Coluna - Entre dragas explodidas e bets proibidas, a frase da semana: menos aposta, mais comida
Garimpeiros cobram de autoridades estaduais uma solução, mas a competência é do Congresso e da União; menos bets, mais comida — a frase da semana
📋 Em resumo ▾
- Ibama intensificou operações de destruição de dragas, maquinários e pistas de pouso em garimpos ilegais de Rondônia e Amazonas, em vídeos que viralizaram nas redes
- Operação Nêmesis, em Porto Velho, inutilizou mais de 100 dragas e equipamentos entre 27 e 30 de outubro, avaliados em milhões de reais cada
- A medida tem amparo legal no art. 111 do Decreto nº 6.514/2008, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (9.605/1998)
- Estados não têm competência para alterar essa legislação — a decisão cabe ao Congresso Nacional, que enfrenta resistência de ambientalistas e lideranças indígenas
- Rondônia também lidera o ranking nacional de mortes de trabalhadores sem-terra, e a proibição das bets já mostra efeito colateral no crescimento do varejo alimentar
- Por que isso importa: o impasse entre fiscalização ambiental e o impacto social sobre famílias que vivem do garimpo não tem solução à vista — a legislação federal que autoriza a destruição dos equipamentos é sólida e não deve mudar, enquanto o problema de fundo (reforma agrária, regularização fundiária, alternativa econômica para garimpeiros) segue sem resposta do Congresso.
Ibama explodindo
Nos últimos dias, nas redes sociais, pipocaram vídeos com imagens de operações do Ibama, em que agentes explodem dragas, maquinários, pistas de pouso e veículos apreendidos durante ações contra garimpos ilegais e desmatamentos. Alguns vídeos chegam a ter mais de 1 milhão de visualizações, e a grande maioria dos comentários são de elogio à atuação do órgão. Se de um lado muitos comemoram, de outro lamentam — principalmente familiares de empregados de dragas e famílias que vivem dessas atividades.
Ponto de equilíbrio
O mais difícil nesse tipo de situação é encontrar o chamado “meio-termo”, agradar os dois lados dessa “guerra verde”. Um dos problemas mais graves gerados pelo garimpo é o despejo de mercúrio nos rios e regiões de onde se extrai o ouro, além do cenário de devastação que fica após a saída dos garimpeiros. Outro é a questão social: muitas famílias, convencidas de que é uma boa ideia, sacrificam as economias para montar dragas e maquinários que, nas operações, são destruídos — sem nenhuma chance de recuperar o bem.
Grande problema
Rondônia e Amazonas são as regiões diretamente afetadas por esses garimpos, e os eleitores, claro, cobram de deputados e autoridades uma solução. E não tem. Cabe ao Congresso Nacional discutir o tema, que enfrenta forte resistência de ambientalistas, lideranças indígenas e da sociedade de modo geral. Cobrar de deputados estaduais uma solução é gastar latim à toa: os estados não têm autonomia para legislar sobre questões dessa natureza, e quem disser que podem está bem equivocado (ou mal-intencionado).
Rondônia
É um dos estados que mais cobram soluções para essa situação, mas o governo federal e o Congresso deveriam gastar energia e esforços para resolver uma questão ainda mais grave: a reforma agrária e os conflitos no campo. Rondônia concentrou cerca de 80% de todos os assassinatos de trabalhadores sem-terra na última década, 79 ao todo. Só em 2025, o estado registrou 7 assassinatos vinculados a disputas agrárias, dividindo o topo do ranking nacional de letalidade no campo com o Pará (82 mortes no mesmo período).
Já o garimpo e desmatamento
Provocam danos ambientais, em alguns casos irreversíveis, como a contaminação por mercúrio, que entra na cadeia alimentar por conta dos peixes. Cientistas apontam que limpar o mercúrio dos sedimentos profundos e da fauna aquática de bacias amazônicas inteiras é biologicamente impossível com as tecnologias atuais. A lavagem do solo joga toneladas de sedimentos nos rios, soterra cabeceiras, destrói nascentes e muda permanentemente o curso e a dinâmica hidrológica — rios tornam-se rasos, quentes e perdem capacidade de escoamento. O mercúrio usado no garimpo age como neurotoxina silenciosa, afetando de forma desproporcional populações indígenas e ribeirinhas, com sequelas permanentes e tratamento altamente invasivo.
Mas, e aí?
A grande questão é que a legislação não vai mudar. Na Amazônia Legal existem entre 100 e 200 mil garimpeiros ativos, e a atividade não é proibida — é regulamentada. A atividade garimpeira legalizada é regida pela Lei nº 7.805/1989, que criou o regime de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). Para operar legalmente, o garimpeiro individual ou a cooperativa precisa de: autorização de lavra emitida pela Agência Nacional de Mineração (ANM); licença ambiental válida emitida pelo órgão competente (Ibama ou secretarias estaduais); e consentimento do proprietário do solo onde a extração será feita. Como o processo exige estudos de impacto ambiental e demarcação exata das áreas, a imensa maioria das frentes de mineração na Amazônia foge da regularização, operando na ilegalidade total.
Números
No dia 27 de outubro, a Operação Nêmesis, em Porto Velho, inutilizou 72 barcos e equipamentos, além de 17 dragas avaliadas, em média, em pouco mais de R$ 4 milhões cada; no dia 30, foram mais 20 dragas. O Ibama e a Polícia Federal não têm onde abrigar esses equipamentos, e o Decreto nº 6.514, de 2008 — que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) — permite, em seu art. 111, a inutilização do maquinário apreendido quando não há como garantir sua guarda e destinação segura.
Em Brasília
A bancada federal rondoniense, por mais que se esforce, não consegue avançar com as discussões sobre a liberação (ou ao menos a não destruição) dos equipamentos usados pelos garimpeiros. Uma das vozes mais críticas sempre foi a do senador Marcos Rogério, agora governador eleito de Rondônia, que assume o mandato em janeiro. Em 2025, Rogério chegou a cobrar explicações do Ibama e demais autoridades envolvidas nas operações, mas realmente não há muito o que fazer em relação à legislação — ainda mais quando o mundo está de olho na Amazônia.
E as bets?
Durante audiência pública no STF sobre a constitucionalidade da MP que proibiu as bets, Ary Jorge Almeida Soares, da Confederação Nacional do Comércio, defendeu a medida. Segundo ele, R$ 62 bilhões foram perdidos em apostas, recursos que poderiam ser direcionados ao consumo e à geração de empregos. Levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontou que o varejo alimentar cresceu 6,5% entre 5 e 11 de outubro e 6,3% entre 12 e 18 de outubro de 2026, na comparação com os mesmos períodos de 2025. A mudança ocorreu após a edição da Medida Provisória nº 1.394/2026, que suspendeu a operação de apostas de cota fixa e cassinos virtuais no país, gerando forte repercussão política, social e econômica. Defensores da medida — incluindo entidades de defesa do consumidor e órgãos do governo — apontam que o dinheiro que antes ia para plataformas de apostas passou a ser redirecionado para a subsistência das famílias, aliviando o endividamento e reforçando a segurança alimentar. Nesta terça-feira, o ICL colocou no ar um abaixo-assinado que já conta com mais de 1.6 milhão de assinaturas. Mais comida e menos bets é a frase da semana.
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