Em debate marcado por ataques, Lula desafia Flávio a abrir sigilo bancário e telefônico
No primeiro confronto direto da campanha, petista cobrou explicações sobre financiamento do filme “Dark Horse” e desafiou o rival a expor sigilos; fora do estúdio, bastidores tiveram bate-boca, atraso e “batalha” de apoiadores
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- Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) travaram o primeiro debate direto do 2º turno neste domingo (18), na Band, marcado por ataques pessoais mais do que por propostas.
- O ponto mais citado da noite: ao ser cobrado por Flávio sobre o fato de 73% dos presos terem votado nele no 1º turno, Lula respondeu que quer o voto de “100%” dos presos aptos, incluindo o pai do adversário, Jair Bolsonaro.
- Lula também desafiou Flávio a abrir sigilo bancário e telefônico de suas famílias perante o STF e o TSE antes da votação, dizendo que faria o mesmo se o rival topasse.
- Os candidatos discutiram ainda o financiamento do filme “Dark Horse”, o caso do Banco Master, segurança pública, economia e saúde.
- Fora do estúdio, houve atraso de ambos os candidatos, bate-boca entre aliados e “batalha” de apoiadores na porta da emissora.
- Por que isso importa: foi o primeiro confronto direto entre os dois candidatos na campanha e deve pautar o tom da reta final antes da votação do próximo domingo (25).
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram neste domingo (18), na Band, o primeiro debate direto do 2º turno das eleições presidenciais. O confronto, marcado mais por ataques pessoais do que por detalhamento de propostas, teve como ponto alto a discussão sobre segurança pública e o voto de presidiários, além de uma troca de desafios sobre sigilo bancário e telefônico envolvendo as duas famílias.
“Até teu pai pode votar em mim”
O momento mais repercutido da noite ocorreu durante o bloco sobre segurança pública. Flávio Bolsonaro questionou Lula sobre o fato de 73% dos presos terem votado nele no primeiro turno — um dado relativo às seções eleitorais localizadas em presídios e unidades socioeducativas, não ao total de presos do país — e associou o eleitorado petista à criminalidade, perguntando ao presidente: “Em quem você acha que o ladrão do seu celular vai votar?”
Lula rebateu afirmando que quer o voto de todos os presos aptos a votar — incluindo o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que responde a processos na Justiça. Flávio reagiu dizendo “Aqui é o Flávio, não é o Jair” e repetiu, mais de uma vez, que seu pai já havia votado nele.
O desafio do sigilo bancário e telefônico
Outro embate de peso na noite envolveu o tema da ética e transparência financeira dos candidatos. Flávio questionou o padrão de vida do filho de Lula, Fernando Haddad Lula — mais conhecido como Lulinha — no exterior, e voltou a citar o caso do Banco Master e as fraudes investigadas no INSS.
Lula respondeu que seu filho colocou voluntariamente seus sigilos bancário e telefônico à disposição das autoridades para investigação. Na sequência, o presidente desafiou Flávio a fazer o mesmo: abrir, antes da votação do próximo domingo, as contas bancárias e os sigilos telefônicos de sua família perante o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Lula afirmou que faria o mesmo com os próprios sigilos, caso o adversário topasse o desafio.
Banco Master e o filme “Dark Horse”
Lula cobrou explicações de Flávio sobre o financiamento de R$ 134 milhões negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para a produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro — tema que é objeto de inquérito em andamento no STF, autorizado pelo ministro André Mendonça. “Como é que alguém pode pegar R$ 134 milhões e não dizer para onde foi?”, questionou o presidente.
Flávio rebateu perguntando sobre uma reunião de Lula com Vorcaro em dezembro de 2024 e sugerindo favorecimento ao banco durante a transição no comando do Banco Central. Lula atribuiu a expansão dos negócios de Vorcaro ao período do governo Bolsonaro, e Flávio lembrou que a prisão do banqueiro foi decretada pelo próprio ministro André Mendonça — ponto usado pelo candidato do PL para sustentar que o Judiciário age de forma independente no caso. É importante destacar que, até o momento, trata-se de investigações em andamento, sem condenação, e que tanto Flávio Bolsonaro quanto Daniel Vorcaro têm, em diferentes ocasiões, negado irregularidades.
