de oportunidade para posicionamento logístico não espera processos burocráticos.
A BR-429 desempenha papel estratégico no escoamento da produção agropecuária, especialmente de grãos e pecuária de corte. Sua relevância, no entanto, vai além da logística: é fundamental para a economia regional, para a integração internacional e para o fomento ao turismo na faixa de fronteira.
A contradição política de uma base aliada ao governo
Embora faça discursos defendendo a integração regional e o desenvolvimento da fronteira, Gislaine Lebrinha integra a base política do governador Marcos Rocha. Nos bastidores, lideranças da região avaliam que falta enfrentamento político da parlamentar junto ao próprio governo para transformar o discurso em investimentos efetivos.
A crítica recorrente é de que, apesar das declarações públicas, a deputada não consegue avançar na cobrança concreta por obras estruturantes, modernização logística, recuperação de acessos e fortalecimento da infraestrutura de Costa Marques. A percepção no setor produtivo é de que Rondônia corre o risco de perder protagonismo justamente no momento em que a Bolívia acelera sua preparação para o novo corredor econômico internacional.
"Enquanto a Bolívia executa, Rondônia continua prometendo"
Dentro da Assembleia Legislativa de Rondônia e das discussões ligadas ao FORDETRO (Fórum de Desenvolvimento de Rondônia), cresce o entendimento de que a rota bioceânica deixou de ser apenas uma pauta regional. Passou a representar uma oportunidade histórica de transformação econômica para o Vale do Guaporé.
O que está em jogo para o Vale do Guaporé
O sentimento entre empresários e lideranças políticas é de que chegou o momento de abandonar discursos protocolares e iniciar pressão política real para que o Governo do Estado coloque a região entre suas prioridades estratégicas. A integração continental não é mais tratada apenas como projeto futuro — é uma corrida logística em andamento.
Para o leitor nacional, o caso ilustra um desafio recorrente no federalismo brasileiro: estados com potencial geopolítico estratégico muitas vezes travam disputas internas que retardam respostas a oportunidades regionais. Enquanto isso, vizinhos internacionais avançam.
A pergunta que fica não é se a rota bioceânica vai sair do papel — ela já está em movimento. A questão é: quem vai liderar esse fluxo? Se Rondônia não acelerar suas decisões, o protagonismo pode migrar para outras rotas, e o Vale do Guaporé, mais uma vez, assistirá à história passar.
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