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Recuperação judicial: Casas Bahia e Marabraz na fila do varejo

Em 48 horas, duas redes tradicionais pediram socorro à Justiça. Por trás dos casos individuais, um mesmo motor: juros a 14%, crédito travado e um consumidor sem fôlego

Recuperação judicial: Casas Bahia e Marabraz na fila do varejo
📷 iStock.com/Rmcarvalho
📋 Em resumo
  • A Marabraz pediu recuperação judicial no sábado (15/8) com R$ 140 milhões em dívidas; o Grupo Casas Bahia protocolou o pedido na noite de domingo (16/8) declarando R$ 17,3 bilhões — a maior cifra do varejo desde a Americanas.
  • Os casos não são isolados: o Brasil fechou 2025 com recorde histórico de empresas em recuperação judicial, e o setor de móveis e eletrodomésticos é o elo mais exposto à combinação de juros altos e queda no consumo.
  • A Tok&Stok (Grupo Toky) já havia entrado no mesmo caminho em maio, e a 123 Milhas segue em recuperação desde 2023, agora oferecendo acordos que empurram o risco para o consumidor.
  • Uma lei nova (LC 225/2026) tenta separar a empresa em crise real do devedor que usa o instrumento como estratégia — e já está no Supremo.
  • Por que isso importa: quando grandes empregadores travam pagamentos ao mesmo tempo, o risco deixa de ser de cada balanço e passa a ser da cadeia produtiva inteira — fornecedores, bancos e trabalhadores.
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Duas das redes de varejo mais tradicionais do país recorreram à Justiça em menos de 48 horas. A Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial no sábado (15/8), e o Grupo Casas Bahia fez o mesmo na noite de domingo (16/8). Juntas, as duas concentram um passivo que beira R$ 17,5 bilhões — e um diagnóstico quase idêntico sobre a origem da crise.

O que Casas Bahia e Marabraz protocolaram

A rede de móveis Marabraz levou seu pedido à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, reunindo cinco empresas sob controle familiar comum e um passivo de R$ 140,188 milhões. A empresa atribui o endividamento ao impacto das taxas de juros elevadas, à retração do consumo e a problemas familiares, e informou que as lojas seguem abertas, com prioridade para a preservação de empregos.

Um dia depois, o Grupo Casas Bahia protocolou pedido na 2ª Vara de Falências de São Paulo declarando uma dívida de R$ 17,3 bilhões. O pedido engloba dez empresas da holding — entre elas as marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia. Do total, R$ 16,4 bilhões são dívidas com credores quirografários (sem garantia), R$ 754 milhões são trabalhistas e R$ 154 milhões envolvem micro e pequenas empresas.

O pedido veio depois de um trimestre devastador. A companhia registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, dos quais R$ 9,1 bilhões correspondem a efeitos contábeis não recorrentes e R$ 978 milhões ao prejuízo líquido ajustado. Foi o oitavo trimestre seguido de perdas — a empresa não reporta lucro desde o segundo trimestre de 2024, mesmo período em que entrou em recuperação extrajudicial. O grupo, que não é mais controlado pela família Klein e tem hoje a gestora Mapa Capital como acionista de referência com 85,5% do capital, informou o fechamento de quase 300 lojas e o corte de milhares de postos de trabalho.

O denominador comum: juros a 14% e um consumidor sem fôlego

O que une os dois casos não está nas famílias controladoras, mas na conjuntura. A taxa Selic foi cortada para 14,00% ao ano na reunião do Copom de 5 de agosto de 2026, no quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março — mas segue, nas palavras do próprio Banco Central, em patamar restritivo. A transmissão do corte é lenta e parcial: linhas de spread alto, como cartão de crédito, praticamente não sentem uma redução de 0,25 ponto.

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Para um varejo que vende geladeira e sofá parcelados em dez ou doze vezes no carnê, isso é decisivo. O custo do dinheiro pressiona os dois lados da operação ao mesmo tempo: encarece a dívida da empresa e esvazia o bolso do cliente. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, resume o mecanismo: mesmo com o início do ciclo de flexibilização, a taxa deve permanecer elevada ao longo de 2026, mantendo pressionado o custo de carregamento da dívida.

Quando o juro alto encarece a dívida da empresa e, ao mesmo tempo, seca o crédito do cliente, o varejo é espremido pelas duas pontas.

Móveis e eletrodomésticos: o elo mais frágil da cadeia

Não é coincidência que os nomes recentes venham do mesmo nicho. Em maio, a Tok&Stok, dentro do Grupo Toky (fusão com a Mobly), já havia entrado com pedido de recuperação judicial citando dívida superior a R$ 1 bilhão; a Justiça de São Paulo deferiu o processamento em 13 de julho de 2026, com suspensão das execuções por 180 dias. O argumento foi o mesmo: ambiente macroeconômico desafiador, com juros altos, endividamento das famílias e restrição de crédito.

O setor carrega ainda uma ressaca específica: o boom de consumo da pandemia, quando as famílias reformaram a casa, inflou estoques e expectativas que o pós-pandemia com juro alto não sustentou.

