Painel Econômico

Crise na Apex Partners pode forçar venda de 15% da CVC

Gestora capixaba, segundo maior acionista da CVC com 15,5%, pode ser obrigada a vender fatia para quitar dívidas de quase R$ 1 bilhão. Crise coloca em xeque controle da operadora de turismo e abre espaço para nova configuração societária

Crise na Apex Partners pode forçar venda de 15% da CVC
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • A Apex Partners, gestora de investimentos do Espírito Santo, enfrenta dívidas de R$ 985,6 milhões e obteve liminar para suspender execuções contra 178 empresas do grupo
  • A gestora detém 15,5% da CVC (CVCB3), consolidada como segundo maior acionista, atrás apenas da família Paulus (20,47%)
  • A Justiça do Espírito Santo concedeu 60 dias para que a Apex se reorganize financeiramente; caso contrário, pode ser forçada a vender a fatia na CVC
  • O BTG Pactual rompeu relação com a gestora, que afastou presidente e diretor financeiro após identificar "inconsistências financeiras" nos números
  • Por que isso importa: a crise expõe como operações de alavancagem para compra de ações podem transformar um investimento estratégico em troféu de leilão para credores
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A Apex Partners, gestora de investimentos sediada no Espírito Santo com R$ 17,5 bilhões em ativos sob gestão, viu sua estratégia de expansão virar pesadelo em poucos meses. A empresa, que chegou a acumular 15,5% das ações da CVC (CVCB3) e se consolidar como segundo maior acionista da operadora de turismo, agora enfrenta dívidas de quase R$ 1 bilhão e corre o risco de perder sua fatia na companhia se não conseguir renegociar suas obrigações. A crise levou a gestora a pedir proteção judicial, afastar sua diretoria e romper com um dos maiores bancos de investimento do país.

Como a Apex chegou a 15,5% da CVC — e ao limite da insolvência

A trajetória da Apex na CVC começou como uma aposta de valor. Em janeiro de 2026, a gestora já detinha 14% do capital da operadora, comprando ações com recursos da própria tesouraria e por meio de um fundo de PIPE de R$ 78 milhões levantado com clientes. O objetivo era chegar a 15% e garantir um assento no conselho de administração.

Para chegar lá, porém, a Apex parece ter usado operações de alavancagem que agora se tornaram incontroláveis. A aquisição de parte do controle acionário da CVC exigiu que a gestora contraísse R$ 17,5 bilhões dos fundos da Carbyne e da Rhyno — veículos de investimento que, segundo fontes de mercado, teriam sido usados de forma inconsistente para financiar as compras de ações.

O rombo, inicialmente estimado entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão, foi confirmado em documentos judiciais: R$ 985,6 milhões em dívidas reconhecidas, sendo que mais da metade está concentrada em debêntures e fundos de investimento. Só no primeiro semestre de 2026, a empresa alega ter contraído cerca de R$ 300 milhões em novos débitos.

"Por enquanto, o problema envolvendo a Apex não muda automaticamente a composição dos acionistas da CVC. Isso porque parte dessas ações está em fundos e outros veículos de investimento ligados à Apex."

— Guilherme Filardi, sócio do DDSA Advogados

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A liminar que congela R$ 985 milhões em dívidas

Para evitar a debacle, a Apex entrou com medida cautelar na Justiça do Espírito Santo pedindo a suspensão das execuções contra o patrimônio de 178 companhias do grupo. A liminar foi concedida, congelando a cobrança compulsória das dívidas e dando à gestora 60 dias para se reorganizar financeiramente.

A estratégia judicial é clara: ganhar tempo para renegociar as obrigações e evitar que credores executem garantias — incluindo, eventualmente, as ações da CVC. A princípio, a participação na operadora de turismo está protegida. Mas tudo pode mudar se o prazo de 60 dias não for suficiente.

"Nesta hipótese, poderia haver um impacto indireto à formação societária da CVC, mas ainda não é possível ter certeza a respeito disso", avalia Padilha, advogado consultado sobre o caso.

