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Crise na Apex Partners: BTG rompe, fundo trava resgates e dono da CVC é afastado

Gestora capixaba que detém 15,5% da CVC é afastada pelo BTG após inconsistências financeiras em operação bilionária; fundo Carbyne congela R$ 160 milhões de 909 cotistas

Crise na Apex Partners: BTG rompe, fundo trava resgates e dono da CVC é afastado
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • A Apex Partners, gestora capixaba com 15,5% da CVC (CVCB3), identificou "inconsistências financeiras" e afastou seu presidente Fernando Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira
  • O BTG Pactual rompeu o contrato de distribuição e fechou a classe do BRM Carbyne para resgates, congelando R$ 160,5 milhões de 909 cotistas
  • O rombo na operação "Master Capixaba" é estimado entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão, com garantias impossíveis de cumprir após queda de 38% das ações da CVC em 12 meses
  • A CVM foi notificada; a Apex vai processar Cinelli por gestão temerária e má-fé, com pedido de bloqueio de bens
  • Por que isso importa: O caso expõe como uma operação que prometia "risco zero" em renda variável se transformou em uma das maiores crises de gestoras independentes do Brasil
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A Apex Partners, gestora de investimentos sediada no Espírito Santo e detentora de 15,5% das ações da CVC (CVCB3), viu sua estrutura desmoronar em quatro dias. O que começou como uma "apuração interna" de inconsistências financeiras escalou para o afastamento do presidente e do diretor financeiro, o rompimento do contrato de distribuição com o BTG Pactual, o travamento de resgates em um fundo de R$ 160,5 milhões e a renúncia de um conselheiro da maior operadora de turismo da América Latina. O rombo, segundo fontes do mercado, está entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão.

Como a "garantia de risco zero" virou um buraco de até R$ 1 bi

O epicentro da crise é uma operação que o mercado passou a chamar de "Master Capixaba". A Apex Partners, por meio de fundos ligados à gestora — entre eles o BRM Carbyne Crédito Estruturado, administrado pelo BTG Pactual e gerido pela Carbyne —, montou uma estrutura para financiar a compra de ações da CVC.

A promessa era audaciosa: garantia de retorno de 100% do CDI ou o quanto as ações da CVC valorizassem. Ou seja, os investidores teriam o melhor dos dois mundos — a segurança da renda fixa e o upside da renda variável. O problema é que essa estrutura, segundo agentes do mercado, é considerada impossível de ser executada: supõe risco zero em um ativo de renda variável de um setor extremamente volátil.

Desde o início de 2026, as ações da CVC despencaram mais de 30%. Hoje, o papel está cotado a R$ 1,44, com queda de 38,72% nos últimos 12 meses. Com a derrocada do preço, as garantias tornaram-se inviáveis de cumprir.

"Sob a ótica da regulação da CVM, uma vez que toma-se conhecimento desses indícios de irregularidades e descumprimento de normas, não há opção de fazer diferente: a regra exige o distrato imediato."

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— Fonte próxima ao BTG Pactual, ao portal ES Hoje

O BTG Pactual trava resgates e rompe a parceria de 7 anos

Nesta quinta-feira (6), o BTG Pactual, na condição de administrador do BRM Carbyne, enviou fato relevante aos cotistas comunicando o fechamento da classe do fundo para a realização de resgates. A medida, segundo o documento, ocorreu em decorrência da "incompatibilidade entre a liquidez apresentada pela carteira da Classe e o volume de resgates solicitados".

Fato relevante

Fato relevante

O fundo, sob gestão da Carbyne — também ligada ao grupo Apex —, possui 909 cotistas e patrimônio líquido de R$ 160,5 milhões. A suspensão de resgates é a medida mais drástica que um administrador pode adotar e sinaliza que os ativos do fundo não conseguem ser liquidados rapidamente o suficiente para atender aos pedidos de saque.

Em paralelo, o BTG rompeu o contrato de distribuição com a DRM Apex Investimentos, braço de assessoria de investimentos do grupo. A parceria durava sete anos. A decisão do banco, segundo fontes ouvidas pelo portal ES Hoje, foi compulsória após a identificação de indícios de irregularidades e descumprimento de normas da CVM.

