Fachin derruba o sigilo do caso Master e leva Moraes ao plenário na terça
Na véspera de uma sessão histórica marcada para 15 de setembro, o presidente do STF abriu os autos que expõem contratos milionários entre o escritório da mulher de Moraes e o Banco Master — e conectam o dinheiro do banqueiro preso à cinebiografia de Bolsonaro
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- O presidente do STF, Edson Fachin, determinou na noite de 10 de setembro a derrubada do sigilo dos inquéritos do caso Master, abrindo os autos aos ministros e, em boa parte, ao público.
- Mendonça atendeu e retirou o sigilo de 14 procedimentos ligados ao Banco Master; provas sensíveis, como quebras de sigilo bancário, seguem protegidas.
- Os documentos apontam dois contratos entre o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci, e o entorno de Vorcaro: R$ 131 milhões (Master) e R$ 50 milhões (Viking).
- A revista piauí revelou que Vorcaro enviou US$ 12,3 milhões a um fundo nos EUA ligado à cinebiografia de Bolsonaro, o "Dark Horse".
- Por que isso importa: na terça (15), o plenário do STF decidirá se abre investigação formal contra Moraes — a menos de um mês das eleições.
- O caso atravessa o Supremo, o mercado financeiro e a corrida presidencial ao mesmo tempo
Na noite de quinta-feira (10), o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, tomou a decisão que faltava para transformar uma crise de bastidores no maior teste institucional recente da Corte: determinou a derrubada do sigilo dos inquéritos do caso Master. O objetivo declarado foi permitir que todos os ministros cheguem à sessão extraordinária de 15 de setembro com acesso integral ao que foi apurado — mas o efeito prático foi expor ao país o miolo de uma investigação que enreda um ministro do STF, um banqueiro preso e o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Fachin pediu a Mendonça — relator do caso — que compartilhasse os autos "em HD próprio" com a Presidência e os gabinetes, e Mendonça atendeu, retirando o sigilo de 14 procedimentos ligados ao Banco Master, entre inquéritos, petições e reclamações. Segundo o despacho, permanece protegido apenas o que for estritamente essencial à continuidade das apurações — como dados de quebras de sigilo bancário e fiscal. O "miolo", porém, ficou disponível.
O que já estava à luz — e o que a abertura consolida
Boa parte do conteúdo mais explosivo já havia vazado ao longo da semana, mas a decisão de Fachin dá a ele estatuto oficial e coloca os autos completos diante dos onze ministros. O centro das suspeitas está em dois contratos que ligam o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, ao universo de Daniel Vorcaro:
O primeiro, firmado com o Banco Master em janeiro de 2024, previa honorários de R$ 131 milhões em valores brutos (cerca de R$ 108 milhões líquidos), pagos ao longo de três anos. Segundo o relatório da PF, o contrato foi assinado doze dias depois de um suposto almoço de Moraes em uma propriedade de Vorcaro em Campos do Jordão — e os metadados da versão final do arquivo apontariam um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes" como o último a editar o documento. O segundo contrato, de R$ 50 milhões, foi firmado em maio de 2025 com a Viking Participações, e teria como forma de pagamento até a transferência de duas aeronaves.
O relatório da Polícia Federal — 218 páginas extraídas do celular de Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero — sustenta ainda que Moraes e o banqueiro teriam se encontrado ao menos nove vezes entre março de 2024 e agosto de 2025, e reproduz conversas com um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA".
Os metadados do contrato de R$ 131 milhões apontariam um usuário chamado "Ministro Alexandre de Moraes" como o último a editar o documento — segundo o relatório da PF.
A resposta de Moraes — e a contradição
Ao longo do ano, à medida que as primeiras mensagens vazavam, Moraes negou reiteradamente qualquer relação com Vorcaro. Em fevereiro e março, quando o contrato do escritório da esposa veio a público, o ministro publicou ao menos cinco notas de negação. Em uma delas, sua assessoria afirmou que ele "não recebeu essas mensagens" e classificou o episódio como "ilação mentirosa" com o objetivo de atacar o Supremo. É justamente o contraste entre essas negativas e o conteúdo dos autos agora abertos que o plenário terá de pesar.
Vale um registro de rigor que atravessa todo este caso: nada disso está julgado. São indícios apurados pela PF, contestados pelos investigados, e a própria validade do relatório é uma das questões que o plenário vai decidir. Metadado de arquivo, mensagem de celular e registro de encontro são elementos a investigar — não condenação.
