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Diálogos de Vorcaro expõem acesso ao entorno de três ministros do STF

Na véspera do julgamento de Moraes, mensagens do celular do ex-dono do Master citam o entorno de Nunes Marques, Fux e Mendonça — sem provar repasses ou interferência em decisões.

Diálogos de Vorcaro expõem acesso ao entorno de três ministros do STF
📷 Gustavo Moreno/STF
📋 Em resumo
  • Na véspera de o STF julgar se investiga Alexandre de Moraes, mensagens do celular de Daniel Vorcaro expõem sua proximidade com o entorno de outros três ministros: Kássio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça.
  • Os diálogos citam repasses mensais ao escritório do filho de Nunes Marques, encontros com o filho de Fux, e um advogado ligado a Mendonça celebrando uma decisão do ministro.
  • O próprio material, obtido pelo UOL, ressalva que os registros são fragmentados e não comprovam pagamento aos filhos nem interferência em julgamentos.
  • O julgamento de hoje, pedido por Mendonça, trata da investigação sobre Moraes — baseada num relatório da PF que aponta 187 interações com o banqueiro.
  • Por que isso importa: o material não prova crime, mas revela o acesso de um banqueiro investigado ao círculo íntimo dos ministros que agora julgam o caso.
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Horas antes de o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir, nesta terça-feira (15), se abre uma investigação formal contra o ministro Alexandre de Moraes, um novo conjunto de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ampliou o alcance do caso Banco Master para dentro da própria Corte. Os diálogos, obtidos pelo UOL e enviados aos gabinetes do tribunal, revelam uma rede de proximidade do empresário com o entorno de outros três ministros: Kássio Nunes Marques, Luiz Fux e o relator do caso, André Mendonça.

Antes de detalhar o que dizem as mensagens, é indispensável fixar o que elas não dizem — e o próprio UOL faz esse registro de forma explícita. Os fragmentos não comprovam repasses diretos aos filhos dos magistrados, não demonstram contratação e não indicam interferência em julgamentos. O que expõem é o acesso: os canais que um banqueiro hoje preso mantinha com o círculo pessoal de ministros que, agora, avaliam um caso que o envolve.

O entorno de Nunes Marques: um filho advogado e R$ 500 mil por mês

O caso mais documentado envolve Kevin Marques, advogado e filho de Nunes Marques. Nas conversas, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, menciona a Vorcaro pagamentos de "R$ 500 mil por mês" ligados ao escritório de Kevin, a Consult Inteligência Tributária, de Teresina. Em outubro de 2024, Rennó teria enviado uma planilha com o nome e o telefone de Kevin sob a legenda "Dominado aqui"; em 2025, perguntou se o valor seria mantido e cobrou a inclusão da Consult entre os "pagamentos essenciais". Segundo o Coaf, a Consult teria recebido R$ 6,6 milhões do Master em um ano.

Aqui a cautela é obrigatória, e por uma razão concreta: essas menções a valores aparecem em conversa entre terceiros — Vorcaro e seu diretor jurídico —, não em diálogo com Kevin. E o advogado nega. Kevin Marques afirma não ter prestado serviços ao banco nem recebido de Vorcaro, e diz ter recebido R$ 281,6 mil da Consult por serviços tributários sem qualquer relação com o STF. O ministro Nunes Marques não vai se pronunciar.

As menções a "R$ 500 mil por mês" aparecem em conversa entre Vorcaro e seu diretor jurídico — não com o filho do ministro, que nega ter recebido do banco.

O entorno de Fux: encontros, um camarote e um e-mail à secretária

As conversas entre Vorcaro e Rodrigo Fux, advogado e filho de Luiz Fux, se estendem de maio de 2024 a agosto de 2025. Nelas, o banqueiro pede "ajuda num caso" não identificado, os dois combinam encontros em várias cidades, e Vorcaro chega a oferecer a Rodrigo e à família convites para um camarote no Carnaval do Rio.

