HSBC indiciado na França por US$ 330 mi desviados do Líbano
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- A Justiça francesa indiciou formalmente o HSBC Private Bank (Suisse) SA pela suposta lavagem de mais de US$ 330 milhões desviados do banco central do Líbano; o banco depositou € 80 milhões de fiança.
- No centro do caso está Riad Salameh, ex-governador do Banque du Liban por 30 anos, acusado de escoar o dinheiro por uma empresa offshore até um cofre do HSBC em Genebra entre 2002 e 2015.
- O cofre foi herdado pelo HSBC da era Edmond Safra, banqueiro morto em circunstâncias disputadas em 1999, dias antes de o banco comprar sua operação suíça.
- Em agosto de 2026, o caso deu um salto: Salameh voltou à prisão, foi indiciado em um segundo esquema nas Ilhas Cayman e o primeiro banqueiro comercial libanês caiu junto.
- Por que isso importa: o caso testa se um Estado colapsado consegue julgar quem presidiu seu colapso — e se um banco global responde pelo que ocorre dentro do próprio cofre.
O HSBC Private Bank (Suisse) SA, braço suíço de um dos maiores bancos do mundo, foi formalmente indiciado pela Justiça francesa em junho de 2026 sob acusação de lavar mais de US$ 330 milhões desviados do banco central do Líbano. Dois meses depois, o ex-governador no centro do escândalo voltou à prisão em Beirute e um novo esquema, nas Ilhas Cayman, veio à tona — transformando um caso bancário europeu no teste mais grave já feito contra os responsáveis pela ruína financeira libanesa.
Como a Justiça francesa levou o HSBC ao banco dos réus
Na manhã de 4 de junho de 2026, o jornal Le Monde revelou que a filial suíça do HSBC havia sido indiciada pelo Parquet National Financier (PNF), o Ministério Público financeiro da França, no âmbito da suspeita de desvio de mais de US$ 330 milhões do banco central libanês.
A acusação veio depois de dois dias de interrogatório conduzido por juízes de instrução. O HSBC passou a responder por lavagem de dinheiro em quadrilha organizada e por associação para desvio de recursos públicos, abuso de confiança e corrupção de agente público. O banco foi obrigado a depositar € 80 milhões de fiança — cifra que sinaliza a gravidade atribuída ao caso.
É preciso distinguir os termos. No sistema francês, a mise en examen não é condenação: está mais próxima de uma investigação formal aberta com indícios suficientes para acusar e examinar. Ainda assim, para uma instituição do porte do HSBC, o passo é sério — uma condenação criminal pode ser existencial para qualquer grande banco, pelas consequências de licença e acesso a mercado.
A investigação francesa fora aberta em julho de 2021. O que mudou em 2026 foi o desfecho: obrigar um banco global a pagar fiança e se preparar para responder na Justiça.
"Quase vinte alertas foram emitidos pelo próprio departamento de compliance do HSBC. Todos, sem exceção, foram ignorados", afirma a ONG suíça Public Eye, em investigação sobre o caso.
US$ 3,2 trilhões em ativos e uma ficha corrida de uma década
Antes do escândalo, é preciso dimensionar a instituição. Fundado em 3 de março de 1865, em Hong Kong colonial, pelo escocês Thomas Sutherland, o HSBC chega a 2026 com cerca de US$ 3,2 trilhões em ativos, figurando entre os dez maiores bancos do planeta e como o segundo maior da Europa em ativos, segundo o ranking da S&P Global de 2026. São aproximadamente 209 mil funcionários em mais de 55 países.
Para um banco desse porte, o histórico impressiona. Em 2012, o Departamento de Justiça dos EUA revelou que o HSBC permitira a lavagem de pelo menos US$ 881 milhões ligados ao cartel mexicano de Sinaloa — os traficantes chegaram a desenhar caixas de papelão sob medida para caber nos guichês. O banco pagou US$ 1,92 bilhão para evitar o indiciamento.
Em 2015, o escândalo Swiss Leaks mostrou que a filial de Genebra ajudara mais de 100 mil clientes a esconder ativos do Fisco — mais de € 100 bilhões em contas ligadas a ditadores, traficantes de armas e do narcotráfico. Somam-se ainda multas por manipulação do câmbio, o escândalo da LIBOR e violações de sanções envolvendo Irã, Cuba, Sudão, Líbia e Mianmar.
O padrão levanta uma pergunta desconfortável: um banco espalhado por 55 países consegue mesmo enxergar o que se passa em cada uma de suas salas? A matriz em Londres está muito distante de uma relação de private banking em Genebra.
Como o "milagre" libanês escondia uma pirâmide
Para entender o escândalo, é preciso entender o Líbano. Durante boa parte do século XX, Beirute foi a "Paris do Oriente Médio", capital financeira do mundo árabe, com um setor bancário sofisticado e sigiloso que atraía capital de todo o mundo e da vasta diáspora libanesa — incluindo comunidades no Brasil.