Segurança pública
Flávio propôs classificar o PCC, o Comando Vermelho e milícias como organizações “narcoterroristas”, defendeu a redução da maioridade penal e prometeu a criação de mais de meio milhão de vagas prisionais, além de criticar as saídas temporárias de presos. Lula atribuiu o avanço do crime organizado à gestão isolada dos estados e defendeu a aprovação, pelo Senado, da PEC da Segurança Pública, que criaria um Ministério da Segurança Pública com atuação coordenada da União.
Economia, saúde e outros temas
No campo econômico, Flávio criticou a inflação de alimentos e o endividamento federal, e prometeu remanejar mais de R$ 200 bilhões para abater dívidas de famílias e empresas, além de transformar a Caixa Econômica Federal em um banco voltado a microcrédito — o que chamou de “Itaú das favelas” ou “Bradesco das periferias”. Lula defendeu sua política de estímulo à renda, o programa Nova Indústria Brasil, a atração de data centers e o salário mínimo com ganho real acima da inflação.
Na saúde, Flávio propôs um “SUS padrão Einstein”, com prontuário eletrônico e maior integração entre rede pública e privada. Lula questionou se a proposta significaria, na prática, privatização do sistema — discussão que, segundo relatos do debate, terminou em bate-boca, em meio a risos da plateia. Flávio reconheceu falhas na área da saúde durante o governo de seu pai, mas defendeu as decisões tomadas à época, inclusive durante a pandemia de Covid-19.
Os candidatos também discutiram a relação do Brasil com os Estados Unidos: Lula criticou a atuação da família Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump na negociação de tarifas comerciais, enquanto Flávio defendeu o chamado “Escudo das Américas” e citou aliados de Lula na região, como os governos de Nicarágua e Venezuela.
Bastidores: atraso, bate-boca e “batalha” de apoiadores
O debate também foi marcado por episódios fora do estúdio. Flávio deveria chegar à Band por volta das 18h45, e Lula, às 19h10 — ambos falariam com a imprensa antes da entrada. Os dois candidatos se atrasaram, não concederam entrevista coletiva, e a emissora precisou ajustar sua programação.
O atraso de Flávio gerou tensão entre assessores: o candidato quis chegar acompanhado de aliados, que foram em peso — nomes como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o governador eleito do Paraná Sergio Moro (PL), o senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR) e o influenciador Pablo Marçal chegaram juntos em uma van. Marçal, que ajudou a treinar Flávio para o debate, entrou na emissora ao lado do marqueteiro Duda Lima — que em 2024 era rival da equipe de Marçal, quando trabalhava na campanha de Ricardo Nunes (MDB); um videomaker ligado a Marçal chegou a agredir Duda Lima naquela ocasião, caso que foi parar na delegacia.
Flávio também chegou acompanhado da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, porta-voz econômica de sua campanha. Em seguida, chegaram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador eleito André do Prado (PL). Dallagnol, que estava na primeira fila ao lado de Moro, usava uma camiseta estampada com a frase “eu prendi o Lula”, reproduzindo um slide da Operação Lava Jato com setas apontando para o nome do presidente.
Lula chegou acompanhado da primeira-dama Janja. Também marcaram presença o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e sua mulher, Lu Alckmin, os ex-ministros Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva, o advogado Marco Aurélio Carvalho, os deputados André Janones (Rede-MG) e Tabata Amaral (PSB-SP), e o ex-prefeito do Recife João Campos. O petista teve mais convidados do que Flávio, mas, como o estúdio tinha espaço limitado, apenas integrantes da campanha entraram — o restante dos aliados acompanhou o debate por um telão montado na área externa.
Durante o primeiro intervalo, o ministro licenciado Sidônio Palmeira, que coordena a comunicação de Lula no 2º turno, foi, junto com outros aliados do petista, reclamar diretamente com a equipe de Flávio: segundo eles, durante todo o primeiro bloco o candidato do PL apareceu ao fundo das câmeras enquanto Lula falava, reagindo com gestos e caretas. A movimentação não era proibida pelas regras do debate, e gerou bate-boca entre Sidônio e aliados de Flávio — mas não mudou a postura do candidato do PL nos blocos seguintes.
Do lado de fora da emissora, houve uma verdadeira “batalha” de apoiadores. Desde as 17h, centenas de pessoas vestidas de vermelho e com bandeiras de Lula se concentraram na rua, entoando cantos críticos a Flávio e usando um telão móvel montado no local. Apoiadores de Flávio, vestidos de verde e amarelo, também se reuniram nas imediações, em número bem menor.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.