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Há um episódio que merecerá escrutínio: em março de 2025, Rodrigo teria orientado Vorcaro a enviar um e-mail à secretária do pai no STF — o assunto da mensagem, porém, é desconhecido. A assessoria de Rodrigo Fux afirma que a aproximação comercial nunca se concretizou e que ele não recebeu valores. Como nos demais casos, os registros são fragmentados e não estabelecem contratação nem contrapartida.

O entorno de Mendonça: um "ganhamos" e a decisão para Cláudio Castro

O terceiro fio é o mais politicamente sensível, porque envolve o próprio relator do caso. O intermediário é Ciro Soares, advogado que fez campanha pela indicação de Mendonça ao STF em 2021 e que, em 2025, levou Vorcaro ao escritório do ministro em São Paulo.

Em 10 de outubro de 2024, Soares escreveu a Vorcaro: "Deu certo. Eu lhe disse. Ganhamos." Na mesma data, Mendonça concedeu um habeas corpus ao então governador do Rio, Cláudio Castro (PL), trancando investigações contra ele no Superior Tribunal de Justiça. Logo após anunciar a "vitória", Soares encaminhou a Vorcaro um documento que aparenta ser a decisão. Dias depois, pediu para falar por telefone; ao ver uma chamada de Vorcaro, reagiu "Opa" e apagou três mensagens. O banqueiro encerrou: "Show. Você é fera."

O peso do episódio precisa ser calibrado com honestidade: as mensagens não esclarecem qual era o interesse de Vorcaro no caso de Castro, e não há nada que ligue o banqueiro ao mérito daquela decisão. O que o diálogo mostra é um aliado do ministro tratando uma decisão dele como "conquista conjunta" diante de um terceiro — o que é desconfortável, mas está longe de comprovar que a decisão foi influenciada.

O convite que virou desconvite — e a conexão com o caso Cezinha

Os diálogos também detalham a relação de Vorcaro com o instituto Iter, fundado por Mendonça. Ciro Soares intermediava convites do ministro ao banqueiro para eventos em 2025 — e, num episódio revelador dos bastidores, convidou e depois desconvidou Vorcaro de um evento em Belo Horizonte, em junho de 2025. O motivo, segundo Soares, foi o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP): "O homem pede para lhe chamar para o evento na sexta e o Cezinha acha melhor você não ir."

O nome de Cezinha não é coincidência. Foi ele quem, em março de 2025, agendou a reunião — fora da agenda oficial — entre Vorcaro e Mendonça no escritório do Iter. O deputado é, ele próprio, alvo de outra frente da investigação sobre tráfico de influência no Judiciário. O gabinete de Mendonça confirmou o encontro com Vorcaro, afirmando que o ministro "recebeu o empresário uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo", mantendo os memoriais nos registros.

O que se julga hoje — e o que este material realmente significa

É preciso separar as duas coisas com clareza. O plenário julga a validade da investigação contra Moraes — se Mendonça podia determiná-la sozinho —, com base no relatório da PF que aponta 187 interações entre o ministro e Vorcaro. Não se julga hoje nem a conduta de Moraes, nem a de Nunes Marques, Fux ou Mendonça, nem a de seus filhos. Os nomes que aparecem nestes diálogos não são réus de nada.

Mas o conjunto produz um efeito que nenhuma ressalva jurídica dissolve. Num momento em que a Corte se divide sobre investigar um de seus membros, torna-se público que o mesmo banqueiro investigado transitava pelo entorno de metade do tribunal — pagava viagens, cultivava filhos advogados, celebrava decisões com intermediários. Não é preciso provar crime para que isso seja um problema: a simples demonstração de que um Vorcaro tinha tantas portas abertas no topo do Judiciário já corrói a percepção de distância que a Justiça precisa manter de quem ela julga. E há uma ironia amarga no timing — os ministros que hoje decidem se Moraes será investigado por sua proximidade com o banqueiro descobrem, na véspera, que essa proximidade talvez não tenha sido um privilégio só dele.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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