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Trump reacende fraude eleitoral, mira China e corta visto de jornalista

Em discurso na Casa Branca, presidente dos EUA culpa Pequim por suposto hackeamento de 220 milhões de registros eleitorais e ataca imprensa que não transmitiu o pronunciamento.

Trump reacende fraude eleitoral, mira China e corta visto de jornalista
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📋 Em resumo
  • Trump discursou em rede nacional na quinta-feira (16/7) e acusou a China de ter hackeado, comprado ou roubado dados de eleitores em 18 estados americanos, sem apresentar provas (Terra/AFP).
  • No mesmo dia, o Department of Homeland Security anunciou corte do visto de jornalistas estrangeiros para 240 dias e, para chineses, para apenas 90 dias (Washington Times, Al Jazeera).
  • Levantamento de inteligência de 2021, supervisionado pelo hoje diretor da CIA John Ratcliffe, não encontrou indício de que agente estrangeiro tenha alterado qualquer aspecto técnico da eleição de 2020 (Terra/AFP).
  • O discurso ocorreu horas após pesquisa Washington Post-ABC-Ipsos mostrar aprovação de Trump em 37%, a mais baixa do mandato, com 62% de reprovação (ABC News/Washington Post/Ipsos).
  • Por que isso importa: a combinação de acusações infundadas contra o sistema eleitoral com restrições à imprensa estrangeira alimenta temores de um novo capítulo de contestação de resultado nas eleições legislativas de novembro.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou um pronunciamento em horário nobre na noite de quinta-feira (16/7), na Sala Leste da Casa Branca, para reviver acusações de fraude eleitoral e apontar a China como responsável por um suposto ataque à integridade do voto americano. Trump alegou que dados de eleitores em 18 estados foram comprados, roubados ou hackeados pela China e anunciou a desclassificação de centenas de documentos de inteligência para sustentar suas acusações, apesar de os serviços de inteligência americanos não terem encontrado nenhuma prova de interferência chinesa.

Segundo o presidente, "a partir da eleição de 2020, a China conduziu o que parece ser a maior operação de invasão de dados eleitorais da história, resultando na obtenção ilegal de 220 milhões de registros de eleitores americanos por parte da China". O detalhe omitido no discurso: nos Estados Unidos, essas informações são públicas, embora muitas vezes sejam pagas.

O que dizem os próprios serviços de inteligência dos EUA

A tese central do discurso contraria avaliação da própria comunidade de inteligência americana. Uma investigação dos serviços de inteligência americanos em 2021 não revelou qualquer indício de que um ator estrangeiro tenha tentado ou conseguido alterar "qualquer aspecto técnico" da eleição presidencial de 2020, seja no registro de eleitores, nas cédulas, na apuração dos votos ou nos resultados — avaliação realizada sob supervisão de John Ratcliffe, então diretor de Inteligência Nacional no primeiro governo Trump e atual diretor da CIA.

A BBC ainda apurou que um relatório da comunidade de inteligência americana concluiu em 2021, com "elevado grau de confiança", que a China não interferiu na eleição presidencial de 2020. Documentos revelados mais recentemente mostram que o FBI se opôs, no fim de 2020, à inclusão de alegações sem comprovação sobre uma suposta interferência deliberada da China nas eleições em um relatório oficial.

Também o ex-procurador-geral do próprio Trump em seu primeiro mandato, William Barr, havia concluído à época que não havia evidência significativa de fraude generalizada em 2020 — suas conclusões, junto a auditorias e revisões anteriores, contradizem as novas alegações do presidente.

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Ataque às emissoras que não transmitiram o discurso

Duas das maiores redes de TV do país decidiram não exibir o pronunciamento ao vivo. Diante do caráter controverso dos anúncios esperados, várias grandes redes de televisão decidiram não transmitir o discurso ao vivo — em resposta, Trump defendeu a retirada das licenças de transmissão dessas emissoras.

