Painel Econômico

Apex Partners: como Fernando Cinelli construiu (e perdeu) um império

Tutela cautelar de 60 dias suspende cobranças enquanto gestora capixaba de quase R$ 1 bi em ativos enfrenta dívida de R$ 985,6 milhões e acusação de gestão temerária contra seu fundador

Apex Partners: como Fernando Cinelli construiu (e perdeu) um império
📷 Apex Partners
📋 Em resumo
  • Fernando Antonio Kulnig Cinelli, 36 anos, fundador da Apex Partners, foi afastado da presidência e do conselho em 6 de agosto após investigação interna
  • A gestora capixaba acumula dívida bruta de R$ 985,6 milhões e obteve tutela cautelar de 60 dias para suspender execuções e proteger patrimônio
  • A empresa acusa Cinelli de "gestão temerária e má-fé" e pediu bloqueio de bens do executivo na Justiça
  • A dívida mais que dobrou entre janeiro de 2025 e junho de 2026, saltando de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões
  • O grupo cresceu via aquisições de Carbyne, Stark, Propósito, Potenza e Redoma, além de um condomínio logístico de R$ 118 milhões
  • Por que isso importa: O caso expõe o risco de contagio em gestoras regionais que cresceram acelerado via compras e alavancagem, colocando em xeque o modelo de expansão por M&A no mercado de capitais brasileiro
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O Tribunal de Justiça do Espírito Santo concedeu à Apex Partners uma tutela cautelar de 60 dias que suspende a execução de dívidas e garantias contra o grupo, revelando ao mercado uma crise de proporções inéditas para uma gestora capixaba. No centro do turbilhão está Fernando Antonio Kulnig Cinelli, 36 anos, fundador da empresa, afastado da presidência e do conselho de administração em 6 de agosto após uma investigação interna que apontou "inconsistências financeiras" próximas a R$ 1 bilhão. A Apex, que chegou a administrar cerca de R$ 17 bilhões em ativos, agora luta para evitar que o caso se transforme em uma recuperação judicial — ou algo pior.

A decisão judicial blinda temporariamente o patrimônio da empresa enquanto uma auditoria externa analisa a situação financeira. O prazo de 60 dias serve para que o grupo levante ativos, passivos e compromissos, com a Justiça também determinando prazos para a apresentação de um eventual pedido de recuperação judicial e para a produção de um laudo sobre as condições operacionais. A empresa, porém, nega que a medida represente recuperação judicial.

Quem é Fernando Cinelli, o fundador afastado

Fernando Cinelli começou a trabalhar aos 18 anos na construtora e incorporadora do pai, no Espírito Santo, antes de fundar a Apex Partners em 2013. Ao longo da trajetória, integrou o Instituto Líderes do Amanhã — organização da qual chegou à presidência em 2017 — e, desde 2021, faz parte do conselho do IBEF Espírito Santo. No currículo, constam estudos na Harvard Business School entre 2018 e 2020 e um certificado de Board of Directors obtido em 2024, segundo informações do LinkedIn.

A Apex começou como gestora de recursos no Espírito Santo e ampliou sua atuação para gestão de recursos, assessoria, banco de investimento e análise de investimentos. Em 2022, Cinelli anunciou uma operação de R$ 118 milhões para desenvolver um condomínio logístico de 36 mil metros quadrados de área bruta locável na Serra, no Espírito Santo, um dos principais projetos logísticos do estado.

O crescimento acelerado veio via aquisições: a Apex incorporou a Carbyne Investimentos, a Stark Investment Banking, a Propósito (Rio Grande do Sul), a Potenza Investimentos e a Redoma Capital (São Paulo).

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Enquanto comprava empresas em quatro estados, a dívida da Apex mais que dobrou.

Como a dívida chegou a quase R$ 1 bilhão

Os números da crise são contundentes. A dívida bruta da Apex Partners chega a R$ 985,6 milhões, segundo a decisão judicial. A dívida líquida saltou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026 — mais que o dobro em menos de 18 meses.

A estrutura de passivos é complexa. Foram emitidos R$ 452,1 milhões em debêntures com ações da própria Apex como lastro, além de uma dívida bancária de R$ 201,7 milhões.

A investigação interna que levou ao afastamento de Cinelli e do diretor financeiro Eduardo Siqueira apontou "inconsistências financeiras" ainda sob apuração. A Apex informou que pretende buscar responsabilização de Cinelli na Justiça por suposta gestão temerária e má-fé, além de ter pedido preventivamente o bloqueio de bens do executivo.

A defesa de Cinelli e a tutela cautelar

Por meio de nota, a defesa de Fernando Cinelli afirmou que o empresário "está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas", demonstrando "disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade".

A tutela cautelar concedida pela Justiça de Vitória suspende, por 60 dias, a execução de dívidas e garantias contra as empresas do grupo. A medida tem caráter preventivo e busca garantir a continuidade das operações enquanto a auditoria externa produz seus resultados.

A Apex nega que a medida configure recuperação judicial. Em comunicado, a empresa afirmou que a tutela "serve para proteger as operações enquanto uma auditoria externa analisa a situação financeira".

A tutela cautelar blinda a Apex por 60 dias. A pergunta é se esse prazo será suficiente para evitar o colapso.

O risco de contágio e o modelo de expansão por aquisições

O caso da Apex Partners não é apenas uma crise corporativa isolada. Ele expõe um padrão de crescimento comum entre gestoras regionais que buscaram escala rápida via fusões e aquisições: comprar boutiques de investimento, integrar equipes, aumentar o AUM (assets under management) e, com isso, alavancar operações. O problema é quando a dívida cresce mais rápido que a receita, e a governança corporativa não acompanha o tamanho do grupo.

A Apex comprou empresas em quatro estados — São Paulo, Rio Grande do Sul, além do Espírito Santo — e diversificou para logística imobiliária, wealth management e investment banking. Mas a dívida, como mostram os números, acompanhou o ritmo das compras. A falta de transparência sobre as "inconsistências financeiras" apontadas pela própria empresa gera incerteza sobre se o problema é de governança, de valuation ou de fraude.

O mercado de capitais brasileiro, ainda em recuperação após anos de juros altos, não tolera bem surpresas desse tipo. Investidores de debêntures, fundos de private equity e clientes de wealth management estão de olho no desfecho. Se a auditoria confirmar desvios graves, o precedente pode afetar outras gestoras regionais que usaram o mesmo modelo de crescimento.

O que vem por aí

Os próximos 60 dias serão decisivos. A Apex precisa apresentar à Justiça um diagnóstico completo de sua situação financeira, além de um plano de reestruturação que convença credores e investidores de que o grupo é viável. Se o laudo apontar inviabilidade, o caminho natural será a recuperação judicial — ou, no pior cenário, a falência.

Para Fernando Cinelli, o risco é duplo: civil e criminal. A acusação de gestão temerária e má-fé, se comprovada, pode resultar em condenação por danos ao patrimônio societário e até em responsabilização criminal. O bloqueio de bens, se deferido, limitará sua capacidade de movimentar recursos pessoais.

A história de um jovem empresário que saiu da construtora do pai para construir um império de quase R$ 1 bi em ativos em pouco mais de uma década pode estar chegando a um capítulo que ele não previu. A pergunta que o mercado faz, agora, é simples: se uma gestora com R$ 17 bilhões sob administração não conseguiu enxergar seu próprio rombo, quem garante que outras não estão no mesmo caminho?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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