Delação de Mansur à PGR mira R$ 20 bilhões atribuídos a Vorcaro
Ex-controlador da Reag entregou proposta com 17 anexos e diz poder localizar ativos ocultos do dono do Banco Master. Nada foi assinado nem homologado — são alegações
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- João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente do conselho da Reag Investimentos, apresentou à PGR uma proposta de delação premiada que tem como alvo central Daniel Vorcaro, ex-controlador do liquidado Banco Master.
- Mansur afirma poder indicar onde estariam cerca de R$ 20 bilhões em ativos atribuídos a Vorcaro — não só dinheiro, mas imóveis, direitos creditórios e cotas de fundos.
- Parte estaria em nome de terceiros ("laranjas") e em fundos já investigados pela Polícia Federal, entre eles o Astralo.
- A proposta tem 17 anexos, prevê o pagamento de R$ 40 milhões em multas e está em ajustes finais; se aceita, ainda passa pelo STF.
- Por que isso importa: tudo são alegações de uma delação não homologada — mas, se avançar, pode esvaziar a margem de Vorcaro para negociar o próprio acordo.
João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente do conselho de administração da Reag Investimentos, apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de delação premiada que tem como alvo central Daniel Vorcaro, ex-controlador do liquidado Banco Master. Segundo a proposta, revelada pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, Mansur afirma ter condições de indicar onde estariam cerca de R$ 20 bilhões em ativos atribuídos a Vorcaro e mantidos no Brasil. Vale a ressalva que atravessa toda esta reportagem: são alegações apresentadas numa negociação — o acordo não foi assinado nem homologado.
O que Mansur diz poder entregar
Pelo relato apresentado às autoridades, o patrimônio não seria composto apenas por recursos financeiros. Incluiria também imóveis, direitos creditórios e outros ativos que teriam sido distribuídos por diferentes estruturas. Parte estaria registrada em nome de terceiros — os chamados laranjas — ou vinculada a fundos de investimento, entre eles o Astralo, que já aparece no radar de investigações da Polícia Federal.
A força da alegação, na leitura das reportagens, está na proximidade entre os dois: Mansur foi apontado como um dos parceiros mais ativos do Master nas operações sob apuração, o que lhe daria conhecimento da estrutura patrimonial que agora se propõe a mapear. Um dos exemplos citados nos anexos é o Jaguar Multimarket Fund, registrado nas Ilhas Cayman, para onde o Master teria enviado R$ 494 milhões — formalmente em nome de um terceiro, mas atribuído por Mansur a Vorcaro.
O montante de R$ 20 bilhões, segundo a proposta, não é só dinheiro — inclui imóveis, direitos creditórios e cotas de fundos.
Uma proposta ainda em construção
O documento entregue à PGR reúne 17 anexos e está em fase de ajustes finais antes de uma eventual assinatura. Pela proposta, Mansur também se comprometeria a pagar R$ 40 milhões em multas, valor que as reportagens associam ao que ele teria recebido da Reag. Assinado o acordo com a PGR, a colaboração ainda dependeria de homologação no Supremo Tribunal Federal, onde o caso tem como relator o ministro André Mendonça.
É importante separar os planos. Nesta etapa, as informações de Mansur são alegações no âmbito de uma negociação: caso o acordo avance, os dados terão de ser verificados e confrontados com documentos e com o que já foi reunido nas investigações. Delação não é prova; é ponto de partida que só ganha valor quando corroborada.
A corrida das delações
O avanço da proposta de Mansur ganha peso pelo momento. Na sexta-feira (28), o próprio Vorcaro depôs à PF no inquérito que apura suposta corrupção de servidores do Banco Central; negou o crime e, segundo sua defesa, sinalizou disposição para prestar esclarecimentos mais amplos numa eventual delação — depois de tentativas anteriores que não avançaram.
Aí está o nó. O valor de uma delação depende, entre outros fatores, do ineditismo e da relevância do que se entrega. Se Mansur anteceder à PGR elementos que Vorcaro poderia oferecer, o espaço do banqueiro para negociar o próprio acordo tende a encolher. Mansur e Vorcaro chegaram a discutir uma delação conjunta, quando dividiam o mesmo advogado; agora, com defesas separadas, o ex-sócio joga por conta própria — e pode chegar primeiro.
A ironia da colaboração premiada: ela recompensa quem chega antes. E, desta vez, quem chegou primeiro foi o ex-sócio.
O que fica
Nada disso está decidido. A PGR ainda analisa, o STF ainda não foi acionado, e cada cifra citada — dos R$ 20 bilhões aos R$ 494 milhões do fundo em Cayman — é, por ora, afirmação a comprovar. Mas a movimentação diz algo sobre a lógica desses acordos num dos maiores escândalos financeiros recentes do país: quando dois ex-parceiros disputam a mesma porta de saída, o preço da informação cai para quem hesita. Resta saber se, ao abrir o mapa dos R$ 20 bilhões, Mansur entrega às autoridades um tesouro — ou apenas a promessa de um.
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