Um recorde que já vinha sendo desenhado

Os casos individuais se encaixam num movimento macro documentado. Segundo o Indicador da Serasa Experian, o Brasil fechou 2025 com 977 processos de recuperação judicial — o maior volume desde 2016 — envolvendo 2.466 empresas (CNPJs), alta de 13% e recorde da série histórica. A distribuição por setor mostra a amplitude: a agropecuária liderou com 30,1% dos pedidos, seguida por serviços (30%), comércio (21,7%) e indústria (18,2%).

Há um dado silencioso que costuma anteceder a próxima onda. Em janeiro de 2026 havia 8,7 milhões de CNPJs negativados no país, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por empresa — e a inadimplência historicamente precede os pedidos de recuperação.

Um detalhe metodológico ajuda a entender o tamanho real do impacto: um único pedido tem reunido múltiplos CNPJs de empresas interligadas, ampliando o efeito financeiro de cada caso e elevando o risco sistêmico dentro das cadeias produtivas. Marabraz (cinco empresas) e Casas Bahia (dez) são exatamente isso.

Crise de liquidez ou inviabilidade do negócio?

A distinção é o coração jurídico de qualquer recuperação judicial. A defesa da Marabraz sustenta que a crise é predominantemente financeira e de liquidez, e não decorre da inviabilidade da atividade varejista. No caso da rede paulista, há um ingrediente peculiar: imóveis registrados em nome de uma holding familiar, embora não pertencessem às empresas das lojas, eram usados como garantia em operações de crédito — e a ruptura desse arranjo entre patriarcas e filhos secou o acesso a financiamento.

É a diferença entre uma empresa que vende bem mas quebrou o fluxo de caixa e uma que simplesmente parou de fazer sentido econômico. O plano de recuperação, a ser julgado pelos credores, é o que separará um destino do outro.

A outra face: quando a recuperação vira escudo

A 123 Milhas — em recuperação desde agosto de 2023, com R$ 2,4 bilhões declarados e cerca de 800 mil credores — mostra o outro lado do instrumento. Em 2026, a empresa passou a enviar por WhatsApp propostas de acordo com pagamento em até sete anos e meio e descontos, exigindo que o credor desista de ações na Justiça. Uma das opções amarra o ressarcimento a cashback na própria plataforma, convertendo o prejuízo do cliente em consumo futuro na empresa que o deu.

A Defensoria Pública de Minas Gerais chegou a publicar cartilha alertando que a adesão ao plano não é obrigatória e que a assinatura do termo tem efeitos definitivos. É o desconforto de fundo: o mesmo mecanismo que salva o empregador legítimo pode blindar quem transferiu o risco para o consumidor.

A recuperação judicial protege quem quebrou de boa-fé — mas o mesmo escudo serve a quem faz da inadimplência um modelo de negócio.

O que a lei tentou mudar em 2026

O legislador reagiu a essa ambiguidade. A Lei Complementar nº 225/2026, o Código de Defesa do Contribuinte, proíbe o chamado "devedor contumaz" de solicitar recuperação judicial, sob a premissa de que esses casos não derivam de crises temporárias, mas de estratégia ou fraude. A qualificação tem gatilhos objetivos: dívidas com a União a partir de R$ 15 milhões que superem 100% do patrimônio, com atrasos em quatro períodos consecutivos ou seis alternados em doze meses.

A medida é contestada. O Conselho Federal da OAB acionou o STF por meio da ADI 7943, distribuída ao ministro Flávio Dino, alegando que a regra é desproporcional e institui sanção política indireta. O risco apontado por especialistas é o de que a linha entre "devedor oportunista" e "empresa em crise" seja fina demais — e que a etiqueta administrativa acabe empurrando à falência quem apenas tropeçou.

Como isso se reflete na economia

O efeito não fica contido no balanço das varejistas. Cada grande recuperação judicial trava pagamentos a fornecedores — muitos deles micro e pequenas empresas — e transfere tensão para bancos credores e para o mercado de trabalho. No caso Casas Bahia, os R$ 154 milhões devidos a pequenos negócios e os R$ 754 milhões trabalhistas são exatamente os elos que menos têm fôlego para esperar sete anos por um plano.

Há também um recado sobre o modelo de crédito ao consumo brasileiro. Um varejo tão dependente de parcelamento é, na prática, uma financeira disfarçada de loja — e quando o juro sobe, é a intermediação do risco que estoura primeiro. Enquanto a Selic não voltar a um patamar neutro, o carnê continua sendo o ponto de ruptura da cadeia.

Vale um contraponto: parte do aumento reflete normalização, não colapso. Os pedidos de falência caíram 19% em 2025 (698 casos), sinal de que credores e devedores têm preferido alongar dívidas e reestruturar a decretar a quebra. A recuperação judicial, nesse sentido, é também um instrumento funcionando — não apenas um termômetro de doença.

A pergunta que fica não é se mais nomes cairão — a inadimplência corporativa recorde sugere que sim. É outra, mais incômoda: num sistema em que a recuperação judicial pode tanto salvar o empregador honesto quanto blindar quem já embolsou o dinheiro do cliente, quem a Justiça está protegendo em cada caso? A resposta, para Casas Bahia, Marabraz e 123 Milhas, não virá do pedido inicial. Virá do plano — e de quem, no fim, ficará com a conta.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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