Após a guerra civil de 15 anos (1975–1990), o país pareceu ressuscitar. A libra libanesa foi atrelada ao dólar a 1.507,5 por US$ 1 em 1997, os juros dispararam e depósitos estrangeiros inundaram o sistema. Mas o "milagre" repousava sobre uma estrutura de pirâmide.
O mecanismo, apelidado de "engenharia financeira", funcionava assim: o Banque du Liban (BdL), banco central do país, oferecia aos bancos comerciais juros extraordinários — às vezes 20% ou mais — desde que captassem divisas no exterior. Enquanto entrava dinheiro novo, o esquema se sustentava. Os fluxos secaram por volta de 2016. Em 2019, ruiu.
Em março de 2020, o Líbano deu calote em US$ 1,2 bilhão em eurobônus — o primeiro default soberano de sua história. A libra perdeu mais de 98% do valor, os bancos congelaram as contas e limitaram saques a cerca de US$ 400 por mês. O Banco Mundial classificou o episódio como um dos piores colapsos econômicos já registrados.
Riad Salameh
Os 30 anos em que Salameh foi tratado como lenda
Riad Salameh (ex-governador do Banque du Liban) foi por décadas tratado no Líbano quase como lenda viva. Nomeado em 1993 pelo então primeiro-ministro Rafik Hariri — assassinado em atentado a bomba em 2005 —, comandou o banco central por trinta anos consecutivos, até 2023.
Cultivou a imagem de mago das finanças: o homem que sustentou a paridade com o dólar através de guerras e crises. Foi repetidamente apontado pela revista Euromoney entre os melhores banqueiros centrais do mundo e era presença cativa em Davos.
Por trás da imagem, alegam investigadores da Suíça, da França, da Alemanha e do Líbano, havia uma operação sofisticada que se estendeu por mais de uma década.
Como US$ 330 milhões saíram do Líbano entre 2002 e 2015
O mecanismo era simples na estrutura e cuidadoso na dissimulação. Em 2002, foi constituída nas Ilhas Virgens Britânicas (BVI) uma empresa offshore chamada Forry Associates Ltd., cujo beneficiário declarado era Raja Salameh — irmão de Riad. No mesmo ano, Riad assinou, como governador, um contrato concedendo à Forry comissão por intermediar a venda de títulos libaneses aos bancos comerciais.
No papel, um arranjo comercial. Na prática, alega a acusação, um duto. Entre 2002 e 2015, cerca de US$ 330 milhões saíram do banco central por esse arranjo e caíram numa conta da Forry no HSBC de Genebra. Desse total, aproximadamente US$ 248 milhões migraram para contas pessoais de Raja no mesmo banco. De lá, US$ 207 milhões retornaram ao Líbano, para contas em nome de Raja em quatro bancos comerciais, rotulados como "despesas pessoais".
US$ 330 milhões. Treze anos. Uma empresa offshore. Um banco em Genebra. O dinheiro correu em segredo enquanto uma nação quebrava.
A Forry Associates foi dissolvida em 2016 — um ano depois de as transferências terminarem, e quatro anos antes de os investigadores suíços fecharem o cerco.
Onde o dinheiro foi parar
O dinheiro não evaporou: foi convertido, de forma metódica, em patrimônio tangível e difícil de reaver. Os autores das ações judiciais estimam a fortuna mundial de Riad em mais de US$ 2 bilhões — número que ele contesta, atribuindo-o a heranças, salário e investimentos legítimos.
O que não se contesta é o rastro de ativos que a Europa passou anos congelando. Em março de 2022, França, Alemanha e Luxemburgo bloquearam cerca de € 120 milhões de uma só vez; até 2023, os bens congelados somavam ao menos US$ 200 milhões. Só o império imobiliário europeu do clã foi avaliado em cerca de US$ 92 milhões — imóveis em Munique, Hamburgo, Paris e Londres, além de apartamentos em Manhattan adquiridos por Raja.
Para o depositante libanês comum, limitado a US$ 400 mensais da própria conta congelada, a geografia desses gastos é, por si só, um veredito.
Edmond Safra e o cofre que o HSBC herdou em 2000
A história de como o HSBC passou a operar em Genebra um private bank com raízes libanesas começa em Beirute. Edmond Safra nasceu em 6 de agosto de 1932, numa família judaica sefardita, e construiu em Genebra, a partir de 1956, um império bancário erguido sobre a discrição absoluta — clientela de chefes de Estado, bilionários do Oriente Médio e da América Latina, num tempo em que o sigilo bancário suíço era quase intocável.
Em maio de 1999, o HSBC anunciou a compra do império de Safra por cerca de US$ 10,3 bilhões, tomando o controle formal em 1º de janeiro de 2000. Foi assim que herdou não apenas as contas e os funcionários, mas uma cultura construída sobre o princípio de que a riqueza, viesse de onde viesse, merecia proteção contra escrutínio.
