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Apex Partners tem tutela cautelar de 60 dias após rombo de R$ 985 milhões

Justiça de Vitória suspende execuções contra a gestora capixaba dona de 15,5% da CVC; grupo terá até 30 dias para pedir recuperação judicial formal.

Apex Partners tem tutela cautelar de 60 dias após rombo de R$ 985 milhões
📷 reprodução
📋 Em resumo
  • Juiz Marcos Pereira Sanches concedeu tutela cautelar antecedente que protege 178 empresas do Grupo Apex Partners contra execuções, penhoras e bloqueio de caixa por 60 dias.
  • Passivo líquido consolidado saltou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para até R$ 985,6 milhões em junho de 2026, segundo dados apresentados pela própria empresa à Justiça.
  • Crise já provocou o afastamento do fundador Fernando Cinelli e do diretor financeiro Eduardo Siqueira, além do rompimento de contrato do BTG Pactual com a gestora.
  • Rombo é atribuído a uma operação batizada de "Master Capixaba", ligada à compra de ações da CVC com garantia de rendimento mínimo de 100% do CDI.
  • Por que isso importa: o caso reabre o debate sobre supervisão de plataformas de investimento fora do perímetro bancário regulado, um ano após a crise do Banco Master.
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O Grupo Apex Partners, gestora de investimentos sediada no Espírito Santo, obteve na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória uma tutela cautelar antecedente que suspende por 60 dias a execução de suas dívidas. A decisão suspende execuções visando a proteger o patrimônio de 178 companhias envolvidas diante de um montante de dívidas que chega a R$ 975 milhões. A liminar foi concedida pelo juiz Marcos Pereira Sanches, titular da vara, na sexta-feira (7/8).

Na análise inicial do caso, o magistrado considerou demonstrada a existência de R$ 975 milhões em passivo líquido consolidado e entendeu que uma corrida de credores poderia comprometer a continuidade dos negócios. Segundo a petição apresentada pela própria Apex, assinada pelo escritório Finamore Simoni Advogados, o endividamento apurado em caráter preliminar, com data-base de 30 de junho de 2026 e sujeito a reconciliação contábil, alcança aproximadamente R$ 985,6 milhões.

O que a decisão determina

A tutela cautelar suspende temporariamente ações de cobrança, execuções, penhoras, arrestos e bloqueios de bens das empresas abrangidas pela medida. O grupo pediu a suspensão, por 60 dias, da exigibilidade de todas as suas obrigações financeiras, além da suspensão de execuções, da proibição de protestos e do bloqueio de travas bancárias.

Como contrapartida, a decisão estabelece que as empresas apresentem em 30 dias pedido de recuperação judicial, sob pena de perda imediata da eficácia da medida cautelar. Foi estabelecida também a nomeação de uma administradora judicial para realizar uma perícia técnica e verificar as condições operacionais do conglomerado.

A própria petição é explícita sobre o que não pede.

"Não se pede, aqui, recuperação judicial", afirma o documento protocolado pela Apex, segundo o qual o objetivo é apenas obter "tempo protegido" para que uma diligência contábil-financeira conclua o levantamento da situação patrimonial do grupo.

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Da aposta na CVC ao apelido "Master Capixaba"

A gestora ganhou notoriedade nacional ao se tornar uma das principais acionistas da CVC, com cerca de 15% do capital da agência de viagens que enfrenta uma grave crise financeira. O rombo que agora ameaça a Apex está diretamente ligado a essa aposta: o rombo estimado por fontes de mercado varia entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão, oriundo de uma garantia que prometia rendimento mínimo de 100% do CDI na compra de ações da CVC.