Em publicação nas redes sociais, o presidente foi direto:

"Decisão rara: NBC e ABC disseram que não transmitiriam este discurso. (...) Porque sabem o quanto nosso sistema é corrupto e não querem revelar isso. Elas, assim como outros meios de comunicação, fazem parte de uma conspiração. Querem dar continuidade a essa fraude. (...) Uma fraude como essa deveria resultar na retirada de suas licenças" "Decisão rara: NBC e ABC disseram que não transmitiriam este discurso. (...) Porque sabem o quanto nosso sistema é corrupto e não querem revelar isso. Elas, assim como outros meios de comunicação, fazem parte de uma conspiração. Querem dar continuidade a essa fraude. (...) Uma fraude como essa deveria resultar na retirada de suas licenças", atacou.

O senador democrata Chuck Schumer (líder da minoria no Senado) respondeu nas redes: "Nos Estados Unidos, são os eleitores que escolhem seus líderes, e não o contrário". Segundo a análise da agência France-Presse, ao multiplicar acusações sem apresentar provas, Trump reacende dúvidas já existentes em parte da sociedade americana sobre a confiabilidade do sistema eleitoral.

Vistos de jornalistas estrangeiros cortados no mesmo dia

Horas antes do discurso, o Department of Homeland Security (DHS) anunciou uma mudança que atinge diretamente a cobertura da imprensa internacional nos EUA. A administração Trump anunciou que reduzirá drasticamente os vistos de jornalistas estrangeiros nos EUA para 240 dias — ante um período que antes chegava a anos — e cortará os de jornalistas chineses para apenas 90 dias, levantando preocupações sobre liberdade de imprensa e retaliação contra jornalistas americanos no exterior.

A regra final acaba com o sistema de "duração de status", que permitia a jornalistas estrangeiros permanecer e trabalhar nos EUA enquanto atendessem aos requisitos de elegibilidade — substituído agora por um período fixo, embora os vistos possam ser renovados. A norma entra em vigor 60 dias após publicação no Federal Register; o Congresso pode rejeitar a regra, mas isso é extremamente raro.

A entidade internacional Repórteres Sem Fronteiras reagiu em nota: "Estamos indignados que a administração Trump tenha limitado cruelmente a duração dos vistos de jornalistas estrangeiros de um período de até cinco anos para um período fixo de oito meses".

Não é a primeira tentativa. O primeiro governo Trump já havia buscado mudar as regras de visto em 2020, mas a proposta foi retirada em 2021 quando o presidente Joe Biden assumiu o cargo. Em números absolutos, o impacto pode ser expressivo: o Departamento de Segurança Interna informou que os EUA admitiram mais de 500 mil visitantes de intercâmbio e cerca de 37,3 mil jornalistas estrangeiros durante o ano fiscal de 2024.

A medida se soma a um cerco mais amplo à imigração legal. Em junho, o Departamento de Estado informou que havia revogado mais de 100 mil vistos desde que Trump retornou ao cargo no ano anterior, incluindo 8 mil de estudantes — muitos revogados por causa de ativismo político.

Aprovação em queda antes das eleições de novembro

O discurso ocorreu em meio à pior fase de popularidade do presidente no atual mandato. Foi feito na Casa Branca após a divulgação de uma nova pesquisa realizada pelo Washington Post e pelo instituto Ipsos, que indicou que seu índice de aprovação havia caído para 37%, com muitos eleitores demonstrando pessimismo em relação ao custo de vida e à guerra em curso com o Irã.

Dados mais amplos do mesmo levantamento reforçam o cenário: a aprovação de Trump caiu para 37%, a mais baixa deste mandato, e sua reprovação de 62% é recorde nos dois mandatos — o país está dividido em praticamente todos os temas avaliados, e a vantagem democrata nas legislativas de meio de mandato subiu ligeiramente para 5 pontos. Pesquisa separada do instituto YouGov em parceria com a revista The Economist, realizada entre 10 e 13 de julho, mostra aprovação de Trump em 37%, com 59% de reprovação.

