Poder & Bastidores

Kassio Nunes Marques no caso Master: os bastidores revelados pela Piauí

Investigação da revista piauí baseada no telemóvel do banqueiro revela encontros secretos, repasses a empresa ligada ao filho do magistrado e reviravolta em julgamento de precatórios bilionários

Kassio Nunes Marques no caso Master: os bastidores revelados pela Piauí
📷 Gabriela Biló/Folhapress
📋 Em resumo ▾
  • Apuração da revista piauí baseada em mensagens, dados do Coaf e perícia da PF revela vínculos entre o ministro Kassio Nunes Marques e o banqueiro Daniel Vorcaro.
  • Empresa Consult recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master e repassou mais de R$ 281 mil a Kevin Marques, filho do magistrado.
  • Desembargador Newton Ramos (TRF1) intermediou ao menos nove reuniões entre Vorcaro e o ministro enquanto sua esposa assinava contrato milionário com o banco.
  • Ministro revogou o próprio impedimento e deu voto decisivo a favor de usina, abrindo precedente para carteira de precatórios de R$ 10 bilhões do Master. Por que isso importa: Os indícios colocam em xeque a equidistância de ministros de cortes superiores em litígios bilionários contra a Fazenda Nacional e expõem a promiscuidade entre bancas de familiares e decisões jurisdicionais.
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Uma investigação jornalística da revista Piauí detalhou a teia de relações comerciais, institucionais e privadas que ligavam o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master que se encontra preso preventivamente no âmbito de apurações da Polícia Federal (PF).

O cruzamento de 16 conversas de WhatsApp extraídas do aparelho de Vorcaro, registros de ligações telefónicas, relatórios de inteligência financeira do Coaf e dados da Receita Federal aponta que reuniões com o filho do ministro e transferências financeiras coincidiram com uma reviravolta de votos da Segunda Turma do STF que favoreceu a carteira de precatórios do banco, avaliada em R$ 10 bilhões.

A Consult, os repasses ao filho e as mensagens de WhatsApp

O elo financeiro sob escrutínio passa pela empresa Consult Inteligência, controlada por Francisco Craveiro de Carvalho Junior, amigo de longa data do ministro. Relatório do Coaf aponta que o Master repassou R$ 6,6 milhões à Consult entre agosto de 2024 e julho de 2025. No mesmo período, a consultoria transferiu ao menos R$ 281,6 mil para Kevin Marques, filho do magistrado que havia aberto escritório de advocacia apenas quatro meses antes.

Nas trocas de mensagens periciadas pela PF, executivos do Master tratavam os pagamentos à consultoria com prioridade absoluta. Em julho de 2024, ao revisar cortes de custos operacionais, o diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, apontou para o contato de Kevin e questionou a Vorcaro se mantinha a remuneração de "500 mil mês". Em agosto, Rennó cobrou a quitação imediata da rubrica: "Dos pagamentos essenciais está faltando a consult (...) Único 'meu' que faltou", confirmando minutos depois que o envio havia sido concluído.

Os registos periciais mostram ainda que o telefone de Kevin Marques registou 144 interações pelo WhatsApp com o aparelho do banqueiro entre junho de 2024 e maio de 2025, além de reuniões presenciais na sede do banco em São Paulo agendadas pela secretária executiva de Vorcaro.

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"O que se sabe é que Ramos enviou a Vorcaro os contactos 'Kassio Marques' e 'Kevin Marques' (...) marcando o estreitamento de uma relação pautada por interesses económicos mútuos."
— Trecho da reportagem investigativa da revista piauí.

O desembargador articulador e o contrato de honorários de R$ 427 milhões

A ponte de interlocução era operada pelo desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), amigo de Nunes Marques. Ramos intermediou diretamente ao menos nove encontros presenciais entre Vorcaro e o ministro do Supremo, utilizando mensagens cifradas e requisitando ao banqueiro favores contínuos — como diárias em hotéis de luxo, ingressos VIP para eventos e uso de jactos executivos para viagens a Buenos Aires e ao Nordeste.

Paralelamente às tratativas de bastidor, o escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador, firmou contrato formal de prestação de serviços com o Master para atuar em doze processos do setor sucroalcooleiro em curso no TRF1. A minuta contratual fixava honorários de êxito de 5% sobre o proveito económico bruto — causas que totalizavam R$ 8,5 bilhões e podiam render até R$ 427 milhões à banca.

A reviravolta jurídica na Segunda Turma do STF

O interesse do Master concentrava-se em títulos e precatórios de usinas de açúcar e álcool contra a União decorrentes do tabelamento de preços na década de 1980. Embora o banco não figurasse formalmente na ação da Destilaria Alcídia, o julgamento pendente na Segunda Turma do STF era o paradigma jurisprudencial que destrataria as demais execuções no TRF1.

O caso encontrava-se empatado em 2 a 2, com Nunes Marques previamente declarado impedido por ter atuado no processo em 2018 como vice-presidente do TRF1. Após encontros em Brasília e contatos com Vorcaro, o ministro emitiu um despacho reconsiderando a própria suspeição, afirmando que a restrição decorrera de "equívoco da assessoria".

Em 1º de outubro de 2024, após pedir vista e paralisar a pauta por duas semanas, Nunes Marques devolveu o processo e proferiu voto favorável à destilaria, reformando o posicionamento que tivera anos antes no tribunal regional e assegurando a vitória da tese que beneficiava o portfólio de Vorcaro. Minutos após a proclamação, Vorcaro enviou mensagem em tom comemorativo a interlocutores: "Ganhamos STF!".

O contraditório e as versões das partes

Procurado pela reportagem, o ministro Kassio Nunes Marques negou qualquer irregularidade, afirmando que "nunca votou a favor de Daniel Vorcaro", que "nunca pediu nada ao banqueiro e nem recebeu nenhum pedido dele" e que "não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros". Sobre o filho, declarou que Kevin jamais prestou serviços ao banco e que os valores recebidos da Consult decorreram de serviços jurídicos reais e declarados.

Kevin Marques reiterou em nota que os R$ 281,6 mil recebidos foram divididos em parcelas de R$ 28 mil mediante emissão de notas fiscais por consultoria tributária à Consult, sem qualquer relação com clientes da empresa. O desembargador Newton Ramos e sua esposa Camilla afirmaram que mantêm atuação técnica rigorosamente separada de suas relações privadas e que o contrato de honorários de êxito no TRF1 não contemplava causas em curso no STF. A defesa de Vorcaro e os advogados de Luiz Rennó não se pronunciaram.

As revelações que emergem da perícia policial trazem à superfície o nível de infiltração de interesses financeiros privados nas engrenagens das mais altas instâncias jurisdicionais do país. Quando ministros do STF e desembargadores federais orbitam a mesma mesa de negociações de operadores investigados por fraudes sistémicas, a linha que separa o dever de imparcialidade da advocacia administrativa é consumida pela conveniência do poder.

Leia a reportagem completa, que narra em detalhes como foram essas relações.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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