Mansur, o PCC e o Banco Master: o que o fundador da Reag quer delatar
Ex-controlador da gestora liquidada pelo BC entrega proposta de delação premiada à PGR, focada no esquema de Daniel Vorcaro. Negociação tramita desde novembro e pode incluir delação conjunta com o dono do Banco Master
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- João Carlos Mansur, ex-controlador da Reag Investimentos, entregou proposta de delação premiada à PGR
- Gestora foi liquidada pelo Banco Central em janeiro por "graves violações" ao Sistema Financeiro Nacional
- Mansur é investigado na Operação Compliance Zero (Banco Master) e na Operação Carbono Oculto (PCC)
- Proposta de delação é focada no esquema de Daniel Vorcaro e tramita desde novembro de 2025
- Advogado de Mansur é o mesmo de Vorcaro, alimentando especulação sobre delação conjunta
- Reag administrava R$ 325 bilhões e cerca de 700 fundos antes da liquidação
- Por que isso importa: A delação de Mansur pode conectar o esquema bilionário do Banco Master à infiltração do PCC no sistema financeiro, expondo uma das maiores fraudes da história do mercado de capitais brasileiro
João Carlos Mansur, fundador e ex-controlador da Reag Investimentos, entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de acordo de delação premiada. O empresário, cujos fundos administravam R$ 325 bilhões antes da liquidação decretada pelo Banco Central em janeiro, é investigado em duas frentes: a Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master de Daniel Vorcaro, e a Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema financeiro.
A proposta, segundo fontes com conhecimento das tratativas, é focada no esquema de Daniel Vorcaro. As negociações entre a defesa de Mansur e a PGR estão em curso desde novembro de 2025, quando o empresário procurou o Ministério Público de São Paulo para iniciar tratativas no âmbito da Operação Carbono Oculto.
"Estão em curso conversas entre a PGR e a defesa de João Carlos Mansur, ex-controlador da liquidada Reag, para uma delação premiada."
— Lauro Jardim, colunista do O Globo
A Reag Investimentos: do império de R$ 325 bilhões à liquidação
A Reag Investimentos foi uma das maiores gestoras de fundos do Brasil. Segundo ranking da Anbima, a instituição aparecia como a oitava maior do país, com R$ 325 bilhões em investimentos sob administração. A gestora administrava cerca de 700 fundos distribuídos em 300 a 350 grupos empresariais e famílias de todos os estados brasileiros.
A trajetória da Reag foi de crescimento vertiginoso. Em 2019, a gestora ocupava a 29ª posição no ranking da Anbima, com R$ 22,2 bilhões sob gestão. Em dezembro de 2022, já havia pulado para a 13ª posição, com R$ 74,4 bilhões. O salto final veio em março de 2025, quando a Reag fez um spin-off e estreou na B3 como Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (Ciabrasf), com aumento de capital de R$ 421,3 milhões e patrimônio líquido próximo a R$ 240 bilhões.
A queda foi tão rápida quanto a ascensão. Em 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mandados de busca e apreensão contra cerca de 350 alvos, incluindo 42 gestoras de fundos. A Reag foi uma delas. Em 14 de janeiro de 2026, a Operação Compliance Zero entrou em sua segunda fase, mirando fundos da Reag usados para movimentar recursos e ocultar prejuízos do Banco Master. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da gestora.
A decisão do BC, assinada pelo presidente Gabriel Galípolo, motivou-se por "graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN". Com a liquidação, os bens dos controladores e ex-administradores ficaram indisponíveis.
A Operação Compliance Zero: como a Reag inflou o Banco Master
A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, investiga um esquema de fraudes financeiras que pode superar R$ 11,5 bilhões. O foco central é a emissão de títulos de crédito falsos e a criação de uma "ciranda financeira" para ocultar o desvio de ativos.
Segundo as investigações, o Banco Master realizava empréstimos a empresas que, em seguida, aplicavam esses recursos em fundos administrados pela Reag. Os fundos eram compostos por papéis de baixo valor. A cada injeção de recursos, os ativos eram reavaliados. Ao fim do processo, registrava-se no papel uma escalada de "ganhos imaginários". Em uma das operações, a valorização somou 10.502.205% — um patamar que não encontra respaldo na realidade.
"O Banco Master realizava empréstimos a empresas que, posteriormente reaplicavam recursos em fundos administrados pela Reag. Depois disso, o caminho do dinheiro mostra que os recursos eram transferidos de um fundo a outro por meio de uma série de transações-relâmpago."
— Investigação da Polícia Federal
A suspeita é que os fundos pertenciam a indivíduos que atuavam como "laranjas" de Daniel Vorcaro. O dinheiro, que deveria ser utilizado pelas empresas tomadoras do empréstimo, seria desviado por meio dessas estruturas financeiras, dando aparência de legalidade a operações irregulares.
