Poder & Bastidores

O celular de Vorcaro virou radioativo e atinge os 3 Poderes

Preso desde novembro, o ex-dono do Banco Master guardava no telefone conversas que hoje citam ministros do STF, senadores e a família Bolsonaro — de vários partidos

📋 Em resumo
  • O celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e preso desde novembro de 2025, foi periciado pela Polícia Federal e se tornou o centro do maior escândalo bancário da história do país.
  • Uma ressalva atravessa tudo: boa parte das mensagens foi escrita e enviada pelo próprio Vorcaro (em prints de visualização única). Citar alguém, portanto, não prova que a pessoa respondeu ou agiu.
  • No Judiciário, aparecem Alexandre de Moraes (e um contrato de sua mulher com o banco), Kássio Nunes Marques (e repasses ligados ao filho), André Mendonça (que recebeu Vorcaro uma vez) e Dias Toffoli.
  • No Legislativo, a PF aponta repasses a Ciro Nogueira (PP) e o financiamento do filme sobre Bolsonaro por Flávio Bolsonaro (PL); há ainda citações a Jaques Wagner (PT) e a um encontro de Vorcaro com Lula em 2024.
  • Por que isso importa: o dinheiro de Vorcaro não tinha lado partidário — tinha acesso; e o caso abriu uma crise dentro do próprio STF sobre quem investiga e quem é investigado, a um mês das eleições.
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Preso desde novembro de 2025 e apontado como autor da maior fraude bancária da história do Brasil, Daniel Vorcaro deixou no celular o mapa de sua rede de influência. Periciado pela Polícia Federal (PF), o aparelho — que a imprensa já apelidou de "radioativo" — revelou conversas que citam ministros do STF, senadores de diferentes partidos e a família Bolsonaro. A ressalva, porém, é decisiva e será repetida nesta reportagem: boa parte do material é o que o próprio Vorcaro escrevia e enviava, e não prova de que os citados agiram por ele.

Como um banco de 1970 virou a maior fraude bancária do país

O Master nasceu em 1970 como Banco Máxima e foi rebatizado em 2018, sob o comando de Vorcaro. Cresceu rápido emitindo cerca de R$ 50 bilhões em CDBs, vendidos com juros acima do mercado e garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas lastreados em ativos de baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas endividadas. O Banco Central passou a questionar a sustentabilidade do modelo.

Em 17 de novembro de 2025, o Grupo Fictor anunciou a compra do banco. Horas depois, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, ao tentar deixar o país. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, apontando grave deterioração financeira e indícios de fraude. O ressarcimento aos credores pelo FGC é estimado em cerca de R$ 41 bilhões para aproximadamente 1,6 milhão de pessoas — o maior da história.

Por que o celular é "radioativo" — e o que ele não prova

O aparelho foi apreendido na Operação Compliance Zero. Um detalhe técnico é central para ler tudo o que veio depois: segundo as reportagens, Vorcaro costumava redigir textos no bloco de notas do celular, transformá-los em capturas de tela e enviá-los como mensagens de visualização única. A extração recuperou, sobretudo, o que ele mandava — não necessariamente as respostas.

O celular de Vorcaro funciona como uma radiografia do poder — mas mostra o que o banqueiro dizia, não o que cada citado fez. É prova de proximidade, não de crime.

A PF entregou ao STF, em 27 de agosto de 2026, um relatório de 218 páginas sobre o conteúdo do telefone. Em 1º de setembro, o ministro André Mendonça, relator do caso na Corte, derrubou o sigilo — o que expôs mensagens que citam autoridades e desencadeou uma crise dentro do Supremo.

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No STF: Moraes, a mulher e o relator que virou personagem

O nome mais explosivo é o do ministro Alexandre de Moraes. No celular há um contato salvo como "Alexandre de Moraes Brasília", e mensagens em que Vorcaro afirma, por exemplo, que o ministro poderia conversar com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral, Paulo Gonet. Some-se a isso um vídeo que mostraria Moraes em um jato ligado a Vorcaro e a informação, noticiada em dezembro de 2025, de que o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, teria um contrato com o Master previsto em R$ 131 milhões. É preciso soletrar: essas mensagens são majoritariamente do próprio Vorcaro; o STF ainda decide se sequer abre uma investigação formal, e nada foi provado contra Moraes.

A situação é ainda mais delicada porque o relator que mandou a PF vasculhar o celular — André Mendonça — também aparece na agenda de Vorcaro. Em áudios revelados pela newsletter Noites Húngaras, o então advogado do Master, Ciro Soares, trata de um encontro entre os dois. Mendonça confirmou ter recebido Vorcaro uma única vez, a pedido do banqueiro, para tratar de uma tutela sobre precatórios, e afirma ter atuado contra a posição dele.

Nunes Marques, o filho e o contrato de R$ 427 milhões

Também no STF, o ministro Kássio Nunes Marques é citado por duas vias. A primeira: um contrato de honorários de até R$ 427 milhões, ligado a um escritório que assessores de Vorcaro chamavam de "turma do KN", para destravar precatórios de interesse do banco (revelado pela coluna de Andreza Matais, no Metrópoles). A segunda: mensagens que citam o advogado Kevin Marques, filho do ministro, e mencionam um suposto pagamento de R$ 500 mil por mês — além de repasses de R$ 282 mil feitos pela empresa Consult, que recebeu milhões do Master (revelado pela piauí e pela Folha).