A estrutura da DRM Apex contava com R$ 9 bilhões em ativos de clientes na plataforma do BTG. Deste montante, cerca de R$ 4 bilhões a R$ 4,5 bilhões correspondem a investidores do Espírito Santo. A boa notícia: a grande maioria está custodiada em ativos seguros (títulos públicos, por exemplo). O risco se concentra em uma parcela que representa menos de 3% do total — aproximadamente R$ 300 milhões — alocada em fundos geridos internamente pelo grupo Apex.

Cinelli é afastado, renuncia à CVC e a Apex vai à Justiça

A reação da Apex Partners foi rápida. Em nota oficial nas redes sociais, a empresa informou que "lideranças do Partnership" identificaram "inconsistências financeiras na Companhia" e, como medida preventiva, afastaram Fernando Antonio Kulnig Cinelli da presidência da Sociedade e Eduardo Siqueira da diretoria financeira.

A presidência passou a ser exercida interinamente por Marcelo Murad, sócio sênior da companhia com mais de 25 anos de experiência no mercado.

Horas depois, a CVC Corp emitiu comunicado ao mercado informando que Cinelli pediu renúncia do cargo de membro do conselho de administração da companhia. A cadeira ficará vaga até a nomeação do substituto.

A Apex foi além. Informou que vai ajuizar ação de responsabilidade civil e criminal contra Cinelli, buscando sua responsabilização por gestão temerária e má-fé, além do bloqueio preventivo de bens do executivo. Uma auditoria externa e independente está sendo contratada para "dimensionar os impactos das inconsistências identificadas".

Comunicado

Comunicado da Apex

A CVC no meio: ações em queda livre e conselho abalado

A CVC Corp, dona da maior operadora de turismo da América Latina, tenta se desvincular do caso. Em nota, afirmou que a única relação com o episódio é a renúncia de Cinelli do conselho. Mas a realidade é que a gestora que comprou 15,5% de suas ações está sob investigação por uma operação que usou justamente o papel da CVC como ativo-garantia.

A companhia não vive momento fácil. No primeiro trimestre de 2026, registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 63,1 milhões, revertendo lucro de R$ 24 milhões do ano anterior. O consumo de caixa operacional saltou para R$ 121,6 milhões, ante R$ 53,2 milhões no mesmo período de 2025. O Itaú BBA já projeta "mais um ano de prejuízos líquidos em 2026".

As ações, que já chegaram a valer mais de R$ 60 antes da pandemia, hoje negociam a R$ 1,44 — queda de 93% em cinco anos.

O que falta: CVM, Polícia Federal e a pergunta que não quer calar

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foi notificada formalmente do caso. A autarquia ainda não se manifestou publicamente sobre a abertura de processo administrativo, mas a notificação do BTG e a magnitude do rombo tornam a intervenção praticamente inevitável.

A pergunta que investidores, reguladores e o mercado financeiro começam a fazer é: como uma operação que prometia retorno garantido em renda variável foi aprovada, distribuída e vendida para centenas de cotistas sem que ninguém — nem a gestora, nem o administrador, nem a distribuidora — questionasse a viabilidade da estrutura antes do buraco atingir R$ 1 bilhão?

O BTG Pactual, como distribuidor e administrador do fundo Carbyne, tinha o dever de auditar o produto. A rescisão do contrato de distribuição, embora tecnicamente correta do ponto de vista regulatório, ocorre depois que o dano já foi feito. Os 909 cotistas do Carbyne, e os milhares de clientes da Apex, agora dependem de uma auditoria externa e de uma ação judicial para tentar recuperar o que foi perdido.

A pergunta que fica no ar é: se o BTG, um dos maiores bancos de investimento da América Latina, não conseguiu enxergar o risco de uma operação impossível, quem garante que outras "Master Capixabas" não estão sendo vendidas agora, em outras gestoras, com outras ações, para outros investidores que acreditam que existe almoço grátis no mercado financeiro?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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