A morte em Mônaco, dias antes do negócio fechar
Em 3 de dezembro de 1999, dias antes de o negócio se completar, Safra morreu num incêndio em sua cobertura em Mônaco, ao lado de uma enfermeira. O enfermeiro Ted Maher foi condenado por incêndio doloso seguido de morte — segundo sua versão, teria ateado fogo para "resgatar" o patrão e se passar por herói. Ele depois recuou, afirmando que a confissão fora obtida sob coação.

Edmond Safra
Um documentário da Netflix, Murder in Monaco (17 de dezembro de 2025), reabriu o caso. A teoria mais persistente aponta para a Rússia: pouco antes da morte, Safra havia colaborado com o FBI e autoridades suíças para sinalizar movimentações que atribuía a interesses russos.
Nada disso jamais foi comprovado, nenhum outro autor foi acusado e a condenação de Maher segue de pé. Mas as perguntas nunca desapareceram — e, no contexto da investigação atual, adensam a sombra sobre a instituição que Safra construiu.
Por que a cultura de sigilo importa para o caso
A cronologia é impressionante. O HSBC assumiu a casa genebrina em 1º de janeiro de 2000. Dois anos depois, em 2002, a conta da Forry Associates foi aberta na mesma instituição — e o contrato de corretagem com o banco central libanês data do mesmo ano. Ou seja: o esquema não antecede a propriedade do HSBC; começou sob a sua guarda.
Segundo a Public Eye, entre 2006 e 2013 o compliance interno enviou quase vinte alertas sobre a conta da Forry. Todos foram derrubados — a direção teria aceitado as garantias de um gerente sênior que cuidava das contas dos irmãos Salameh, até hoje não identificado publicamente.
"Você não herda apenas um banco. Herda seus hábitos, seus silêncios, sua disposição de olhar para o outro lado."
Onze dias que viraram o caso em agosto de 2026
Quando a investigação original foi publicada, em junho, Salameh era um homem livre, à espera de um julgamento que nunca começava. Entre o fim de julho e o início de agosto de 2026, o quadro virou.
Em 31 de julho, autoridades libanesas prenderam Salameh, hoje com 76 anos, no Hospital Bhannes, ao norte de Beirute, após ele faltar a um interrogatório. Foi levado à prisão de Roumieh e depois transferido a um hospital público, onde permanece sob supervisão médica. A família contesta a versão oficial sobre seu estado; as autoridades o dão como estável.
Em 10 de agosto, a Justiça libanesa o indiciou por um novo conjunto de crimes — lavagem de dinheiro, corrupção, enriquecimento ilícito e constituição de empresas fictícias. Não é o caso Forry: é um segundo esquema, que desloca o mapa das BVI para as Ilhas Cayman. A denúncia foi apresentada em janeiro por Karim Souaid (atual governador do banco central) e descreve quatro empresas de fachada em Cayman.
Em outras palavras: o próprio Banque du Liban passou a acusar criminalmente o homem que o comandou por trinta anos.
O primeiro banqueiro comercial no banco dos réus
Talvez o desdobramento mais consequente esteja no mesmo indiciamento de 10 de agosto. Samir Hanna (ex-presidente do Bank Audi, um dos maiores bancos comerciais do Líbano), 88 anos, foi indiciado ao lado de Salameh, acusado de subornar o governador durante sua gestão. Pagou US$ 1 milhão de fiança e responde em liberdade.
É o primeiro banqueiro comercial acusado em conexão com o caso Salameh. Por seis anos, a responsabilização parou na porta do banco central. Se a Promotoria sustentar a tese embutida na denúncia, o caso deixa de ser a história de um homem para se tornar a história de um sistema.
Quanto ao HSBC, o caso francês segue onde estava, sem acordo nem data de julgamento. Um detalhe merece registro: em 2024, o regulador suíço FINMA proibiu a unidade suíça do banco de abrir novas relações com pessoas politicamente expostas até segunda ordem — um private bank concebido para servir exatamente esse público foi informado de que não é mais confiável para aceitar outros.
O que ainda pode acontecer
Os advogados de Salameh negam de forma consistente qualquer irregularidade, e Hanna é presumido inocente — um indiciamento é acusação, não veredito. Ambos os casos seguem rumo aos tribunais libaneses sem datas firmes, num sistema que nunca levou um caso desse porte à condenação.
Mas a trajetória de quatorze meses é inequívoca: mandado europeu em aberto, sanções de Washington, Londres e Ottawa, acusação criminal formal contra um dos maiores bancos do mundo em Paris e, agora, o próprio ex-governador de volta à cela, um segundo esquema offshore alegado e o primeiro banqueiro comercial no banco dos réus. A pergunta que resta não é sobre um homem, mas sobre uma engrenagem: quando o cofre é grande demais para ser fiscalizado, quem responde pelo que passa por ele?
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