Vorcaro se reuniu com Mendonça em endereço privado, diz reportagem
Mensagens do celular do banqueiro, reveladas pela newsletter Noites Húngaras, apontam encontro reservado em março de 2025. Ministro confirma, diz que apenas ouviu e que sua decisão foi contrária ao Master
📋 Em resumo ▾
- Reportagem da newsletter Noites Húngaras (jornalista Paulo Motoryn), reproduzida pelo ICL, aponta que Daniel Vorcaro teve ao menos um encontro reservado com o ministro André Mendonça (STF) em 14 de março de 2025, em São Paulo.
- A reunião teria durado cerca de duas horas, em endereço privado — o Instituto ITER, fundado pelo próprio ministro.
- A aproximação teria sido articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), ambos ligados a Mendonça.
- O ministro confirma o encontro, afirma que apenas ouviu, que o tema era a ação dos precatórios (STP 976) e que sua decisão foi contrária ao interesse do banqueiro.
- Por que isso importa: o material não prova interferência ou vantagem — mas expõe um canal reservado de acesso a um ministro do Supremo, dias após o próprio Mendonça ter deflagrado o caso contra Moraes.
Uma reportagem publicada nesta data pela newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, e reproduzida pelo ICL Notícias, colocou o ministro André Mendonça (STF) no centro do caso Banco Master — o mesmo caso cujo sigilo ele próprio derrubou na última terça-feira para investigar o colega Alexandre de Moraes. Segundo o material, mensagens e áudios extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apontam ao menos um encontro reservado entre os dois, em março de 2025.
É preciso deixar claro, desde já, o que o material mostra e o que não mostra — e o próprio ministro respondeu, confirmando o encontro e negando qualquer irregularidade.
O que a reportagem apurou
De acordo com a Noites Húngaras, o encontro ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e aconteceu num endereço privado: a Alameda Santos, 647, 16º andar, onde funciona o Instituto ITER, instituição de ensino fundada pelo próprio Mendonça em 2023 — e não no Supremo, num gabinete oficial ou numa sede do banco.
A aproximação, segundo a reportagem, teria sido costurada ao longo de semanas por duas figuras próximas ao ministro: o advogado baiano Ciro Rocha Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira. Foi Cezinha quem teria enviado a Vorcaro o endereço e o horário, e quem teria escrito, no dia do encontro: "Ministro já está te esperando."
Os áudios do advogado
O trecho mais delicado da reportagem são áudios atribuídos a Ciro Soares. Num deles, de fevereiro de 2025, o advogado teria enviado a Vorcaro uma foto ao lado de Mendonça e a mensagem: "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno" — referência a uma alfaiataria.
Em outro áudio, Ciro teria afirmado ter deixado o ministro "balançado" com um assunto relacionado aos problemas do Master no Banco Central, e relatado: "O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei."
A reportagem registra, com honestidade, que as mensagens não esclarecem que "trabalho" o advogado dizia realizar, nem se ele tinha contrato formal com o banqueiro. E que a intimidade entre Ciro e Vorcaro era grande — os dois se tratavam como irmãos nas conversas.
A defesa de Mendonça — que muda o eixo
Aqui está o ponto que impede a leitura apressada. Em nota, o gabinete do ministro confirmou o encontro, mas ofereceu uma versão que, se correta, esvazia a hipótese de favorecimento.
Segundo a nota, Mendonça recebeu Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do empresário, e limitou-se a ouvi-lo. O assunto, diz o gabinete, era a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, ação sobre créditos de precatórios de interesse do banco que estava em julgamento no STF — e que, na data da reunião, estava parada por pedido de vista de outro ministro. A nota afirma ainda que o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes da Corte sobre o mesmo tema.
O trecho decisivo da defesa: "a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário". Ou seja, Mendonça sustenta que, no mérito, decidiu contra o interesse de Vorcaro — o que, a confirmar-se nos autos, transforma o episódio de suspeita de favorecimento em, no máximo, questão de decoro sobre o local e o modo do encontro.
Um encontro reservado com um investigado é um problema de aparência. Um encontro seguido de decisão contra esse investigado é um problema menor do que parece.
O que o material prova — e o que não prova
Vale separar com precisão, como a própria reportagem faz. Está apontado no material: a articulação promovida por Ciro e Cezinha, o conhecimento prévio de Mendonça sobre a situação do banco, e a realização do encontro de 14 de março (corroborada pelas mensagens de Vorcaro com o próprio motorista, que registram a chegada e a permanência de cerca de duas horas no endereço).
Não está provado: que Mendonça tenha interferido no Banco Central, prometido ajuda, recebido qualquer vantagem ou tomado decisão em favor do Master. A reportagem é explícita nisso, e o Painel reforça: a existência de uma reunião entre um ministro e um banqueiro não é, isoladamente, ilícito. O interesse público está no contexto — a reserva, o endereço privado, e a articulação apresentada como "trabalho" em favor de Vorcaro.
Um detalhe lateral que a reportagem registra
O material menciona ainda que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de Valéria Linhares, advogada e esposa de Cezinha de Madureira, no aeroporto de Congonhas. A reportagem pondera — e o Painel repete a cautela — que a coincidência de Valéria e Vorcaro serem representados pelo mesmo advogado (Daniel Bialski) não demonstra, por si só, relação entre o dinheiro e o banco. É um ponto de contato entre personagens, não uma prova de vínculo.
O contexto que não se pode ignorar
Há uma circunstância que dá a esse vazamento um peso político particular, e que o leitor tem o direito de conhecer para formar seu juízo: ele vem à tona poucos dias depois de o próprio Mendonça ter derrubado o sigilo do relatório que colocou Alexandre de Moraes sob investigação no mesmo caso Master. O ministro que expôs um colega aparece agora, ele próprio, exposto por um vazamento.
O Painel registra a sequência como fato — sem atribuir a ela intenção ou orquestração, que o material não comprova. Mas a coincidência temporal ilustra a natureza do momento no Supremo: um ambiente em que o caso Master deixou de ter alvos externos e passou a atingir os próprios ministros, um a um. Se ontem o holofote era sobre Moraes, hoje é sobre Mendonça — e a régua que se aplicar a um terá, mais cedo ou mais tarde, de valer para o outro.
Versão em áudio disponível no topo do post.