Na segunda fase da operação, deflagrada em 14 de janeiro de 2026, a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de bens que ultrapassavam R$ 5,7 bilhões. Entre os alvos estavam Mansur, o empresário Nelson Tanure e o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
A Operação Carbono Oculto: a suspeita de lavagem para o PCC
Paralelamente ao caso Master, Mansur e a Reag são alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto de 2025. A operação, que cumpriu mandados em oito estados, investiga a infiltração do PCC em setores da economia formal, como o de combustíveis e o mercado financeiro.
A denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP), apresentada pelo Gaeco, aponta que Mansur era responsável por "dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos" e estava "diretamente implicado na ocultação de valores sem origem".
De acordo com a investigação, cerca de 1.000 postos de combustíveis vinculados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech que atuava como banco paralelo da organização movimentou sozinha R$ 46 bilhões não rastreáveis no período. O esquema teria lesado não apenas consumidores, mas "toda uma cadeia econômica", com R$ 7,6 bilhões em sonegação de tributos.
Dados recebidos pela CPI do Crime Organizado em março de 2026 apontam que o FIDC Gold Style, administrado pela Reag, recebeu R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela PF como parte do esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro.
A defesa de Mansur: "penalizado por ser grande e independente"
Em posicionamentos públicos, João Carlos Mansur nega qualquer relação com o PCC e sustenta que a relação com o Banco Master era regular. Em depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado, em 11 de março de 2026, o empresário afirmou que a Reag "sempre operou com alto nível de governança e transparência" e que acabou sendo "penalizada por ser grande e independente".
"Tínhamos aproximadamente 800 funcionários que trabalhavam nos fundos. A empresa sempre foi auditada por consultorias internacionais. Escolhemos o nível de governança mais alto possível justamente por isso. Tínhamos operações claras e transparentes e fomos penalizados por sermos grandes e independentes."
— João Carlos Mansur, em depoimento à CPI do Crime Organizado
Mansur também confirmou que o Banco Master era cliente da gestora, assim como "cerca de sete ou oito instituições financeiras", mas negou que a empresa tenha sido usada para operações irregulares.
Durante a maior parte do depoimento, porém, Mansur permaneceu em silêncio, amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro do STF Flávio Dino que lhe garantia o direito de não responder a perguntas que pudessem levá-lo à autoincriminação. A postura irritou o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que encerrou sua participação na oitiva: "Não vamos ficar aqui ensaiando um teatro de perguntas. O Master é um escândalo."
A delação premiada: o que está em jogo
A proposta de delação premiada entregue por Mansur à PGR é focada no esquema de Daniel Vorcaro. O advogado do empresário é José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca — o mesmo contratado por Vorcaro para negociar sua própria delação premiada.
A coincidência alimenta especulações nos bastidores sobre uma possível delação conjunta. Caso os dois mantenham relatos semelhantes, não haveria conflito — cada um assinaria seu próprio termo de colaboração. A estratégia seria apresentar uma narrativa unificada aos investigadores, fortalecendo a credibilidade de ambos.
O problema é que a delação de Vorcaro já enfrentou obstáculos. Em 22 de maio de 2026, o advogado de Vorcaro deixou a defesa do banqueiro após a PF rejeitar a proposta de delação. Em 18 de maio, Vorcaro voltou para a carceragem comum da Superintendência da PF, sem direito a regalias.
Para que a delação de Mansur seja homologada, é preciso que ele admita crimes e apresente provas que corroborem a narrativa apresentada aos investigadores. O caso está sob responsabilidade da PGR e é supervisionado pelo STF, em Brasília.
O mercado financeiro entre a desconfiança e o choque
A ascensão da Reag no mercado financeiro sempre foi vista com desconfiança por parte de grandes alocadores. Em reportagem de agosto de 2025, o NeoFeed revelou que "pouquíssimas pessoas do mercado faziam negócios com ela por diligência" e que "muita gente sentia que tinha algo estranho nas operações, havia pouca transparência das estruturas".
A gestora cresceu por meio de uma estratégia de consolidação agressiva. Entre 2022 e 2024, adquiriu as gestoras Rapier Investimentos, Quadrante Investimentos, Quasar Asset Management e Empírica. Também comprou as gestoras de patrimônio Berkana e Hieron, de Robert van Dijk, ex-presidente da Anbima.
A compra do controle da GetNinjas em outubro de 2023 — por meio do primeiro "poison pill" do mercado brasileiro — também está sob investigação da CVM.
A queda da Reag expõe vulnerabilidades no sistema de regulação do mercado financeiro brasileiro. A gestora era classificada pelo Banco Central como instituição do segmento S4 — ou seja, representava menos de 0,001% do ativo total ajustado do Sistema Financeiro Nacional — e por isso estava sujeita a uma regulação mais simplificada.
A pergunta que a delação de Mansur precisa responder não é apenas quem comandava o esquema, mas como uma gestora que administrava R$ 325 bilhões conseguiu operar por anos sob o radar dos reguladores — e se o que caiu em janeiro de 2026 é apenas a ponta de um iceberg que ainda não foi mapeado.
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