O rompimento com o BTG e o afastamento da diretoria

A crise da Apex não é apenas uma questão de dívidas. É uma questão de confiança. Em agosto de 2026, a gestora anunciou que havia identificado 'inconsistências financeiras' em seus próprios números e afastou o presidente Fernando Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira da empresa.

O BTG Pactual, um dos principais parceiros da gestora, rompeu a relação comercial. O banco, que havia estruturado parte das operações de crédito da Apex, retirou seu apoio e deixou a gestora sem uma de suas principais fontes de financiamento. O rompimento acelerou a crise e forçou a Apex a buscar proteção judicial.

O caso ganhou contornos ainda mais graves quando fontes de mercado apontaram indícios de fraude em garantia bilionária para a compra das ações da CVC. A gestora, que em janeiro de 2026 celebrava sua posição como segundo maior acionista da operadora, viajou de R$ 17,5 bilhões em ativos para quase R$ 1 bilhão em dívidas em menos de sete meses.

O que acontece com a CVC se a Apex quebrar

A CVC, por sua vez, assiste à crise de seu segundo maior acionista com apreensão. Desde o início de 2026, as ações da operadora já acumulam queda de mais de 30%, cotadas a R$ 1,44 — queda de 38,72% nos últimos 12 meses.

Se as ações da CVC tiverem sido usadas como garantia para as operações de crédito da Apex e a dívida não for paga, os credores poderão executar essa garantia. Isso poderia levar à venda ou à transferência de uma quantidade relevante de ações da CVC já nos próximos meses, alterando o controle acionário da companhia.

Mesmo que não tenha havido o uso das ações como garantia, a Apex pode ser forçada a abrir mão de investimentos próprios para fazer frente às obrigações. A Lei de Recuperação e Falências (Lei nº 11.101/2005) prevê que, em caso de insolvência, os bens da companhia podem vir a ser alienados, incluindo participação acionária.

A família Paulus, fundadora da CVC e maior acionista com 20,47%, acompanha de perto os desdobramentos. Outros acionistas relevantes são a Absolute, com 9,8%, e o Opportunity, com 7,8%. Uma eventual venda da fatia da Apex poderia reconfigurar o controle da companhia — ou abrir espaço para uma nova entrada de capital.

A aposta de R$ 5,50 que virou R$ 1,44

Em janeiro de 2026, o fundador da Apex, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, era otimista. Em entrevista ao Brazil Journal, disse que a análise de fluxo de caixa descontado feita pela gestora apontava um valor justo de R$ 5,50 por ação da CVC — mais que o dobro do preço de tela na época (R$ 2,60). "Enquanto a ação estiver no preço que está, vamos continuar comprando com o objetivo de chegar nos 15%", afirmou.

Sete meses depois, a CVC vale R$ 1,44 na B3. A Apex, que deveria ser a grande compradora, pode se tornar a grande vendedora — não por estratégia, mas por compulsão. A tese de investimento baseada em três drivers (crescimento do consumo de viagens, intercâmbios internacionais e expansão da Trend, marca corporativa da CVC) esbarrou em um quarto fator que não estava na planilha: a incapacidade da própria gestora de administrar sua alavancagem.

Em nota enviada à Painel Político em matéria anterior, Cinelli declarou que "está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, seus investidores e acionistas. Com o gesto, ele demonstra sua disposição em esclarecer todas as questões levantadas com total transparência e idoneidade".

A pergunta que o caso deixa no ar é se a CVC será mais uma vítima colateral de uma gestora que apostou alto e perdeu o controle — ou se a operadora de turismo, que já passou por um turnaround bem-sucedido e desalavancou nos últimos anos, encontrará em meio à crise da Apex uma oportunidade de reconfigurar sua base acionária. O prazo é de 60 dias. Para a Apex, é a contagem regressiva para sobreviver. Para a CVC, é o tempo de descobrir se seu segundo maior acionista vai continuar sendo parceiro — ou leilão.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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