A queda de mais de 30% nas ações da CVC desde o início de 2026 tornou inviável o cumprimento dessa garantia, considerada por agentes do mercado uma promessa de risco zero improvável para um ativo de renda variável. No mercado local, o episódio ganhou o apelido de "Master Capixaba" — referência ao Banco Master, cujo controlador Daniel Vorcaro foi preso em 2025 no âmbito de outra crise de crédito privado. No Espírito Santo, a companhia é conhecida por ser representada por filhos de dois políticos influentes, o atual e o ex-governador do estado, o que reforçou a repercussão do apelido.

Afastamento de executivos e ruptura com o BTG

A crise se tornou pública em 6 de agosto, quando a decisão ocorre em meio à crise aberta após a identificação de inconsistências financeiras e o afastamento do presidente e fundador, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, bem como do diretor financeiro, Eduardo Siqueira. Em nota, a empresa afirmou que uma auditoria externa seria contratada para aprofundar a apuração e identificar as circunstâncias que levaram às inconsistências encontradas, com previsão de responsabilização dos envolvidos.

No dia seguinte ao afastamento, o BTG Pactual decidiu rescindir o contrato de distribuição que mantinha com a Apex, ressaltando que nunca foi sócio da gestora, e que a relação entre as instituições era comercial, vinculada à distribuição de produtos e serviços financeiros. Paralelamente, o banco informou aos cotistas, em fato relevante, o fechamento da classe do fundo BRM Carbyne Crédito Estruturado para resgates, veículo com patrimônio líquido de R$ 160,5 milhões e 909 cotistas, gerido pela Carbyne, gestora ligada à Apex.

Dívida nova sem ativo por trás

Os documentos apresentados à Justiça mostram a velocidade da deterioração. A dívida líquida consolidada do grupo passou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026, avanço registrado ao longo de 18 meses. Apenas no primeiro semestre deste ano, a empresa contraiu R$ 300 milhões em dívida nova, sendo que 58% desse volume não teve formação de ativo correspondente — ou seja, mais da metade do endividamento adicional não tinha contrapartida capaz de sustentá-lo.

Para analistas do mercado de crédito privado ouvidos pela imprensa especializada, o padrão é o ponto mais sensível do caso:

"Quando mais da metade da dívida nova não tem ativo correspondente, o problema deixa de ser de liquidez pontual e passa a ser estrutural."

A petição também revela outros passivos: a Apex registra R$ 35,2 milhões em tributos correntes em atraso, e há uma concentração de pedidos de resgate — entre 12 de agosto e 30 de setembro, estão previstos aproximadamente R$ 78,2 milhões em solicitações relacionadas a fundos regulados. O documento cita ainda a possibilidade de renúncia do Banco Daycoval à função de administrador fiduciário de um fundo considerado relevante para o grupo, e alerta que contratos financeiros do grupo possuem cláusulas que permitem o vencimento antecipado das obrigações quando ocorre mudança no controle ou na administração — risco direto após a saída de Cinelli e Siqueira.

Os ativos por trás do grupo

A estrutura da Apex combina, segundo a própria petição, gestão de fundos, participações societárias e produtos de crédito distribuídos a investidores qualificados no Espírito Santo e em outras praças. Entre os ativos citados no processo estão o Apex Malls FII (APXM11), que detém 15,82% do Shopping Vitória, e o controle acionário, via o fundo ABMPar, da Fucape Business School, uma das instituições de ensino de referência no estado.

O que vem a seguir

A empresa tem agora um cronograma judicial apertado: 60 dias de proteção contra execuções, 30 dias para protocolar o pedido formal de recuperação judicial e um prazo adicional para que a perícia técnica avalie as condições reais de operação do grupo. Até lá, credores — entre eles a securitizadora Rhino, que emitiu debêntures ligadas à Apex — aguardam a conclusão da auditoria externa contratada pela própria gestora.

O desfecho vai depender de um número que ainda não está fechado: quanto dos ativos do grupo — do Shopping Vitória à Fucape, passando pela fatia na CVC — é realmente capaz de cobrir um passivo que, em pouco mais de um ano, mais que dobrou.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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