O cenário é agravado pela desmobilização da própria base republicana: Trump perdeu entusiasmo entre correligionários republicanos, fonte central de seu poder por mais de uma década — o que compromete as esperanças do partido de manter o controle do Congresso nas eleições de novembro.

Um padrão que já dura seis anos

As alegações de fraude não surgiram do nada. Trump renovou sua campanha para lançar dúvida sobre as eleições americanas na quinta-feira, desclassificando inteligência que, segundo ele, expôs fraude e interferência estrangeira, apesar de descobertas de inteligência e estudos independentes que desmentem várias de suas alegações — o presidente afirmou que as eleições de 2020 foram "manipuladas" mais de 100 vezes só no primeiro semestre de 2026.

Essas alegações alimentam a pressão pela chamada SAVE America Act, projeto que impõe exigências rígidas de identificação a eleitores e busca maior intervenção federal em eleições — já aprovado várias vezes pela Câmara controlada pelos republicanos, mas sem os 60 votos necessários para superar obstrução no Senado, também de maioria republicana.

Estudos independentes contradizem a premissa da lei: pesquisas independentes constataram que o voto de não cidadãos é raro — o Bipartisan Policy Center apurou que, quando estados buscaram verificar a elegibilidade de seus eleitores, apenas 0,04% dos casos foram identificados como de não cidadãos. Ainda assim, vários estados republicanos entregaram voluntariamente dados privados de eleitores ao governo Trump na tentativa de identificar supostos não cidadãos nas listas — enquanto o governo perdeu 15 processos que buscavam obrigar outros estados, majoritariamente democratas, a entregar esses dados, segundo o site especializado Democracy Docket.

Pesquisa Reuters/Ipsos de abril já havia flagrado o efeito da retórica presidencial na opinião pública: 63% dos republicanos acreditam na alegação falsa de Trump de que a eleição de 2020 foi roubada dele — percentual que se mantém praticamente estável nos últimos anos, apesar da ausência de provas — ante apenas 9% dos democratas e 21% dos independentes. Para a diretora de pesquisa do States United Democracy Center, Kelly Rader,

"as pessoas estão respondendo a essas alegações, particularmente os republicanos, porque estão ouvindo os líderes em quem confiam, e isso está criando essa vulnerabilidade nas pessoas para acreditar em mentiras sobre a eleição".

O episódio mais recente antes do discurso de quinta-feira envolveu as primárias da Califórnia em junho, quando Trump chamou a primária de "manipulada" em entrevista à emissora NBC, apontando o ritmo da contagem e a perda de posições de candidatos republicanos à medida que as cédulas por correio eram contadas — questionado sobre provas, respondeu apenas: "Tudo que eu tenho que fazer é olhar".

O que vem pela frente

Especialistas em direito eleitoral divergem sobre os limites reais do poder presidencial diante de um resultado desfavorável em novembro. Especialistas em eleições concordam amplamente que o presidente não pode cancelar ou reverter diretamente eleições — autoridades estaduais e locais afirmam que realizarão as eleições que são legalmente obrigadas a conduzir, e os especialistas identificam as ameaças reais como caos, disputas jurídicas e desconfiança após a votação.

O cenário mais crítico, segundo o ex-secretário de Estado do Arizona Stephen Richer, seria uma intervenção direta de agências federais sobre a apuração:

"O mais significativo para mim seria se a aplicação da lei federal — DOJ, FBI, DHS, DNI etc. — confiscasse materiais [como cédulas ou equipamentos de apuração] de um escritório eleitoral durante a eleição, antes que todos os votos fossem tabulados e certificados".

Com aprovação em baixa histórica, maioria republicana no Congresso sob risco e um discurso que mistura acusação a Pequim, ataque à imprensa e desconfiança nas urnas, a pergunta que resta é até onde a Casa Branca irá caso o resultado de novembro repita o cenário de reprovação registrado nas pesquisas.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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