Nunes Marques nega tudo. Em plenário, ao se declarar impedido de julgar o caso Moraes-Vorcaro — cargo de presidente do TSE, alegou —, afirmou: "Nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master. Meu filho nunca prestou nenhum serviço ao banco e nunca foi remunerado." Kevin Marques também nega ter prestado serviço ou recebido dinheiro do banco. Registre-se, ainda, que as próprias reportagens ponderam não haver elementos para afirmar que os R$ 500 mil correspondam aos repasses citados. Um terceiro ministro, Dias Toffoli, declarou-se suspeito por "foro íntimo"; empresas ligadas a parentes dele teriam tido como sócio um fundo vinculado ao esquema.

No Congresso: Ciro Nogueira, os Bolsonaro e o filme

No Legislativo, a PF é mais assertiva. Sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, os investigadores afirmam que ele teria recebido ao menos R$ 6 milhões de Vorcaro entre 2024 e 2025, numa relação com "alinhamento direto e contínuo" entre sua atuação parlamentar e os interesses do banqueiro. Ciro foi alvo de uma fase da operação, teve relógios de luxo apreendidos e nega irregularidades.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, aparece pelo financiamento de "Dark Horse", cinebiografia do pai. Mensagens reveladas pelo Intercept mostram tom de intimidade — ele chama Vorcaro de "irmão" — e negociações que, segundo a apuração, envolveram repasses na casa dos R$ 60 milhões, com participação atribuída também a Eduardo Bolsonaro e a Mario Frias. Flávio sustenta que a relação era comercial (busca de patrocínio para um filme privado) e que um jantar proposto jamais aconteceu. Há ainda mensagens de dezembro de 2024, reveladas pela CartaCapital, em que Vorcaro teme o vazamento de um suposto jantar com Jair e Flávio Bolsonaro — encontro que não se confirmou.

O dinheiro que não tinha lado: do PL ao PT

Aqui entra o ponto que impede a leitura fácil. O celular de Vorcaro não respinga em um só campo. A PF também mira o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. As mensagens registram, ainda, que Guido Mantega — depois consultor do Master — articulou, em dezembro de 2024, um encontro reservado de Vorcaro com o presidente Lula no Planalto. Isso não significa que qualquer um deles soubesse de fraude; significa que o encontro existiu. Somam-se a lista o governador Cláudio Castro (PL-RJ), por bilhões do Rioprevidência aplicados em produtos do Master; o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB), que encaminhou a Vorcaro decisões e a lei sobre a compra do banco pelo BRB; e o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, cujo escritório prestou serviços ao grupo. A conclusão é desconfortável para todos: o dinheiro de Vorcaro não tinha lado partidário — tinha acesso.

Trechos que a PF encontrou no aparelho

A seguir, alguns diálogos citados nas reportagens (as atribuições são das fontes; as mensagens, majoritariamente enviadas por interlocutores de Vorcaro):

  1. "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você!" — áudio de Ciro Soares, advogado do Master, ao banqueiro (via Noites Húngaras).
  2. "O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo." — Ciro Soares a Vorcaro (via Noites Húngaras).
  3. "Dominado aqui" — mensagem do assessor jurídico Luiz Rennó a Vorcaro, minutos após um voto favorável ao banco (via piauí).
  4. "É um excelente voto do Min. Nunes Marques (...)" — advogada Camilla Ramos a Vorcaro (via Metrópoles).
  5. "Thiago está cobrando se você vai num jantar com meu xará e com o pai dele" — empresário Flávio Carneiro a Vorcaro, em dezembro de 2024 (via CartaCapital).
  6. "Irmão, estou e estarei contigo sempre" — senador Flávio Bolsonaro a Vorcaro, na véspera da prisão do banqueiro (via Intercept).

A crise dentro do Supremo

A abertura do sigilo por Mendonça — que ele próprio aparece na agenda de Vorcaro — racha a Corte. Os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes cobraram acesso integral ao material, sob suspeita de que a apuração teria concentrado foco nas menções a Moraes. Edson Fachin, presidente, chegou a retirar de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e a ordenar a abertura do sigilo. Nunes Marques e Toffoli se afastaram do julgamento. Nunca, na história do STF, a Corte se viu julgando, ao mesmo tempo, a relação de um de seus próprios integrantes com um réu.

O celular de Daniel Vorcaro se tornou uma espécie de radiografia do poder no Brasil — e a maior prova disso é que o próprio Supremo briga para decidir quem pode abri-lo. A pergunta que fica não é apenas o que um banqueiro hoje preso teria comprado, mas por que tantas portas, em todos os partidos e nos três Poderes, estavam abertas para ele. É também um teste de sobriedade para a imprensa e para o leitor: distinguir o que Vorcaro dizia do que os citados de fato fizeram — porque, num aparelho cheio de mensagens de mão única, a fronteira entre a prova e a insinuação é justamente onde este caso será, ou não, esclarecido.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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