A rota do dinheiro: de Vorcaro ao "Dark Horse"
Aqui o caso se ramifica e alcança diretamente a eleição. Em reportagem do repórter Breno Pires, a revista piauí revelou um relatório inédito do Coaf mostrando que Vorcaro enviou recursos a um fundo nos Estados Unidos — o Havengate Development Fund — que administrava o dinheiro do "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em 16 de setembro de 2025, saiu mais US$ 1,6 milhão para o fundo, oito dias depois de uma cobrança de Flávio Bolsonaro por parcelas em atraso, e menos de duas semanas depois de o Banco Central negar a venda do Master ao BRB. Com esse repasse, o total identificado subiu de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — cerca de R$ 65 milhões —, diante de uma promessa que chegaria a US$ 24 milhões.
Esse é o fio que conecta o escândalo financeiro à campanha presidencial. E não é a única frente: nesta mesma quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, com 49 mandados de busca para apurar o desvio de emendas parlamentares que também teriam abastecido o mesmo filme — atingindo o deputado Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama. Ou seja: o financiamento do "Dark Horse" está sob duas investigações simultâneas, uma pela via do dinheiro privado de Vorcaro (com Mendonça) e outra pela via do dinheiro público das emendas (com Dino).
A guerra que precedeu a abertura
A decisão de Fachin encerra — ao menos por ora — uma semana em que ministros do Supremo derrubaram decisões uns dos outros em questão de horas. Foi Mendonça quem acendeu o pavio, ao expor o relatório sobre Moraes; Moraes revidou pedindo a investigação do colega; Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, alegando monitoramento ilegal; Dino, no dia seguinte, reintegrou Andrei; e Fachin, então, suspendeu as decisões conflitantes, chamou o inquérito das fake news para a Presidência e convocou o plenário. A abertura do sigilo é o passo final dessa contenção: a lógica de Fachin é que ninguém decida "às cegas" na terça-feira.
O caso vira munição eleitoral
Como não poderia deixar de ser a menos de um mês das urnas, a abertura dos autos foi imediatamente capturada pela disputa presidencial — e as posições se dividiram com precisão cirúrgica. O presidente Lula e o PT vinham cobrando a quebra total do sigilo, com o mote "investigação, doa a quem doer", argumentando contra "vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral". Já Flávio Bolsonaro explorou a crise para pedir a saída de Moraes do Supremo e associá-lo ao governo Lula, concentrando o foco no ministro. E candidaturas de fora do eixo, como a de Renan Santos, provocaram os dois: "Mais do que nunca Flávio e Lula precisam explicar toda a merda que vai vazar".
A leitura que emerge é que cada lado quer a transparência que o atinge menos: o governo aposta que a abertura respinga sobretudo no entorno bolsonarista (o dinheiro do "Dark Horse"), enquanto a oposição aposta que ela mancha Moraes — tratado pela direita como aliado do Judiciário contra Bolsonaro. A verdade é que os autos abertos têm potencial para atingir os dois campos, o que explica por que a "transparência total" virou bandeira de todos e conforto de ninguém.
O que está em jogo na terça
No dia 15, o plenário do STF terá diante de si um conjunto de decisões que ultrapassa o caso individual. Terá de julgar a validade do relatório da PF — vários ministros criticaram o fato de Mendonça ter mandado investigar um colega sem aval do colegiado. Terá de apreciar o pedido de nulidade da PGR. E terá de decidir o ponto central: se abre ou não uma investigação formal contra Alexandre de Moraes. O formato da sessão ainda divide a Corte — Fachin quer discussão aberta; aliados de Moraes pressionam por portas fechadas.
Qualquer que seja o desfecho, o Supremo chega à terça-feira num lugar inédito: julgando a si mesmo, com os autos expostos, sob o calor de uma eleição e depois de uma semana em que a autoridade da Corte foi publicamente contestada por dentro. A pergunta que a abertura do sigilo deixa no ar não é apenas sobre o que Moraes fez ou deixou de fazer — é sobre se uma instituição que se acostumou a decidir no sigilo consegue sustentar, agora, o peso da própria transparência. A resposta começa a ser escrita na terça, e dificilmente caberá num só dia.
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